Uma Avé-Maria na Ilha de um Pintor

1. A alguns de nós chamou Camões lusíadas em vez de portugueses ou lusitanos. Pena é que o poema épico, Os Lusíadas, seja no vulgo isso mesmo: penoso e até punitivo, a ponto de que os nossos dias apressados no-lo tornem estranho, e portanto estrangeiro. Por presença territorial neste extremo ocidental da Europa serão porventura portugueses os que ainda queiram ser, ligados pela língua, hoje decaída em utilidade comunicativa ou instrumento de finança global, portugueses de corpo que, os de alma serão lusitanos por trazerem neles as raízes imperecíveis de tempos remotos, esses borbotões das fontes de antanho das quais saiu barro construtor e húmus fértil. Mas ser lusíada é mais ainda, contendo e superando, é cada um dos portugueses especiais e subtis, de qualquer classe social, sempre saudosamente capazes de futuro e que nos foram moldando em mareantes do mundo. Cada um desses habita a movente Ilha do Amor, a “Que Vénus pelas ondas lha levava / Bem como o vento leva branca vela” (IX, 52), a “ínsula divina” da qual se avista o Portugal ao paraíso regressado. É neste Portugal que cabe o V Império. Mais do que o velho português, tão necessário quanto amante, apegado à terra e sem o qual não há embarque nem porto de abrigo, mais do que o lusitano ancestral que nos escolheu a alma entre multidões remotas, mais que esses, o lusíada transcende-se em herói ou artista, em poeta ou santo, também em simples viageiro vagabundo revestido de amor, sempre e após a sua Índia ou Viagem. Ser lusíada é ontologia real e activa do verbo amar, a vida reconduzida aos olhos de Deus (“ínsula divina” chamou Camões à Ilha do Amor). O lusíada só pode ser um contemplativo do amor, acto realizador da completude genesíaca da Criação.

2. Manuel de Faria e Sousa, seiscentista e primeiro camoniano, demonstrou de como “a divina auxiliadora” dos portugueses no poema épico jamais poderia ser, por confusa torpeza, a Vénus vulgar reduzida a Eros, e antes seria aquela outra, a Celeste e da Beleza inteligível que os antigos apodaram de Urânica. Afirma mesmo que a Vénus d’Os Lusíadas, sob o título de advogada dos mortais diante de Deus, antecipara em similar função sobrenatural a própria Virgem Maria e, outras vezes, diz o mesmo autor, que no poema ela significa a Igreja oposta ao Demónio. António Telmo, vai para 33 anos, foi o primeiro a decifrar Os Lusíadas como «narrativa poética de uma viagem de conhecimento, ou, se preferirdes de uma viagem iniciática, (…) uma transformação do sentir (…), a revelação, a epifania, o aparecimento de um novo intelec­to que não tínhamos» antes da viagem. O caminho marítimo para a Índia é, no poema, uma espécie de descida aos infernos sendo que «o Adamastor significa o aspecto titânico do próprio Vasco da Gama (…) aparição do seu próprio ser naquele aspecto de força indómita, de violência e orgulho». Através de «Thétis, a do corpo cristalino, a potên­cia hostil transmuda­se (…) na própria energia espiritual de Vasco da Gama» e «a energia destrutiva do ígneo oceano é transmutada em energia erótica e esta utilizada como base da visão suprema». Transcendido, o corpo físico do Gama se sublimará depois, para receber alimento divino na Ilha do Amor. Finalmente, o filósofo do Desembarque dos Maniqueus na Ilha de Camões considera que a forma de conhecimento secreto oculto n’Os Lusíadas «não é, nos planos mais profundos da vida espiritual, incompatível com a verdade católi­ca» a exemplos de Dante ou de Paul Claudel. A poesia lírica, sempre tão menorizada, ela mesma é a chave no segredo do amor. (in O Se­gredo d’Os Lusíadas, Filosofia e Kabbalah).

