Quais as razões que levam à emigração? Quais as apostas feitas em novos mercados? Serão os portugueses emigrantes empreendedores? Foi a estas questões que o estudo «Empreendedorismo e Estratégias de Negócios dos Emigrantes Portugueses», realizado por José Braga da Costa, quis responder. “O facto de um emigrante português abrir o seu próprio negócio demonstra a sua maturidade e segurança na gestão de uma empresa, e ao mesmo tempo que se sente adaptado à realidade local, não tendo medo de assumir riscos”, afirma o investigador.

A investigação foi realizada por José Carlos Braga da Costa, 25 anos, gestor de empresas, no âmbito do seu mestrado em ‘Gestão Comercial’. “Este estudo surgiu de um convite realizado pela professora doutora Maria Conceição Ramos, uma especialista na área das comunidades e migrações, para inicialmente abordar o tema do empreendedorismo dos emigrantes portugueses aliado, num segundo plano, às estratégias de negócio, uma vez que está associado à minha formação académica”, explicou José Braga da Costa ao ‘Mundo Português’.

Para responder a estas três questões de base, o investigador realizou 56 inquéritos a empresários portugueses radicados em vários países – Alemanha, Angola, Austrália, Áustria, Brasil, Canadá, Colômbia, Espanha, Estados Unidos da América, Finlândia, França, Indonésia, Inglaterra, Irlanda, Luxemburgo, Moçambique, Namíbia, Suíça e Venezuela.

Os inquiridos responderam a 53 perguntas, divididas em cinco partes; questões sociodemográficas e condições profissionais antes de emigrar; o antes e o depois da abertura do próprio negócio, já no país de destino; a caracterização da empresa; o empreendedorismo; estratégias de negócio.
Na documento de apresentação do trabalho, José Braga da Costa explica que o estudo pretende “conheceras escolhas dos portugueses no que aos países de acolhimento e de negócios diz respeito e as razões que levam estes portugueses a abandonar o nosso país”. Mas o objetivo principal, sublinha, foi perceber até que ponto, “os emigrantes portugueses são empreendedores nas suas atividades de negócio e procura de novos mercados”.

As respostas que recebeu dos inquéritos enviados, permitiram concluir, entre outros elementos, que o empreendedorismo dos emigrantes portugueses “tem um impacto direto nas comunidades de acolhimento, uma vez que se verifica um investimento económico local assim como a criação de emprego ou a abertura de horizontes para futuros investimentos”. “O facto de um emigrante português abrir o seu próprio negócio demonstra a sua maturidade e segurança na gestão de uma empresa, e ao mesmo tempo que se sente adaptado à realidade local, não tendo medo de assumir riscos”, revela o estudo.

O investigador lembra que  nem todos os emigrantes na hora de emigrar têm em mente ser empresários no país de destino. E em alguns casos, acabam por sê-lo por não verem outra saída senão o autoemprego. Mas outros há “que já partem com esse objectivo”, mas precisam de algum tempo para conhecerem o país, a cultura local e o mercado em que se querem inserir. “Num contexto geral, concluímos que 34% dos empresários demorou seis ou mais anos e que 29% demoraram apenas entre 1 a 2 anos até abrir o seu negócio. Entre os empresários que já tinham uma empresa em Portugal, verifica-se que 42% demorou entre 1 a 2 anos, em contrapartida de apenas 15% que demorou seis ou mais anos. No sentido oposto, a grande parcela daqueles que nunca tinham tido o seu próprio negócio em Portugal, concentram-se nos que demoraram seis ou mais anos, onde se verifica 61%, contra apenas 9% nos que demoraram menos de dois anos. Seguindo esta linha de pensamento, concluímos que à medida que a estadia dos empresários sem experiência em Portugal vai aumentando no país de acolhimento, o número de negócios também, ao contrário dos que já detinham experiência em Portugal, que vai diminuindo”, lê-se no estudo.

