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PREFÁCIO À EDIÇÃO PORTUGUESA

 

«Muito me sensibilizou a iniciativa da Fundação Lusíada de reeditar o meu livro Verdade e Conjetura publicado em 1983, no Rio de Janeiro, pela Editora Nova Fronteira, por muitos considerada a minha obra filosófica mais original. A bem ver, ela representa a retomada de um problema deixado em suspenso pela posição ontognoseológica – firmada em minha Filosofia do Direito (1953) e desenvolvida em Experiência e Cultura (1977) – quanto a poder-se ascender ou não às questões metafísicas, preservados os pressupostos críticos que, a partir de Kant, caracterizam o pensamento contemporâneo.

Foi o entendimento da conjetura como uma forma autónoma de conhecimento, válida de per si e essencial a todos os domínios da ciência – assunto este que constitui a primeira e principal parte deste livro – que me levou a conceber uma Metafísica Conjetural, a seu modo científica, muito embora seu objeto de indagação seja a «coisa em si», prevalecentemente considerada inatingível. É claro que a idéia metafísica, inseparável da tradição cultural portuguesa, é vista por mim em sintonia com o que denomino “criticismo ontognoseológico”, irmão gémeo do “historicismo axiológico”, pois, no fundo, a idéia de valor, em nosso século, adquire a força de um paradigma que amplia o campo de investigação, não se confundindo mais verdade com certeza, conforme se dá quando se considera científico tão somente o que é verificável ou possa ser objeto de teste experiencial. Esse, aliás, um ponto que desde logo distingue o conceito de conjetura de Karl Popper daquele a que pretendo dar um status cognoscitivo próprio, não redutível a modalidade dos raciocínios hipotético, probabilístico ou analógico, como geralmente se pensa.

O pensamento conjetural é antiquíssimo e cada época o apresenta a seu modo, pedindo vénia para lembrar aqui o que Xenófanes escreveu, há mais de 2.500 anos, e que Popper cita na terceira edição alemã de sua obra A lógica da pesquisa científica, nos seguintes termos:

«No início, os deuses não revelaram tudo aos mortais;
com o correr do tempo, todavia, procurando, encontramos o melhor.
Verdades indubitáveis, o homem não alcança e nenhum virá a alcançá-las,
acerca dos deuses e das coisas a que me refiro.
E se alguém viesse a proclamar a Verdade, em toda a sua perfeição ele próprio
não saberia disso: tudo é uma teia de suposições.»

O essencial é que se conjecture criticamente sem se prefigurar a verdade e sem impor a priori imites à imaginação e à fantasia.»

 

Mais informações em Fundação Lusíada: Verdade e Conjectura