CL 09

 

 

«Ambos os pensadores – um ao outro se desconhecendo – entendem igualmente que toda a filosofia ou toda a metafísica (para os dois são o mesmo) é o platonismo. Diz o português: é a re-actualização do platonismo; diz o alemão: é o percurso do platonismo.

Para Heidegger a transcendência não interfere no pensamento e, por isso, o platonismo segue o seu percurso sem qualquer interferência do cristianismo. Para Leonardo, o platonismo alcança a plenitude no cristianismo, sem o qual seria, como Heidegger entende, o portador do nihilismo, da técnica e da irrealidade do mundo e do homem.

Compreende-se então, o desespero de Heidegger perante o império do igualitarismo que inviabiliza o pensamento, e perante o império da técnica, que anuncia, pela voz de Nietzsche, derradeiro filósofo alemão, a morte de Deus e a morte do homem.

Compreende-se também que a realidade que o cristianismo trouxe ao mundo e ao homem, irreais do platonismo, levassem Leonardo a demonstrar a necessária vitória do homem de sempre sobre o mundo desolado do império do igualitarismo e da tecnologia.

Se os dois grandes pensadores do mundo de hoje são um português e um alemão, se o mundo, como toda a realidade (ou, numa linguagem mais metafísica, o “ser”) são o que for o seu pensamento – e nesta identidade de pensar e ser estão também concordes Leonardo e Heidegger, aliás segundo uma tradição que remonta ao remoto originário Parménides -, se, enfim, “toda a filosofia é situada” como diz José Marinho, e a sua situação é a radicação na entidade espiritual do povo em que é pensada, como entende Álvaro Ribeiro, então temos de concluir que o mundo é, hoje, dramaticamente, e será no futuro, talvez sem tragédia, o que forem a Alemanha e Portugal. Todo o futuro se decidirá no conflito entre o pensamento português e o pensamento alemão, entre Leonardo e Heidegger. A implosão do império comunista russo, decidiu a favor de Leonardo, também assim decidirá a implosão do império tecnológico americano, implosão igualmente suposta no platonismo re-actualizado de Leonardo?

Consideremos a questão seguindo uma linha mítica, de acordo com este colóquio ou seminário. Entende Heidegger que a palavra é a morada do ser e que o poeta é o guardião da palavra. O seu poeta é Hölderlin.

Entende Leonardo que a poesia é a voz dos mitos. Os seus poetas, poetas mitogénicos, são Pascoaes e Camões.

Uma pátria é a entidade espiritual que emerge da acção histórica quando a acção histórica a tornou real. A acção histórica de que emergiu Portugal em sua entidade espiritual foram os descobrimentos. Neste seu sentido ou movimento, a acção histórica contém um pensamento a que a poesia, muito mais do que os acontecimentos que a compõem, dá expressão num mito, enquanto a filosofia não a concebe numa ideia.

O mito encontra-se n’ Os Lusíadas, a ideia na filosofia de Leonardo e seus epígonos. Desta, já deixámos as alusões suficientes. Do mito convém ao tema do colóquio que falemos. O mito cria-se sobre a viagem do Gama, desvendando os oceanos até alcançarem não a Índia, como ensinam os historiadores nas escolas e em seus tomos, mas a sabedoria. O fim da viagem – e todo o autêntico fim, ou causa final, é também o princípio – o fim da viagem está na Ilha do Amor (dos Amores para os profanos). Aí, a sabedoria é revelada ao Gama pela deusa Tétis em seu templo no alto das montanhas donde se avistam os mares, os continentes, os mundos terrestres e celestes.

Alcançado o fim, os nautas regressam porque, como diz Sampaio Bruno, “só se viaja para regressar”. Mas chegados ao lugar da partida e do regresso, os homens do Estado e da República, ambiciosos por natureza, escondem ou fazem desaparecer os livros da sabedoria, como o Tratado das Causas, as Décadas e a Crónica do Imperador Clarimundo, de João de Barros, escondem a razão porque o cosmógrafo dos navegantes, Pedro Nunes, desdenha a geografia de Copérnico e conserva a de Ptolomeu, e fazem do descobrimento que levou à Ilha do Amor um vulgar caminho marítimo da índia para negociar especiarias ao abrigo de um frágil império comercial que depressa se desfaz. É o reverso da entidade espiritual que emergira enfim da acção histórica. É o retrocesso na história universal, isto é, na história destinada ao uno ou à unidade do mundo»

Orlando Vitorino

«A instituição das festas do Império do Divino Espírito Santo celebrando o Pentecostes (representação da descida do Paracleto sobre os Apóstolos) anda atribuída à Rainha Santa Isabel, na sua vila de Alenquer, em data que não obteve ainda o consenso dos investigadores.

A. Rodrigues de Azevedo adianta, baseado numa escritura que existiu na Câmara de Alenquer, o ano de 1280, enquanto Jaime Cortesão, adoptando sugestão de frei Manuel da Esperança e lendo à vista documentos do Arquivo de Alenquer, afirma ter sido o Convento de S. Francisco da mesma vila o palco da sua primeira realização, em 1323. Outros autores optam pelo Paço de Sintra, sem contudo, especificarem a ocasião do evento. Porém, já no Compromisso da Confraria do Espírito Santo de Benavente, o mais antigo que se conhece, coevo da fundação da igreja do Espírito Santo dessa localidade que presumivelmente se verificou no primeiro quartel do séc. XIII, se alude à festividade do Império, o que leva a supor a sua concretização aí anteriormente a 1280, promovida por franciscanos de tendência espiritual. Os mesmos que secundando o proselitismo de Santa Isabel lograriam levá-la a patrocinar e, porventura, institucionalizar nos inícios do séc. XIV tais festejos com um aparato nunca antes visto, o que terá contribuído para radicar a tradição segundo a qual sob a sua égide e de D. Dinis se haviam originado.

O culto do Divino Espírito Santo sob a forma de Império é expressão exclusiva do mundo lusíada (nos Açores e no Brasil conserva ainda a fidelidade às origens) não tendo qualquer similitude com as devoções homónimas que existem por todo o restante universo católico.

A principal cerimónia da Função Folia ou Império, consistia, salvo ligeiras variantes regionais, na coroação com três coroas, uma imperial e duas reais, do Menino Imperador, assessorado por dois reis – um homem jovem e outro idoso -, respectivamente na razão das idades do Espírito Santo, do Filho e do Pai. O Menino, símbolo da humanidade espiritualmente renovada e religada às verdades fundamentais da pobreza evangélica e do amor fraterno empunhava o ceptro, com que tocando a fronte se significava a benção do divino, e após ter recebido as homenagens do povo e das autoridades civis, militares e religiosas procedia à libertação dos presos, concluindo os festejos com um bodo bem servido a todos, independentemente da sua condição social e constituído por um repasto confeccionado com carne de bois previamente corridos, pão, vinho e arroz doce.

O Império do Divino Espírito Santo é, efectivamente, a representação simbólica do advento da Terceira Idade do mundo, numa espécie de Pentecostes nacional, de acordo com a consabida tese que se pode buscar no cisterciense Joaquim de Fiore e nos meios joaquimitas e segundo a qual a história da humanidade percorreria desde a Criação até ao Fim do Mundo três tempos, vividos cada um sob a influência de uma das três pessoas da Trindade. Assim, a lei mosaica foi própria da idade do Pai, a lei evangélica da do Filho e a futura lei do Evangelho Eterno se-lo-á da do Espírito Santo.»

Manuel Gandra

 

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