Intróito 

PORTUGALIDADE

O que é – como nasceu – como se assume e se pratica

E no principio era o VERBUM.

E o “Verbum” é a Palavra.

E a Palavra é o SOM e a Imagem, da Ideia.

DEUS, antes de “ordenar” e “pronunciar” o “FIAT LUX”, já sabia o que “era a luz” e já conhecia em pleno, quais as consequências cósmicas, do fazer-se a Luz.

Por isso, e por causa disso, é que ele pronunciou o Som: FIAT LUX.

Um Povo, só é povo, e independente, e autónomo, e não confundível com os outros povos, quando possui e exerce em pleno o uso de uma LÍNGUA própria, isto é: de um pensamento autónomo.

Um agregado humano – societário – só verdadeiramente existe e é autónomo e adulto, se usa uma PALAVRA diferente da que usam os povos limítrofes.

E a Palavra, como é som e Imagem de uma Ideia, só assume uma identidade própria e diferente da dos outros povos, se acaso e verdadeiramente é a expressão de uma IDEIA NOVA, de uma Ideia diferente, a qual os outros povos ainda desconhecem e, como tal, não a comungam entre si.

Uma “Palavra Nova”, ou uma “linguagem nova” só aparece num estrato social humano, localizado num Espaço (geográfico certo), e num Tempo (histórico) determinado, quando esse aglomerado social humano (ou alguém individual que faz parte desse agregado humano) tem uma Ideia Nova, ou uma Ideia diferente, daquela que já existe, e é praticada pelos povos seus vizinhos ou confinantes.

E se as Ideias Novas se encontram estruturadas e transmitem um Ideal e um Objectivo de vida novo, elas vão dar origem a uma “MENSAGEM”, a uma mensagem nova, a um Ideia diferente de um Povo estar, e ser, na vida colectiva.

E essa “ideia” para, e por ser mesmo nova, (verbal, ou escrita) deve ter e assumir um “Som Novo”, um “Som diferente”, o que acontece, através do aparecimento – da criação – de uma “Palavra Nova”.

E se essa Ideia-nova, através de Som-novo, faz surgir uma Palavra-nova, assistimos então ao início, e ao alvorecer de um linguagem, ou de uma nova língua.

Faz-se Luz no Espírito, e a palavra nova – nasce.

E esta “nova língua” ou “nova linguagem” estrutura-se, fortifica-se e desenvolve-se, na proporção geométrica, do grau de comunhão que todo um agregado social-humano, fizer de tal ideia nova.

E assim, um Povo começa a comunicar-se entre si, e entre si e os outros, através de uma “nova língua”, de uma “nova linguagem”.

Pois na verdade, esse Povo, começou a comungar inteiramente entre eles, dessa “nova palavra” que teve de ter um “novo som” e que na verdade, foi socialmente assumida pela comunhão de uma Ideia nova. Que, por ser nova, os outros povos circundantes, não só a não conheciam, como por isso mesmo, não tinham qualquer palavra para a transmitir uns os outros.

E quando tal fenómeno “criativo” acontece, então, um Povo, um agregado social-humano, circunscrito num Espaço geográfico real, e num Tempo histórico bem determinado, assiste e participa na “criação” de uma Nova língua.

E foi assim, que a língua Portuguesa “apareceu” na Europa (à beira do Atlântico no mais extremo ocidental da Europa) e no virar de um Milénio (o 1º milénio depois de Cristo ter aparecido, morrido e ressuscitado).

A Língua Nova, que viria a dar a língua portuguesa, (quer certos intelectuais gostem ou não da ideia) apareceu, e desenvolveu-se, como forma de um povo (geográfica e temporalmente bem definido) exprimir essa Ideia Nova, essa MENSAGEM NOVA, que era até então desconhecida quer por romanos (latinos), quer por vândalos (godos e suevos), quer por safarditas (judaicos), quer por mouros (linguagem arábica), quer por Cristãos iberos (galaico-leoneses-castelhanos).

