O Apocalipse de Lorvão e o Apocalipse de Alcobaça foram os últimos documentos considerados fundamentais pela UNESCO para a Memória do Mundo. Mas Portugal tem mais cinco. Saiba quais são.

Apocalipse de Lorvão, um livro datado do século XII, e o Apocalipse de Alcobaça, do século XIII, entraram na Memória do Mundo da UNESCO em outubro. São agora mais de 350 os bens arquivísticos cuja “herança documental da humanidade” o programa da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura quer preservar. Entre eles contam-se sete portugueses (confira-os na fotogaleria em cima).

Não fosse Alexandre Herculano e, provavelmente, o Apocalipse de Lorvão estaria perdido. Foi o escritor e jornalista que, em 1853, depois da extinção das ordens religiosas, percorreu os mosteiros portugueses para recolher documentos que considerava importantes para a história do país. No Lorvão, em Penacova, encontrou este manuscrito, com 66 iluminuras feitas em 1189 pelo monge Egas para ilustrar o Apocalipse. Só existem 22 no mundo e apenas este tem iluminuras feitas no mosteiro de Lorvão. Alexandre Herculano levou a obra para a Torre do Tombo, em Lisboa, onde ainda se encontra, e, de acordo com a Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB), escreveu: “Documento de extrema importância para a história do país”.

Essa importância foi agora reconhecida pela UNESCO, que considerou os 11 manuscritos — nove espanhóis e dois portugueses, feitos a partir doComentário do Apocalipse do monge Beato de Liébana, que viveu nas Astúrias no século VIII — “os mais bonitos e originais produzidos pela civilização medieval ocidental“.

Os manuscritos são “particularmente relevantes como expressão cultural e artística produzida na Península Ibérica e com grande disseminação no resto da Europa medieval”, explicou ao Observador José Furtado, do Arquivo Nacional da Torre do Tombo, onde está guardado (no cofre-forte) o Apocalipse de Lorvão. Já o pergaminho do Apocalipse de Alcobaça está sob a guarda da Biblioteca Nacional, em Lisboa.

O programa Memória do Mundo foi criado em 1992 após a “tomada de consciência crescente do estado preocupante de conservação do património documental e da precariedade do seu acesso em diferentes regiões do mundo”, justificou a UNESCO. Os registos começaram em 1995 e na lista incluem-se o documento original da Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789-1791), a 9ª Sinfonia de Beethoven, o Diário de Anne Frank e a coleção fotográfica do Imperador D. Pedro II do Brasil.

Só 10 anos depois de os registos terem começado a ser feitos é que Portugal viu o seu primeiro património cultural inscrito na Memória do Mundo: a Carta de Pêro Vaz de Caminha. O escritor seguia na frota do navegador Pedro Álvares Cabral que descobriu o Brasil, a 22 de abril de 1500. Entre 24 de abril e 1 de maio de 1500 escreveu as primeiras impressões sobre a terra desconhecida e os seus habitantes. O documento seguiu a bordo de uma das naus da armada em direção a Portugal, para anunciar a boa nova ao rei, D. Manuel I. 515 anos depois, encontra-se guardado na Torre do Tombo.

Em 2007 houve duas entradas nacionais. A primeira foi a coleção CorpoCronológico, à guarda da Torre do Tombo, que reúne mais de 83 mil documentos, a maioria dos séculos XV e XVI. Mas não só. Uma das mais antigas é a carta de D. Afonso Henriques a integrar, no couto da Sé de Coimbra, as vilas de Santa Comba e S. João de Areias, datada de 1175. O segundo registo do ano foi o Tratado de Tordesilhas, a mítica divisão do mundo em duas partes por Portugal e Espanha, as duas potências dos mares do século XV. O acordo foi assinado pelos reis católicos Fernando II de Aragão e Isabel I de Castela, e pelo rei D. João II de Portugal, a 7 de julho de 1494. Encontra-se bem guardado na Torre do Tombo.

Foi preciso esperar quatro anos para voltar a ter como Memória do Mundo da UNESCO mais um documento português. Ou melhor, dois. Primeiro foram os Relatórios da Primeira Travessia Aérea do Atlântico Sul, feitos por Gago Coutinho e Sacadura Cabral na sequência da viagem inédita de 1922. “Um reflexo da coragem e da bravura dos portugueses na ‘conquista de espaço aéreo’, quase 500 anos depois de terem descoberto o Brasil”, considerou o comité que, de dois em dois anos, anuncia quais as candidaturas aceites neste programa. Os relatórios encontram-se no Arquivo Histórico da Marinha, em Lisboa.

Também em 2011, o comité considerou que os Arquivos dos Dembos, fruto da candidatura conjunta entre o Arquivo Histórico Ultramarino português e o Arquivo Nacional de Angola, deveriam entrar na Memória do Mundo da UNESCO. Contém mais de 1000 manuscritos de correspondência, datados de finais do séc. XVII até inícios do séc. XX e trocados entre autoridades locais africanas da região dos Dembos no Norte de Angola e as autoridades coloniais portuguesas em Angola. Inclui também correspondência que aquelas autoridades africanas trocaram entre si e com o Rei do Congo.

Os bens arquivísticos portugueses que, para a UNESCO, merecem proteção especial ficam completos com o Roteiro da primeira viagem de Vasco da Gama à Índia, 1497-1499. Em 2013, a organização considerou que o relato do navegador português “fornece um testemunho da viagem marítima pioneira para a Índia, um dos momentos marcantes que mudaram o curso da história”. Trata-se da única cópia da época, em pergaminho, já que o relatório original se perdeu, e encontra-se na Biblioteca Municipal Almeida Garrett, no Porto.

Em 2017, o Comité da Memória do Mundo volta a reunir e a anunciar que outros bens mundiais entram na lista. E há pelo menos um documento português em candidatura. De acordo com José Furtado, do Arquivo Nacional da Torre do Tombo, a coleção Chapas Sínicas, composta por mais de 3600 documentos com datas entre 1693 e 1886. Provenientes da Procuratura do Leal Senado de Macau no âmbito das relações luso-chinesas, deverá merecer uma candidatura conjunta entre Portugal e a China. Mas antes tem de passar pelo crivo da Comissão Nacional da UNESCO, que é quem decide se uma candidatura tem possibilidades de avançar. Daqui a dois anos saberemos a resposta.

 

Em: Observador |21/11/2015