CL 17

 

«O Prof. José Teixeira Rego, que foi amigo de Sampaio Bruno, reportou as principais ideias filosóficas deste aos seguintes pensadores: Stuart Mill, aliás citado a propósito por Bruno (Deus não omnipotente); Ravaisson, Sécretan e Schelling (degradação e queda de Deus); Novalis, também citado a propósito por Bruno, e Euken (o homem auxiliando a evolução da Natureza e do Espírito); Boutroux (ideia da Contingência); Bergson (ideia da Duração). Leonardo Coimbra lembra também o nome de Bergson para a queda espacial em Bruno, encontrando neste, ainda, uma persistente linha platónica.

Para a hipótese da sugestão da queda espacial, a sugestão bergsónica, levantada por Leonardo Coimbra, não me parece válida, pois não há, nas obras de Bruno, o menor vestígio da leitura de Bergson. Já em Spencer, que não foi lembrado, e que Bruno bem conhecia, a ideia do Espaço derivando do Tempo está esboçada, como se dirá adiante. É claro que temos de ver, anteriormente à ideia da degradação do Tempo em Espaço, uma inicial sugestão colhida em Newton e Clarke, que também não foram lembrados, para os quais o Tempo e o Espaço eram atributos de Deus. Bruno deu à ideia de Newton e Clarke esta volta: o Tempo não é atributo de Deus; é Deus. Quanto ao platonismo que Leonardo Coimbra viu em Sampaio Bruno, dele falarei também adiante, mais detidamente.

Apontaram-se-lhe ainda, sobretudo mais recentemente, as influências ou fontes esotéricas, ocultistas e cabalísticas, ao que me referirei, com vagar, em capítulos especiais.

Todas as influências e fontes e implicações, filosóficas ou místicas, que os críticos têm visto em Bruno, resolvem-se, para esses mesmos críticos, na mais decidida oposição de Bruno ao positivismo e, sobretudo, a Augusto Comte. É este, a meu ver, o grande e espantoso equívoco, baseado em aparências enganadoras, e que deforma e tem deformado o pensamento brunino, porquanto a influência de Comte nesse pensamento é poderosa e até poderosíssima. O anti-positivismo, ou antes o anti-comtismo de Bruno, reveste-se de circunstâncias exteriores e particulares que cumpre estudar.

Depois da influência do ilustre positivista francês, temos a influência, também poderosa, e que também nunca foi apontada, do metafísico alemão Eduardo de Hartmann, que Bruno tanto admirava – e ainda esta influência vale, em grande parte, pela sua positividade. A dualidade positivismo-metafísica de Bruno, irá ressaltando à luz da presente análise; e vem a propósito, desde já, lembrar certa passagem das Notas do Exílio, em que Bruno, dirigindo-se a um amigo, confessa, numa verdade que transcende a ironia: “Ocorreu-me então conversar consigo esterilmente, como convém a dois incorrigíveis metafísicos que a realidade prostra e abate”. Aquele “esterilmente” era o duma metafísica que na positividade ou “realidade” não se apoiasse.

O presente livro tratará, pois, das duas linhas fundamentais do pensamento de Bruno – a comteana e a hartmanniana – que fizeram desse pensamento um positivismo metafísico, por mais que a expressão pareça contraditória.»

 

Mais informações em Fundação Lusíada: O Positivismo Metafísico de Sampaio Bruno