Um universo masculino
O perfil sócio económico dos entrevistados mostrou que há mais homens a abrir empresas na diáspora portuguesa e a maioria tem mais de 40 anos. Setenta por cento das empresas foi aberta por homens, contra apenas 30% criadas por mulheres. Relativamente às idades, a grande maioria dos inquiridos tem entre os 40 e 50 anos (30%) – resultado que vai de encontro à tese de que o empreendedorismo geralmente passa por uma fase mais madura da carreira dos profissionais que primeiramente preferem ganhar experiências e vivencias como empregados.

Nos restantes intervalos de idades, 27% dos inquiridos tinha entre 30 e os 40 anos e 18% tinha entre 60 e 70 anos. Na faixa etária entre os 50 e os 60 anos estava, 16% dos inquiridos. Do total de empresários que respondeu ao questionário, 50% possui dupla nacionalidade, algo que, seguramente, está relacionado com as vantagens que estes empresários possuem no país de destino.

Sobre a terra natal, destacam-se três zonas de Portugal: Centro, Norte e Lisboa, que correspondem a 27%, 23% e 20% respetivamente. “De referir ainda, que sete dos inquiridos têm como locais de nascimento o Brasil, África do Sul, Moçambique e Angola, países tradicionalmente ligados a Portugal”, revela o estudo. Quanto às qualificações académicas, os licenciados foram os que mais se destacaram entre os inquiridos com uma percentagem de 38%, seguido pelas pessoas que terminaram o ensino secundário e que representaram 20%. Depois, com valores mais próximos, verifica-se que 14% são mestres, 13% concluíram o 9º ano e 11% apenas estudaram quatro anos, a “antiga 4ª classe”. Apenas 3 inquiridos são doutorados, representando 5% da amostra.

Maioria emigrou de 1990 a 2009
O que motivos estes empresários a emigrar? À semelhança de grande parte dos casos de emigração portuguesa, a maioria dos inquiridos deu como razão, o reagrupamento familiar. “O reagrupamento familiar acaba por pesar mais na decisão sobre o destino do que sobre questões de negócio, como a análise a mercados propícios à instalação de novas empresas ou realização da carreira profissional”, explica José Braga da Costa.

Mas houve também quem referisse a procura de melhores condições no mercado de trabalho e a vontade de viver num outro país, como razões para emigrar. No caso desses, as diferenças salariais e a falta de oportunidades de trabalho em Portugal, justificaram a saída. Mas também houve quem tivesse apontado a vontade de conhecer novas culturas, e a decisão de estudar fora de Portugal,  através do programa de ERASMUS, por exemplo.

A grande maioria dos inquiridos saiu de Portugal entre os anos de 1990 a 2009, o que também vai ao encontro da principal faixa etária inquirida, que se situa entre os 40 e 50 anos – e significa que saíram de Portugal com uma média de idades entre os 25 e os 30 anos. Quanto à experiência empresarial prévia, 33 (59%) deles já tinham sido empresários em Portugal antes de emigrar, o que reforça a sua capacidade de gestão. Destes 33 empresários, 20 deles, (61%), mantiveram-se nas mesmas áreas de negócio nos países de acolhimento, justificando as suas razões de emigração, uma vez que a maioria mencionou que saiu de Portugal porque este não era propicio à criação do próprio negócio ou que aspirava melhores condições de trabalho no país de acolhimento.