Sim, se na verdade, e num Espaço (geográfico e bem delimitado – em Terras de entre Douro e Minho) e num TEMPO (bem definido – entre séc. X e XI) não tivesse “aparecido”, “assumido”, e “bem comungada colectivamente”, essa IDEIA Nova, essa Ideia Diferente daquela que os povos circundantes já tinham e praticavam (galegos, judeus, leoneses, castelhanos, mouros), jamais a língua portuguesa teria existido.

Jamais a língua portuguesa teria sido falada ou escrita.

Jamais teria sequer existido uma Pátria Portuguesa, pois língua portuguesa não teria havido.

Só a necessidade de “inventar”, de “criar” uma ou várias palavras-novas (novos sons que até aquela altura eram desconhecidos) é que deram origem, a que, pouco a pouco, essas “Palavras Novas” apareciam, pois “traduziam” e eram “expressão” dessas “novas ideias” que repetimos, os povos circundantes não conheciam, e como tal não praticavam.

E essas “Ideias novas”, essas “palavras novas” foram tão “sentidas”, e “reconhecidas”, e “comungadas” por tal agregado social, que, pouco a pouco, mas sempre em expansão, em extensão, e em ascensão, se foi desenvolvendo, aumentando, alicerçando, durante mais de dois séculos (200 anos) até que já em 1199 (com as poesias de D. Sancho) e de – 1320 (D. Dinis) e as obras literárias de 1420 (D. Duarte) se pode com toda a verdade dizer, e proclamar, que a língua Portuguesa era UNA e falada por todo um Povo comungando dela (Nação), e num Espaço perfeitamente delimitado e geograficamente e internacionalmente respeitado – (Estado).

E qual terá sido essa “Ideia-Nova”, esse Som-Novo, essa palavra diferente essa Mensagem Nova que foi génese de nova Língua?

Talvez tenha sido o que hoje chamaríamos de ideias de:

- Autonomia e Individualização;

- Grito contra a escravidão;

- Desejo de independência;

- Clamor contra a pobreza;

- Vontade de ser, de ser, de ser, e de ser mais;

- Ânsia de Aventura – conhecer cada vez mais pessoas e povos, conhecer cada vez mais Mundos;

- Fartos de conhecer, – e de estar no “fim da Terra – Europa – querermos conhecer o MAR.

- Consciência de não suportar mais servidões;

- Querer mais lutar que sofrer;

- Lutar para vencer e vencer para amar;

- Preferir avançar morrendo, do que vivendo – fugindo de si e dos outros;

- Ser amante e ser amado;

- Ter honra em ser Filho, e ter honra em ser Pai;

- Sentir o dever de mandar, mais do que a obrigação de obedecer, e de obedecer sobretudo a incompetentes, frustrados, raivosos e imbecis;

- Não tolerar mais a vaidade estulta, nem a opressão do estúpido e do néscio;

- Querer conhecer o Mundo sem nunca renegar ou sequer esquecer a Terra onde nasceu, o lugar onde sua Mãe o “deu à luz”;

- Criando e sentindo a Saudade;

- O ter de proclamar a toda a gente, que o que está em cima está presente em baixo;

- Que o que está em baixo é reflexo e pura imagem do que está em cima;

- Que quando o discípulo está pronto, o Mestre também o está;

- Que mais vale morrer como herói, do que servir com perfídia, servindo e servindo-se constantemente dos outros;

- Que sendo todos humanos, todos se deveriam amar uns aos outros;

- E quando a morte os vencer, se deveriam sepultar uns aos outros, preservando não só temporalmente os ossos e a carne que se decompõe, como especialmente venerando a imortalidade das suas almas e do seu SER.

- O glorificar, festejar e enaltecer os seus Heróis.

Enfim:

SER NO ESTAR

Sem nele FICAR

E ainda:

O reconhecer e divulgar a sua Fé em Deus, a sua Fé em Jesus Cristo nosso Senhor e Salvador, e a sua Fé no Divino Espírito Santo.

O procurar auxílio e protecção na Virgem Santíssima, Mãe de Jesus Cristo, venerá-La, amá-La, e praticar e divulgar o seu culto, quer Ela fosse:

A Senhora da Lapa

A Senhora do Carmo

A Senhora das Dores

A Senhora dos Remédios

A Senhora da Agonia

A Senhora do Óh

A Senhora do Peito

A Senhora dos Mártires

A Senhora das Encomendas

A Senhora das Necessidades

A Senhora dos Tormentos

A Senhora dos Navegantes

A Senhora do Sagrado Coração de Jesus

A Senhora do Menino Jesus

Nossa Senhora da Luz

Nossa Senhora da Guia

Nossa Senhora da Boa Morte

Nossa Senhora do Rosário de Fátima

………………………..

