CL 24

 

 

PREFÁCIO

«O texto sobre a Brotéria, incidindo especificamente sobre a matéria artística aí presente, estabelece as articulações necessárias entre o pensamento católico e as obras patrocinadas pela Igreja, bem como a posição da instituição face aos rumos traçados por uma certa arte novecentista. Deve salientar-se que, ao longo da História portuguesa, sempre o pensamento da Igreja foi essencial para a compreensão total da obra de arte. Naturalmente que essa importância assume contornos diversos consoante as épocas. E, se nalgumas conjunturas, as concepções religiosas são omnipresentes, noutras parecem ter desaparecido, ou redundarem numa irrelevância como, num primeiro e distraído olhar, parece ser o caso específico do século XX, com raízes mais fundas, aliás, no processo de laicização geral da sociedade iniciado em 1820.

Mas o problema pode ser outro. Na verdade, as histórias da arte novecentistas, escritas na generalidade por personagens directamente interessadas no processo (como críticos, coleccionadores ou simples militantes de um gosto único), têm primado por uma crença em determinados pressupostos tidos como vanguardistas, pretendendo, com desespero, um ajustamento cronológico internacional, exercício inútil com raízes nos estrangeirados setecentistas e que vem até à actualidade.

Num excesso afirmativo, e com uma convicção irrefutável, está subjacente a esses escritos que a Igreja e a arte novecentista são realidades que se excluem. Ora o genius loci e a lógica da cultura portuguesa sempre têm afirmado o contrário e de vários modos. Desde logo pela continuidade do papel da Igreja como encomendador que, com oscilações resultantes das condicionantes da política portuguesa, se tem mantido e tem contado com a participação de artistas fundamentais. Sirva de exemplo o caso paradigmático da igreja de Nossa Senhora de Fátima em Lisboa, obra de Pardal Monteiro e participação, entre outros, de Francisco Franco e Almada Negreiros.

Por outro lado, pela presença constante de um pensamento católico sobre arte, com as suas especificidades, a sua longuíssima tradição histórica que não implica necessariamente uma cristalização de conceitos e valores. Ora o texto de José Carlos Pereira, agora apresentado, mostra precisamente uma faceta importante desse pensamento: aquele que se expressa através da revista Brotéria, orgão da Companhia de Jesus. Criada, em larga medida, como oposição ao omnipotente e omnipresente positivismo português, com raízes oitocentistas mas com uma longa e anacrónica vida até aos dias de hoje, a Brotéria, através da revivificação do tomismo, retoma a problemática do universo artístico, discorrendo sobre ele em termos conceptuais, metafísicos, éticos e também com uma atenção permanente e polémica face a outros modos de representação figurativa, como aquilo que se designou arte pela arte ou o surrealismo.

O resultado final, como o autor justamente conclui, aponta num sentido restauracionista duma estética tomista e na prevalência do denominado belo ideal.»

José Fernandes Pereira

 

Mais informações em Fundação Lusíada: Neotomismo e Arte Moderna (1902-1960)