CL 40

PRECE

Aqui te peço Senhora da Nazaré
Que nos valeste na batalha de Ambuila
Que conservas Luanda como é…

Com os negritos apregoando doce
E os panos das pretas quitandeiras
A recortar-se vivos nas esquinas,
como as sombras chinesas verdadeiras…

Que conservas o ritmo sempre morno
Da visa sonolenta dos moceques,
Que haja quissanges sempre soluçando
E lavadeiras passeando com moleques…

Que guardes até quando eu voltar
Os alegres pregões sem vaidade
Da castanha de cajú tão gostosa
Como os velhos mexericos na cidade…

Aqui te peço Senhora que conserves,
o cheiro a poesia e a óleo de palma,
a tabaco, a asfalto e a peixe
a jornal, a cerveja e a calma…

Aqui te peço Senhora da Nazaré
Que nos valeste na batalha de Ambuila
Que conserves Luanda como é…

 

GENTE NA APANHA DA CHÁ

Borboletas multicolores
Na poalha de chuva fina
A descer como cortina
No verdor sem flores
Da plantação de chá…

Mãos ágeis,
Mutilam ramos frágeis.
Noitinha: é tarde já…
Mãos ágeis,
Enchem cestos incolores
Da poesia feminina
Das tenras folhas de chá.
É noite.

Borboletas incolores
Na escuridão da cortina
De treva e de chuva fina
No frescor sem cores
Da plantação de chá…

 

TAMBOR

Canta tambor, rufa tambor
Sensual, quente, grita e clama
Que uma só hora de amor
Queima a vida numa chama

Não há voz mais pura
Para embalar cantos de amor
que a voz quente do tambor
Batucando a noite escura…

Canta tambor, rufa tambor
Sensual, quente, grita e clama
Que uma só noite de amor
Queima a vida numa chama.

 

CONSELHO AO RECÉM- CHEGADO

Sente com os cinco sentidos
bem humildes
aprende a ver
aprende a ouvir
o pulsar do coração da terra
…esquece esses rumores de guerra…
cheira a aroma que vem do mato quando chove.
Apalpa com os teus dedos o fruto
ainda verde que o destino guarda
verás que eu tenho razão…
O que não aprendeste
foi a sentir Angola
de dentro para fora
porque ela não mora
no teu coração…

 
 
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