CL 44

 

 

«Cister de Portugal nasceu com o Reino e, ao longo de sete séculos e das Beiras a Tavira, edificou no país trinta e sete mosteiros. Extintas as ordens religiosas em 1834, perdurariam, com grandes restrições, os mosteiros de monjas até à morte da sua última abadessa, ocorrida em 1890; desapareceria então do solo nacional uma Ordem que, noutras partes do mundo, continuava vigorosa e actuante. Do destino que sofreram as construções conventuais sabe-se que variou entre a demolição, a venda por preços irrisórios, a utilização para fins públicos ou, talvez mais frequentemente, o abandono à acção do tempo e à depredação das populações.

Há uma trintena de anos atrás, um monge cisterciense francês, Fr. Maur Cocheril, seria incumbido pelos seus superiores de rastrear as pegadas dos monges portugueses, tarefa que lhe ocuparia três anos de vida. Notará que Portugal “é talvez o país onde os cistercienses desenvolveram maior actividade”, facto que atribui a condições excepcionais, que não especifica inteiramente mas em que inclui a ausência de Clunistas (presentes em Espanha) e o ascendente que os novos monges rapidamente conseguem alcançar sobre o também notável mosteiro de cónegos regrantes de Santa Cruz de Coimbra. Criticará no entanto – partindo da sua óptica de cisterciense francês – a emancipação da Ordem portuguesa, constituída em congregação autónoma no tempo do Cardeal D. Henrique, o que originaria inobservância das leis do capítulo geral de Cister e desconhecimento de alguns escritos, a seu ver fundamentais.

Nem por isso será menor o seu afecto pelo mosteiro de Alcobaça – verdadeira devoção que parece ter tocado todos aqueles que alguma vez e de algum modo a ele estiveram ligados. Assim aconteceu com D. Manuel que, absorvido em determinar o vai-vem das caravelas do seu império, ainda encontrava tempo para cuidar da administração do mosteiro na menoridade de seu filho; assim com o CardealRei que, num alvará que fez publicar, parecia colocar em pé de igualdade a sua posição de monarca e a de abade geral da nova congregação; assim também com Fr. Maur, que sentirá como seu o drama dos que perderam a sua família espiritual e abandonaram o altar onde fizeram os seus votos solenes. Confessará a sua emoção por ali celebrar missa, a primeira depois da partida dos monges, e manifestará a esperança – em palavras contidas, que um monge de Cister não tem vontade própria – de que claustros e celas se encham de novo e no coro ressoem os cânticos de súplica e louvor. “Fasse Notre Dame de Cîteaux que ce Jour ne tarde pas”.

O trabalho que se segue constitui uma tentativa de explicação da dicotomia que veio a estabelecerse entre a obra social, humanitária e cultural dos cistercienses – cujo mérito ninguém disputa – e o que constitui uma parte integrante dessa mesma intervenção cultural, os seus escritos. Que evolução dos tempos e das mentalidades ocorreu, que ideologia subjaz a tão estranha e injusta separação das águas, eis o que nos preocupou e propulsionou na busca de respostas.»

 

Mais informações em Fundação LusíadaA Ordem de Cister e o Reino de Portugal