3. Entre outras passagens evangélicas as seguintes, aquando da Anunciação a Maria (Lc,1), sempre me impressionaram: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo estenderá sobre ti a Sua som­bra». E logo se dispõe a Virgem: «Eis a escrava do Senhor, faça­se em mim segundo a tua palavra — fiat mihi secundum verbum tuum». «Et discessit ab illa angelus — E o anjo retirou­se dela», assim dito literalmente em grego original e que o latim confirma. Que relâmpago! É a força do Altíssimo e a Sua sombra, assegura Gabriel cujo nome significa “força ou sémen de Deus”. Que densidade obscura se guarda no mistério da Encarnação: e o anjo retirou­se dela! Tanta luz que ofusca! Onde estamos? Que alturas ou em que abismos? Nada sabemos e humanamente não o poderemos nunca saber, sendo disto sinal a inclinação corporal, mais insciente que humilde, feita pelos crentes católicos perante estas palavras dominicais do Credo: «E encarnou pelo Espírito Santo, no seio da Virgem Maria, e se fez homem». E o que é ser lusíada na Ilha do Amor? Uma vida entre nascer e morrer, qual nau ou casca de noz no breu da tempestade e do existir? Uma alma sozinha entre mar e céu a sós com Deus? O fiat da Virgem é nódulo e modelo de toda a oração casta, raiz e fruto do gesto interior requerido e que o corpo deve exprimir: «faça­ ­se em mim segundo a tua palavra». Há uma transformação do sentir, um acontecer de revelação e epifania. O Gama e os nautas de Camões dispuseram-se em fiat reflexo ainda que não idêntico perante Deus e a Viagem, venceram-se a si mesmos em seu orgulho titânico, deram-se como viajantes até aos confins do mundo e da alma. O amor humano, a realizar-se, há-de exigir o amor sagrado, só o mistério do matrimónio queima os dois egoísmos amantes porque os olhares se elevam, a Vénus erótica resolve-se em urânica, o oaristo do casal sobe a santidade. É pouco comentado que na Ilha do Amor, depois dos «famintos beijos na floresta» (IX,83), os nautas casam com as ninfas: «As mãos alvas lhe davam como esposas / Com palavras formais e estipulantes» (IX,84). Só depois a Tethys venusina, oceânica e ocidental, pode mostrar ao Gama o centro imóvel do universo na «(…)Sapiência / Suprema de c’os olhos corporais, / Veres o que não pode a vã ciência / Dos errados e míseros mortais» (X,76). Dos amantes, em amor sexual e casto, porque puro, irradia conhecimento supremo e santo.

4. Numa manhã de Outubro de há dez anos fui à Igreja de Nossa Senhora da Conceição em Vila Viçosa. Na imensidão dos bancos cor- ridos não estava ninguém, apenas o sol se derramava, silencioso e tépido, sobre o tapete azul celeste do altar-mor frente à Virgem. De repente, vieram-me aos olhos cinco quadros em sucessão, o primeiro dos quais era A Ilha do Amor camoniana (Quadro I): um adolescente que me pareceu dormir sob uma romãzeira sustentando a “ilha angélica pintada”, estava agora ali, deitado no tapete azul, enquanto a Virgem lhe cuidava do sono e do sonho. Depois vi sucessivamente A Harmonia das Esferas (Quadro II), um oaristo luminoso a dançar o tango, o Beijo no Medronheiro (Quadro III) embebedando o casal, O Mistério do Matrimónio (Quadro IV) até ao Amor, Máquina do Mundo ou o Mistério da Esfera Armilar (Quadro V). As cinco imagens as vi ou imaginei ali, encadeadas e serenas, nítidas como nó de alma e figuração futurante. Rezei agradecido e saí. À tarde tive que fazer uma curta viagem de automóvel e nela meditei a sucessão pictórica ausente: ao amor humano visto na Igreja faltava-me, cá fora, o amor sagrado. Em menos de um quarto de hora chegou-me a segunda metade, clara e ascendente: A Anunciação (Quadro VI), A Visitação (Quadro VII), O Presépio (Quadro VIII), A Crucificação e a Ressurreição (Quadro IX), finalmente A Rainha do Céu (Quadro X), essa mesma que presidira à “aparição” matinal dentro da Igreja. A oração da Avé-­Maria acompanhou-me o ritmo visual de tal modo e foi tudo tão eloquente e sôfrego que, antes de chegar com o automóvel a uma ponte, lembro-me bem, fui com a mão ao botão do rádio para aumentar o som de uma música lindíssima produzida por sinos e que entretanto ia escutando distintamente. Seria talvez similar, sem que o fosse exactamente, ao Tubular Bells de Mike Oldfield. Os sons preenchiam-me em harmonia perfeita mas, vi depois, incrédulo, que o rádio estava desligado, e ao ver, a música acabou. O que escutara viera de dentro, interior aos cinco quadros.

