CL 10

 

«O encanto, diferentemente do espanto, não provoca pela dependência nem pelo embate, porque, como o mistério que manifesta, preserva a liberdade de escolha do ser encantado, age pela sedução do espírito, que emerge como um perfume benévolo.

O duplo sentido de origem, imanente e transcendente, é próprio de, e indispensável a toda a metafísica que se imponha recuperar o ser, desde a origem à sua última expressão.

Os movimentos do encanto são, assim, solidários da visão criacionista e pode mesmo dizer-se que a têm por condição prévia.

Uma teoria universal do encanto deve esgotar as diferenças essenciais que desabrocham do verbo encantar, cuja raiz latina (incantare) contém, em si mesma, o significado de enfeitiçar e de cantar em. Este último significado, traduzindo o canto que a simples existência das coisas emite, exprime o misterioso princípio originário que há nelas e tem, simultaneamente, a função de nos atrair para o conhecimento desse mistério. É, contudo, uma atracção que não resiste à análise racional e à interrogação crítica, porque como diz Schiller, “o encanto da beleza apoia-se em seu mistério; se desfazemos a trama subtil que enlaça os seus elementos, evapora-se a essência toda”.

Com efeito, por definição, a mónada amorosa é composta por duas substâncias, que são os amantes, e sem esta complexidade não haveria sequer o amor que a qualifica. Contudo, essa complexidade não retira à mónada, nem a simplicidade nem a indivisibilidade, que importam à sua autonomia.

Na realidade, o que torna simples a mónada não é a sua composição estrutural no seu conjunto, mas o princípio que a informa e esse, da ordem do espírito, não só é simples em si mesmo, como transforma os compostos substantivos em unidades irredutíveis ou indivisíveis.

De facto, e enquanto o amor dá forma aos cônjuges, a unidade que prefiguram é simples e irredutível, embora, como substâncias, componham essa estrutura.

A aparente contradição interna desfaz-se, tendo em conta que o princípio simples espiritual reserva o poder transformador e que essa transformação se efectua numa relação completa com o corpo, alma e espírito dos amantes.»

 

Mais informações em Fundação Lusíada: Teoria do Amor e da Morte