CL 15

 

«Nestes Tempos do Fim onde merecemos viver, pois que neles nascemos – e onde, portanto, temos de viver assumindo, cada um de nós, o nosso destino como parte, também, do destino das egrégoras (das pessoas colectivas) às quais estamos ligados -, a Poesia deveria ser particularmente iluminadora. Mais do que em qualquer outro sítio, ela o tem sido, de facto, em Portugal. Bastará que lembremos, mesmo brevemente, avanguarda: essa vanguarda da época das vanguardas, objecto recente das atenções de uma crítica (o textualismoacudindo ao historicismo), que ameaça sacrificar o que elas dizem, em benefício da época em que o diziam e da maneira como o diziam. No conjunto das vanguardas europeias, a vanguarda portuguesa é, na realidade, aquela que mais depressa assumiu, sem equívoco, ainda que numa ordem dispersa, aquilo a que chamo a fatalidade da modernidade - fatalidade nas duas acepções do termo: o que nós não podemos evitar e o que só pode levar-nos ao pior. O inconsciente português predispunha-a para tal, no que ele tem de saudosista e de sebastianista e também, perdoem-me o adjectivo, de quinto-imperista.

Pessoa, sem dúvida, foi o primeiro a sabê-lo; até podemos hoje pensar que o soube antes mesmo de ter disso a consciência exacta, desde que rompeu com Pascoaes e a Renascença Portuguesa, cuja política (não recuemos diante da palavra quando se trata de Pessoa) traía a metafísica e, por isso mesmo, inflectia a poética. Não é aqui o lugar para insistirmos neste ponto. Limitar-me-ei a acrescentar que nada há que se esgote mais facilmente do que a vanguarda, a menos que, uma vez imposta pelo escândalo, reconheça que o seu objectivo não era o escândalo, mas sim, através do escândalo, de assentar aquilo que propunha de mais novo sobre aquilo que, no homem, há de mais antigoTudo é mistério, não é verdade? E tudo, por outro lado, possui um sentido. Volto, pois, ao sentido, esse sentido de que a poesia de Pessoa, quando se abarca na sua totalidade e quando se ligam entre elas as suas figuras, é o testemunho.

Neste ensaio pretendo centrar sobre Pessoa uma aproximação do sentido, tal como, desde sempre, o sugeriu a alta poesia, língua dos deuses ou, noutros termos, língua dos pássaros - esse sentido que continua a ser o cerne do debate que os maiores poetas da primeira metade deste século conduziram até há bem pouco, como continuam a conduzi-lo, embora ignorando-o cada vez mais, aqueles que, aqui e ali, cada qual com os seus meios, os vieram substituir e prolongar» [Tradução de Lima de Freitas]. Um conjunto de ensaios que documenta o modo peculiar de abordagem ao pensamento de referenciais da cultura portuguesa: a saudade, a tradição hermética, e esoterismo de Fernando Pessoa, o profetismo de António Vieira, a veia sebastiânica (de modo dinâmico interpretada), o neopitagorismo de Almada Negreiros e o lirismo interveniente de Natália Correia. Publicados nas línguas em que foram escritos, estamos certos de que estes textos fluirão como brisa fresca na intertextualidade cultural.»

 

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