CL 31

 

 

SOBRE A METÁFORA

«Quando olhas para a chama de uma vela de cera ardendo numa atmosfera tranquila sem aragem ou sopro, ela parece-te como uma mobilidade imóvel, intimamente animada de vida, uma forma subtil de fogo e luz tendo por base uma treva azulada donde ascende gloriosa. É como o movimento silencioso do espírito em nós, quando nos consideramos sem a turbulência da alma.

Uma tarde, no Alentejo, estando num montado que é o nome que aqui se dá a uma floresta de sobreiros ou de azinheiras, depois de ter contemplado por breves instantes uma destas árvores, fechei os olhos com a intenção de a ver reproduzida interiormente no espelho da memória tal e qual como a via exteriormente. Não senti surpresa ou espanto, o facto é que, inesperadamente, vi reproduzido todo o montado até ao mínimo pormenor, com todos os seus recortes, mas cada sobreiro era uma mobilidade imóvel, uma labareda estática, cheia no entanto de uma vida poderosa.

Abri os olhos e de novo me apareceram as árvores na sua realidade verde de sobreiros. Verifiquei que a imagem ígnea interior era exactamente igual, em todos os seus aspectos, à que agora presenciava cá fora. Só eram diferentes pela substância: de madeira ou material na forma exterior, de puríssimo fogo no espelho mágico da alma.

Voltei a fechar os olhos, convencido de poder com um simples movimento das pálpebras repetir a visão. Deparei com a treva habitual e isso sim surpreendeu-me.

Mais tarde, rememorando o acontecimento, lembrei-me ao mesmo tempo de uns versos que tinha escrito vinte anos atrás:

Todas as árvores são chamas
Porque é fogo a essência da semente
E tudo que na árvore é e sente
Busca o sol e é sol verde nos ramos.

Aquilo que mais interessou aqui ao aprendiz de filósofo que eternamente sou foi ver que pela metáfora é possível conhecer, embora em modo reflectido, a relação do mundo sensível com o mundo subtil imaginal. A visão dos sobreiros na sua essência ígnea veio confirmar esta possibilidade.

O homem, orando de pé, contemplando o lugar remoto e infinitamente próximo onde imagina Deus, é como um candelabro, entendendo por candelabro o suporte e a vela acesa. Com efeito, no Livro do Esplendor (Zohar), ele é comparado a uma chama, pela correspondência do seu corpo com o combustível; da alma do sangue com a luz azulada e turva na parte inferior da chama, alma que em hebraico se diz nephesh; da própria chama em ascese ardente com o que, no mesmo hebraico, se designa por ruah, palavra para sopro ou espírito com sede no centro ígneo das emoções. Há, porém, à volta da chama, uma atmosfera luminosa imperceptível para quem não a procurar ver: aqui a correspondência no Zohar é com neshamah, a ponta suprema da alma e sua irradiação puríssima, a flor do intelecto.»

 

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