Um elétrico de cortiça, dois monumentais vestidos, uma instalação áudio com azulejos, um trabalho de ‘video mapping’ e uma obra sobre liberdade, todos de criadores portugueses, dominam, a partir de hoje, um dos mais importantes centros culturais dos Estados Unidos.

Os trabalhos fazem parte de «Iberian Suite: Arts Remix Across Continents», um evento de divulgação da cultura de Portugal e de Espanha, que conta com a participação de artistas da lusofonia e da América Latina e que acontece até 24 de março, no Kennedy Center, em Washington.

«Convidámos uma série de artistas, que fazem parte de uma nova geração, para reinterpretar temas tradicionais portugueses. O que queremos é mostrar como o Portugal contemporâneo reinventa aqueles que são os valores tradicionais do nosso país», disse a diretora do Arte Institute, Ana Ventura Miranda, à agência Lusa.

O Arte Institute convidou os artistas plásticos Nuno Vaza e Manuela Pimentel, a dupla de estilistas Storytailors e o ‘VJ’ Pedro Zaz a fazer companhia ao artista Alexandre Farto, conhecido como Vhils, que foi convidado pela Secretaria de Estado da Cultura.

Na segunda-feira à tarde, um dia antes da abertura do festival, os artistas terminavam os seus trabalhos e ajudavam-se uns aos outros.

Numa das entradas do centro, no Hall of Nations, o artista Nuno Vaza terminava o seu elétrico de cortiça, completo com frases de Fernando Pessoa, que foi construído com apoio da empresa Sofalca.

“Gosto de desafios e este projeto foi sem dúvida um grande desafio”, disse o artista à Lusa, no interior do elétrico, que ficará em digressão nos Estados Unidos, depois do final do festival e que parte já em abril para a Califórnia.

Na mesma entrada, a artista  olhava a sua instalação “Se eu pudesse trincar a terra inteira”, verso de um poema de Alberto Caeiro (o “Guardador de Rebanhos” de Pessoa), quase montada.

A peça continua o tema do elétrico e está construída como se fosse uma estação, com uma série de painéis de pinturas em cartão, que imitam azulejos, e umas caixas de madeira que emitem sons gravados pela autora.

Manuela Pimental explica que o trabalho “é feito com cartazes retirados da rua em que são depois pintados motivos de azulejos reais dos séculos XVII e XVIII.”

Na mesma entrada, o artista plástico Vhils olhava para a sua instalação e confessava que ainda tinha alguns pormenores para corrigir.

“Tem algumas peças que têm de ser ajustadas”, dizia, apontando para as centenas de folhas de papel suspensas do tecto por fios e que, apenas de um único ponto e ângulo, se alinham para formar a palavra “freedom”, liberdade em inglês.

“Queria mostrar que a liberdade é algo que depende do indivíduo, da sua situação e da sua cultura. É por isso que cada pessoa pode escolher ver a instalação à sua maneira”, explicou.

Na segunda entrada do centro cultural, está uma série de vestidos azuis inspirados em azulejos e porcelanas. Há vestidos de estilistas franceses, chineses, brasileiros e duas peças dos portugueses Storytailors.

“Criámos uma história com base numa personagem chamada Joana. Inspiramo-nos na história da Princesa Santa Joana, n”Os Lusíadas’ e nas mouras encantadas”, contou o estilista João Branco, acrescentando que “um dos vestidos fala da azulejaria e outro da porcelana.”

João Branco e Luís Sanchez ainda explicavam os vestidos quando foram interrompidos por Adrienne Arsht, uma das grandes patrocinadoras do Kennedy Center, que elogiou o trabalho dos portugueses.

“Que vestidos magníficos”, disse Arsht. “Deixaram-me com dúvidas sobre o que vou usar amanhã na gala.”

Enquanto os estilistas e a filantropa trocavam contactos, no último andar do centro o ‘VJ’ Pedro Zaz trabalhava no vídeo que será mostrado durante o jantar de gala.

Utilizando uma técnica chamada ‘video mapping’, Zaz vai projetar uma série de quatro montagens em todo o comprimento da sala.

“Cada parte tem 40 minutos. Começamos no Palácio de Alhandra, que me leva ao tema do mar; parto depois para a azulejaria e termino com a porcelana da Vista Alegre”, disse, mostrando uma série de animações com detalhes de azulejos, imagens de mar e motivos geométricos de porcelanas.

“Esta é uma mostra sem precedentes da criação contemporânea portuguesa nos Estados Unidos”, disse à Lusa a diretora do Arte Institute, que também convidou os arquitetos Eduardo Souto de Moura e Álvaro Siza Vieira a criar uma instalação chamada “Jangada de Pedra”.

“O mais extraordinário destes últimos dias foi ver como se criou uma pequena comunidade artística entre estes jovens, que se ajudaram uns aos outros, trocaram ideias e fizeram planos”, acrescentou Ana Ventura Miranda.

Para João Branco, dos Storytailors, não há dúvidas: novos projetos vão surgir destes dias de colaboração.

“Gerou-se uma grande simbiose criativa. Há uma grande vontade de continuar o diálogo, visitar os estúdios dos outros e formar parcerias. Vão surgir colaborações entre nós, sem dúvida”, disse o estilista.

 

Diário Digital com Lusa