Nossa Senhora da Conceição, a qual viria a ser pela Grei, pelo Rei e pela Igreja, declarada e proclamada a Padroeira de Portugal, a sua Rainha eterna e Imaculada.

Proclamar a todo o Mundo, que: Nossa Senhora que no Céu estais, sois Mãe de Deus, não podeis ser mais.

Acreditar em Deus, e dar d’ELE exemplo na Terra, dilatando e expandindo Sua Mensagem, e dilatando a Fé n’ELE.

Que tendo plena consciência que sendo CRIATURAS Humanas, devemos adorar ao seu CRIADOR – que é UNO, na sua misteriosa Trindade de Pai, de Filho e de Espírito Santo, a quem tudo se deve, inclusivé o termos existido, e o termos ”descoberto” um novo Ser, uma nova Palavra, uma “nova língua” – uma Nova PAIDEIA – que nos diferenciou de todos os outros povos que nos rodeavam.

Estava encontrada uma Ideia Nova uma Nova Força de viver… e de morrer.

Estava encontrada uma Nova Ideia de “se estar e ser no Mundo”, sem ao Mundo ficar agarrado ou…nele ser extinto e apodrecido.

 Estava “achada” a PAIDEIA LUSA.

 O interruptor encefálico, dos nossos Egrégios Avós, acabava de dar à luz: A Portugalidade.

Essa “maneira” e “condição de ser” e de “estar” no Mundo, completamente diferente da que consciente ou inconscientemente os outros povos vizinhos usavam e viviam.

 

E a Portugalidade, não é pois nem mais, nem menos, do que

“A Paideia Lusa”

“o modo de ser,  e de exercitar a vida quotidianamente, à maneira portuguesa”.

E essa “identidade de ser e de estar na vida à portuguesa” ganhou tal força ao longo de centenas de anos, que posteriormente “comungada” por povos longínquos, hoje se vê “espalhada” e “espelhada“ e “vivida quotidianamente” nos cinco continentes de que o Planeta Terra é constituído.

Hoje pois, a Palavra “Portugalidade”, engloba “um conceito abrangente que vai desde a antropologia cultural, à sociologia política, à filosofia da história, não deixando de englobar também toda uma tradição doutrinal e messiânica relativa não só ao homem Luso, como à criação cósmica do SER, à expansão e testemunho de uma espiritualidade já alicerçada no Homem”.

Como diz J. Pinharanda Gomes em um artigo inédito, a publicar, “Na esteira de Álvaro Ribeiro, e em glosa a Leonardo, portugalidade surge, neste cenário, não como uma herança, mas como uma vida a construir, dentro de um elenco axiológico, em vista da redenção. Constitui, enfim, não um dogma fixista, mas um problema da antropologia filosófica, e de antropologia situada, à luz do preceito que manda filosofar antes de fazer política, considerando o povo, a cultura, a língua, e os valores, com ou sem ideia de V. Império“.

Assim, hoje, o ser-se português, implica o ser-se autor, actor, e espectador de Portugalidade, e tudo isso, ao mesmo tempo.

E mais:

A Portugalidade, é pois hoje passível de ser sentida, desejada e praticada no quotidiano das vidas, mesmo por homens e mulheres, que embora não sejam portugueses, aderiram à maneira de ser, e de estar no mundo, como o fazem os povos oriundos ou descendentes da lusitanidade, onde quer que estejam vivendo por esses cinco continentes da Terra, por esse Mundo fora … onde todos os dias se ouve e se fala a língua portuguesa, e mais que falar a língua, esses Povos em português pensam, e como descendentes de lusos actuam, vivem e morrem.

 

Não há dúvida pois, que Portugal foi o berço e é a Pátria da Portugalidade.

 

Lisboa – 2008.

 

O Presidente da Fundação Lusíada

 ABEL DE LACERDA BOTELHO