A grande maioria dos inquiridos vive no mesmo país desde que emigrou pela primeira vez, sendo que somente 13 (23%) já estiveram emigrados em outros países antes de se instalarem no país atual. No que toca à posição atual dos inquiridos, estes distribuem-se por 19 países, e sem grande surpresa, países como Canadá, Inglaterra, Austrália, Estados Unidos, França e Brasil surgem no topo das preferências dos portugueses.
“Com estes resultados, concluímos que os portugueses, nos anos mais recentes, estão a procurar países mais diversificados do que os seus antepassados procuravam, uma vez que estes se limitavam a emigrar para os países onde por norma já se encontravam portugueses e assim se conseguirem adaptar mais facilmente”, revela o investigador.
É o sector do ‘Comércio por Grosso e a Retalho’ que concentra mais empresas detidas pelos portugueses no estrangeiro que responderam ao questionário – 23%, seguido de duas áreas totalmente distintas: a ‘Construção Civil’ e a ‘Consultoria/Cientifica’, representando 14% cada. Com 11%, aparecem as áreas de ‘Serviços’ e ‘Informação e Comunicação’.
As razões por terem optado por determinada área de negócio que mais se evidenciaram foram a experiência, a previsão de sucesso, a paixão pela área de negócio e o crescimento de mercado foram as razões apontadas por terem optado por determinada área de negócio. “O facto de tanto a experiência como a previsão de sucesso estarem no topo das escolhas dos emigrantes, representa por um lado a segurança que estes sentem na hora de abrir um negócio e por outro a ambição e o acreditar de que a opção que tomaram vai ser bem-sucedida, não esquecendo que 63% dos inquiridos realizaram um estudo de mercado antes da abertura”, assegura José Braga da Costa.

O tipo de empresa considerada de ‘Sociedade Limitada’ é a que mais se destaca, (57%), entre os entrevistados e com maior incidência nos homens, já que nas mulheres, verifica-se um equilíbrio entre a ‘Sociedade Limitada’ e o ‘Empresário Individual’.

Sendo a maior parte das empresas consideradas como pequenas, a maioria da amostra concentra-se nos que não têm qualquer funcionário ou terão até um máximo de nove, “uma vez que a maioria das empresas dos emigrantes portugueses são consideradas como micro ou pequenas-empresas e em muitos casos são de cariz familiar”. Mas no caso das empresas com funcionários, o estudo verificou que 43% deles já contrataram portugueses que residem em Portugal e neste momento 41% têm funcionários portugueses. “Este fator pode estar ligado com o reagrupamento familiar, com a intenção de facilitar a integração de novos emigrantes, entre outros”, refere o investigador.  Dos 56 inquiridos, 61% deles assumiram que depois de emigrar já facilitaram a emigração de familiares/amigos, mesmo não sendo para as suas empresas. E o que significa para os entrevistados, o termo ‘empreendedorismo’?

A maioria associou-o a “identificação de oportunidades” e à “criação de um novo negócio aliado a algo inovador” (30% e 27%, respectivamente). Para os restantes empresários que se consideram empreendedores, a maioria considera que as caraterísticas que mais se enquadram no seu perfil são a ‘liderança’, o ‘espirito criativo’, a ‘paixão pelo seu trabalho’, ‘observador’ e ‘autoconfiante’. E a maioria também assume que a inovação faz parte das suas estratégias de negócio.

Empresas abertas com poupanças pessoais
O estudo pretendeu ainda perceber qual é a estratégia seguida por aqueles empresários, relativamente a várias questões. Mais da metade assumiu o mercado nacional no país de acolhimento como o seu grupo-alvo: é no seu pais de residência que apostam as suas vendas. Em segundo lugar (21%), apareceu o grupo de empresários que definem o mercado internacional como o seu alvo e somente 11% dos inquiridos indicaram que os emigrantes portugueses são o seu grupo-alvo – o que mostra que estes empresários não limitam as suas vendas aos nichos étnicos. “Apesar de não terem o mercado internacional como alvo, alguns dos empresários também exportam, sendo que no total, 27% dos inquiridos, assumem que a exportação já faz parte dos seus negócios”, revela José Braga da Costa.
O capital financeiro para a abertura da empresa, saiu, para a maioria dos inquiridos, de poupanças pessoais. Outros obtiveram um empréstimo bancário, enquanto uma minoria recorreu a familiares, ao Estado ou a associados. Um outro ponto analisado ao longo do questionário foi a dificuldade que sentiram no país de acolhimento, quando abriram o seu negócio. “Podemos concluir que os empresários portugueses inquiridos não encontram muitos entraves”, revela o estudo, acrescentando entretanto que o fator com maior peso foi a “concorrência”, e depois as “questões fiscais” e o “acesso ao financiamento”.

