CL 45

 

 

ADVERTÊNCIA

«O estudo que se vai ler a seguir toma como motivo central a figura do Preste João, figura que não tendo nascido com os descobrimentos – pois existe uma história sua muito anterior às viagens dos portugueses – constitui, no entanto, uma das suas alusões mais recorrentes, a ponto de não se conhecer o Preste sem uma indagação exaustiva dos descobrimentos portugueses, ou pelo menos de parte deles.

Recorde-se apenas, a título de introdução ou de justificação primeira do domínio deste estudo, que uma das identificações mais sugestivas do Preste João, e sem dúvida aquela que maiores consequências teve na história das relações culturais da Europa com o exterior, foi resultado directo duma das mais importantes viagens organizadas por D. João II, a quem Camões chama o “Rei trezeno”. Esta viagem – a de Afonso de Paiva e Pero da Covilhã, em 1487-1491 – foi estudada no circuito de preparação da primeira viagem marítima para a Índia, decisiva, como se sabe, para a consecução do plano dos descobrimentos.

Interessámo-nos, assim, por fazer um levantamento do problema do Preste João nas fases da sua criação e identificação, centralizando, porém, a atenção nas relações que as viagens portuguesas estabeleceram com a sua figura, e de que ficou, na literatura dos descobrimentos, uma abundante cadeia de elementos.

Apesar do nosso texto poder induzir no contrário, confundindo entusiasmo com ingenuidade, estamos plenamente cônscios de que o Preste João de que nos ocupamos centralmente na nossa averiguação – aquele que foi identificado na sequência da viagem de Pero da Covilhã – é apenas um entre os vários figurinos que dele apareceram, mesmo em Portugal.

É, no entanto, provável que esse, o que apareceu na Abissínia e levou o Padre Francisco Álvares a dedicarlhe um livro com o título de Verdadeira Informação das Terras do Preste João das Índias (1540), seja entre todos o que melhor encarnou, na realidade física da História, a aura lendária que sobre ele se formara. Mau grado a persistência ainda nos séculos XVII e XVIII de teorias que apontavam para a existência do Preste nas estepes da Tartária ou no interior da Índia, teorias que eram perfilhadas em Portugal por membros da Companhia de Jesus, o certo é que só na Etiópia, nas altas nascentes do Nilo Azul ou nas margens do Lago Tana, ao pé dos castelos imperiais de Gondar, a três mil metros de altitude, foi possível encontrar a Sudeste da Europa e mesmo de Jerusalém, efectivamente isolado do resto do mundo, um reino estável e milenarmente cristão, cujas fronteiras eram das mais antigas e realizava na prática as projecções mítico-simbólicas da Idade Média europeia.»

 

Mais informações em Fundação LusíadaOs Descobrimentos Portugueses e a Demanda do Prestes João