5. Lusíada é cada um dos portugueses que, a seu modo, se transcende no espírito de Portugal. Só depois da Índia e em vez da canela e da pimenta é que os nautas aportaram à “ínsula angélica pintada” a qual, como barco se movia. Esse lugar cristalino e movente é reflexo de um Portugal sagrado visto do mar, é paisagem nova de quem a nós regressa depois da Viagem interior dos contemplativos do Amor: “angélica” porque a perspectiva é a dos anjos, “pintada” porque transfigurada pela imaginação vivente dos homens em mistério de Encarnação que sacraliza o amor conjugal. Os nossos heróis, artistas e santos vivem na Ilha do Amor e é de lá que cuidam e amparam os que se revêem no espírito de Portugal, «onde a terra se acaba e o mar começa», uma linha de praia que é fio dourado e indefinido entre dois mundos, o dos homens e o de Deus. Todo o lusíada se há-de vencer em seu orgulho terroso até ser sangue novo que o Amor subtiliza, seja Gama, mas também Veloso ou Leonardo porque as classes, agora, é o espírito que as ordena. Pela Tradição viva e necessariamente actualizada o passado é futuro, os portugueses sobem a lusíadas e matam saudades do paraíso enquanto recriam vida. Uma Avé­-Maria na Ilha de Camões são dez quadros ou dez ilhas dispostas em arquipélago. Também podem ser dez estações de viagem humana e sagrada se, pela graça, nos abrirmos ao «fiat verbum tuum». “Faça-se”! O resto é com Deus.

Março de 2013, Carlos Aurélio

 

Uma Ave na Ilha do Amor

Num livro secreto chinês observa-se, numa analogia com as realizações espirituais superiores, que a galinha pode chocar os seus ovos porque o seu coração a eles está sempre atento; pois se a simples força do calor não vai além da casca, é ao coração que cabe, escutando, interiorizar esse calor até ao imo do ovo, vivificando desse modo o seu filho e imagem. Mesmo que a auroral ave se afaste dos ovos, prossegue caminho concentrada e esta ligação secreta mantem-nos no reino dos vivos. É graças a essa ligação que conhecerão ademais outro nascimento. A nossa sorte é diferente porque a nossa desconcentração é a causa do nosso exílio. Sem darmos por isso, dormimos como um efebo aos pés da árvore da vida, ainda que o simples facto de nos acharmos no universo faça já de nós mónadas que compõem essa mesma árvore. Carlos Aurélio, porém, quer pintar o mais vívido dos sonhos de esse efebo que é uma imagem da nossa alma.

Assim é que na primeira pintura das dez em que Carlos Aurélio ex- põe a sua visão insular da criação deparamos com a cena a que vimos aludindo: sobre as águas primevas flutua um ovo e por cima dele, envolvendo-o tal como a água em que repousa, está um firmamento com suas estrelas e traços marinhos a indicar tratar-se das águas supramundanas. Tal firmamento radioso está, além disso, aberto ao meio ao alto como uma coroa no topo de uma romã, sugerindo que algo mais paira sobre ele, assim como sobre toda a cena representada. Porém, visto de outro ângulo, podemos pura e simplesmente estar a assistir ao ovo do mundo que acaba de chegar do céu. Eis talvez um mistério.

Carlos Aurélio vê o ovo do mundo como uma ilha ou a ilha como ovo do mundo. Trata-se da ilha de um pintor, como ele mesmo diz. Encontramo-nos aí na antemanhã sobrenatural de um mundo novo, posto que o ovo, sem eclosão, contém já tudo em si. Ergue-se uma romãzeira carregada de frutos e de 9 aves, três das quais de cor de flama viva. Ergue-se a árvore do coração do mundo e sobre este, abraçado a ela, dorme um efebo. Sonha no coração do mundo. Enquanto uns sonham em fazer guerra aos outros, outros sonham em despertar uns para habitar na Ilha do Amor. “A Imaginação elabora pela noite como clarão do além ­futuro chegado até nós”, escreveu o autor do Mapa Metafísico da Europa. Este efebo, cumpre dizê-lo, é também Neptuno.

Nesta mesma pintura cuja interpretação sugerimos, pois o mais vem por acréscimo, no lugar da imagem tradicional da Serpente que desce da árvore cósmica, uma das três Aves sopra ao efebo um segredo santo e o sonho deste transforma-se na luz colorida e nas formas da imagem primeira que somos convidados a contemplar. Esse efebo, como já se percebeu, somos nós próprios, que sonhamos no coração do mundo sem saber. Mas o hipnófilo pintor espera no Amor que move os mundos e por essa razão coloca na formosura de uma mulher Aquela que baila sobre o seu próprio centro no topo da ilha, num lago de cisnes que se confundem com o cristal líquido em repouso entre os três formosos outeiros onde Luís de Camões e António Telmo se encontraram.

Do meio do lago jubiloso o único Cisne de verdade ergue-se, contudo, recordando-nos as palavras da Anunciação: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo estenderá sobre ti a Sua sombra».

 

Rodrigo Sobral Cunha