Quanto à facturação, a grande maioria das empresas estudadas não ultrapassam os 500 mil euros anuais. “Consideramos ser importante referenciar que cinco inquiridos detêm um volume de negócios anual de seis milhões ou mais, uma vez que podem ser considerados como exemplos a seguir por parte dos outros empresários”, revela ainda o estudo.

De referir ainda, que a grande maioria dos empresários indicam que das estratégias genéricas que utilizam, a “diferenciação” é a estratégia escolhida, e apenas quatro inquiridos admitem a “liderança de custos” como a estratégia utilizada. Por fim, o investigador colocou a questão do regresso a Portugal. Dos 56 inquiridos, 33 deles indicaram essa vontade, (59%), no entanto, 13 (23%) deles revelaram que só depois de estarem reformados.

JOSÉ BRAGA DA COSTA
“Fiquei surpreendido pelo facto de metade dos inquiridos possuírem dupla nacionalidade”
Houve respostas que surpreenderam José Braga da Costa. “Por exemplo, em termos sociodemográficos, fiquei surpreendido pelo facto de metade dos inquiridos possuírem dupla nacionalidade e a grande maioria ser licenciado”, revelou ao ‘Mundo Português’, acrescentando ter percebido que a opção em se nacionalizarem prendeu-se com a tentativa “de diminuição de barreiras na criação do seu próprio negócio, que se podem traduzir em menos burocracia ou um maior acesso ao financiamento”.
O grau académico dos entrevistados foi outra surpresa tendo em conta que as áreas de negócio tradicionais dos empresários da diáspora são a construção civil ou o comércio. “Verifiquei que a área de ‘Consultoria ou Cientifica’ surge no segundo lugar das áreas de negócio mais representadas a par da ‘Construção Civil’. Este último fator está associado ao facto de nos últimos anos muitos dos recém licenciados portugueses terem optado por emigrar tendo em conta a elevada taxa de desemprego jovem e também, os programas internacionais de estudo”, explicou.
Questionado se este trabalho abre portas para outros com esta temática, José Braga da Costa assume que, com o estudo «Empreendedorismo e Estratégias de Negócios dos Emigrantes Portugueses», levantaram-se “outros temas interessantes que deveriam ser alvo de investigação”, e enumera alguns, como um que se centrasse no emigrantes com graus académicos elevados. “De estudos realizados num passado recente sobre emigrantes portugueses, verifiquei que o número de licenciados era muito reduzido. Seria interessante perceber as razões que levam estes jovens a sair de Portugal para abrirem o seu próprio negócio num país estrangeiro e não em Portugal. Entram em áreas de negócio com pouca presença? Encontram menos concorrência?”, questiona.

José Braga da Costa gostaria ainda que ver elaborado um trabalho de investigação sobre portugueses emigrantes que apostam em “novas áreas de negócio” no estrangeiro. “O facto de termos emigrantes com habilitações académicas mais elevadas, novas áreas de negócio com presença portuguesa vão surgindo. Que novos negócios estão a surgir? Até que ponto os certificados obtidos no nosso país são equivalentes em outros e permitam a exerçam do seu trabalho?”, aponta.

Outro estudo que considera interessante prense-se com a abertura de negócios em países cada vez mais diversificados. “Ao longo da minha dissertação e com os resultados obtidos através dos inquéritos, verifiquei que atualmente muitos dos emigrantes olham para o mundo como um mercado global e procuram uma oportunidade de negócio independentemente da sua localização”, algo que explica pelo maior acesso à informação e o espirito empreendedor dos portugueses.
São emigrantes que se instalaram em países sem grandes comunidades lusas e que o levam a questionar se, nestes países, “estão a ser criadas novas comunidades e como tal estejam disponíveis excelentes oportunidades negocio relacionados com enclave étnico”.

 

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