CL 38

 

DA VIDA NO TEMPO À VIDA NA ETERNIDADE

A CAVERNA DO TEMPO

Sinto tudo na caverna erma das águas verdes
entre seus murmúrios de cantiga ouvida contínua
e pausas de longe ecoando, em funduras ignorada
s de noites acumuladas.
Água cantante, marcha acompanhante
que ecoa sob tectos e tectos ignorados
de nome negado nunca ouvido
nem marcado em humana escrita.
Só nesses fundos mais fundos da caverna
ao longe do longe murmurados
em ecos repetidos de hinos cantado
s mais e mais longínquos.
Murmúrios só murmúrios nos fundos da terra
no seu coração batendo em ecos de ecos
desde o alto céu se prolongando
e ao abismo da terra chegando.
Cronometria silenciosa do tempo
nesses fundos sugados.
Do tempo que avança e se lança
no ignoto futuro a passos tão leves
e breves que água lava e apaga e logo abafa.
Coleante cobra que ao passar sobre a terra
sua pele deixa num sucessivo largar
sem passos ouvidos nem pressentidos.

 

O NOVO ARGONAUTA

O homem de calças verdes entrou,
gesticulando e falando exuberante.
O resto da cena eram velas brancas
e mapas de terra ignota.
A destreza para si reclamava
de descobrir novos mundos:
como à face oculta da noite
sucedendo-se a face aberta do dia.
Do lado nascente o carro do Sol
vindo à sua procura.

O ensino estagnado, a escolástica ossificada largadas:
o desabrochar da anémona, o figurar da rosa é tão grande
que abertura do céu permite: e surge o perfil do Santo
à luz da tarde sepulcral.
O homem obscuro patenteando sua ignorância,
com a força dos passarinhos faz rezar as pedras
e acrescentar a partir do Um a graça desejada.

Caminhando pela estrada da lua
sem uma só vez para traz olhar,
olhos postos na meta, coração rubro ardente:
venham ver Aquele que nunca se vê.

Reza o coração, o pensamento se cala,
o mundo deixa, o céu escala.

 

O CORAÇÃO E A BALANÇA

Ouvi dizer que em nós o mar futuro
é de cristal puro e não lavrado:
Cumpre assim caminhar ligeiro no ar,
a terra do ar ver e amar.

Harmonia desejada e louvada,
agora cantada nas esferas celestes;
antes na terra tão cobiçada
e nela tão mal realizada.

Iluminada pela aragem do infinito
e mostrando ainda as pegadas
do Anjo revelador,
- e eis o santo país das estrelas!

E me admites à tua presença,
e ao sumo mistério;
alegre nos lagares da dor
onde se esmaga o coração dos homens.

Pois é com factos e não com ideias
que se fazem as lágrimas.
Ao alto me acolhes: na mão esquerda
a balança, na direita meu coração.

A Justiça ao amor fazendo jus.
Eu digo: na Primavera, moitas
de rosas brancas olorosas
se constroem à beira de negros abismos.

 
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