O sol, um sol quente, abrasador, caía implacável sobre o carro onde viajava  um homem, uma mulher e uma criança. Este grupo vinha de longe, dos contrafortes da serra. Ódios políticos tinham atirado esta família para a estrada sem fim. O calor apertava. A sede torturava-os. O pó punha-lhes a boca gretada e a língua áspera. Precisavam descansar, fugir ao sol dessa planície imensa que ficava para além do rio Tejo.
De súbito apareceu uma sombra larga, acolhedora, como um oásis no deserto. O homem refreou o andamento dos cavalos que puxavam a carruagem. Gritou contente para a mulher:
— Olha que árvore! Que bela! Que majestosa!
A mulher concordou:
— É das mais belas que tenho visto!
Curiosa, a pequenita filha do casal perguntou logo:
— Mãezinha, como se chama esta árvore?
Foi o pai quem respondeu:
— Creio que é um tremoceiro! Não tem, aparentemente, grande importância… Mas a verdade é que oferece uma sombra bem acolhedora!
A criança olhou os pais. E arriscou:
— E se ficássemos aqui? Já estou tão cansada… e com tanto calor…
O homem sorriu:
— Tens razão, minha filha! Vamos ficar por aqui… Pelo menos estaremos ànossa vontade, livres de inimigos e de más vizinhanças… Vamos! É necessário levantarmos a nossa tenda de campanha, antes que anoiteça.
A pequenita pulou imediatamente para o solo. Na sua imaginação aquela sombra era o Paraíso…
— Eu também quero ajudar! Vai ser tão bom… Não teremos que voltar a andar de carro por estes caminhos com tanto sol e tanta poeira!…
O homem desceu também, acariciou a cabeça da filha e olhou em redor. Lentamente. Atentamente.
— Isto é grande! Mas não vejo ninguém… Tanto melhor!
E, na manhã seguinte, quando o Sol veio dar os bons dias ao tremoceiro, encontrou erguida uma barraca de campanha, como que a proclamar a independência dos foragidos naquela terra de liberdade…
Porém, uma visita inesperada surgiu também, aos primeiros clarões do Sol. Era um velho forte e autoritário, arrimado a um grosso bordão. Havia cólera na sua voz ao interpelar os recém-chegados:
— Com que direito entrastes nos meus domínios?
O outro homem sentiu-se ofendido com aquele tom e indagou com altivez:
— E quem sois vós para me fazerdes semelhante pergunta?
O velho bateu com o bordão na terra:
— Sou o dono de tudo isto… de todo este plaino… Do tremoceiro, que plantei por minhas mãos… das árvores que há em redor…
— E nós somos viandantes… ou para melhor dizer: perseguidos injustamente por delitos que não cometemos…
O velho resmungou, num ar de suspeita:
— Talvez assassinos… ou ladrões…
Desta vez, com grande espanto do próprio velho, foi a criança quem o interrompeu, numa vozita indignada:
— Senhor! Estais a insultar meus pais e eu não poderei admitir-vos…
O senhor daquela terra sorriu, irónico, mas a sua voz perdeu o tom colérico:
— O quê? A formiga já tem catarro? Era o que faltava… uma fedelha a atravessar-se no meu caminho!
O viandante curvou-se:
— É uma criança que fala pela voz da verdade! Não tendes o direito de insultar-nos!
Então, a cólera voltou a apossar-se do velho. A sua expressão tornou-se dura:
— Fora daqui! Ouvis bem? Fora daqui! Não vos quero ver mais nos meus domínios!… Saireis a bem… ou à força!
Altivo, o homem que viera de longe retorquiu:
— Pois já que nos ameaçais… dir-vos-ei que só à força sairemos… se tiverdes poder para isso!
O grosso bordão do velho bateu com mais vigor ainda na terra.
— Já que assim o quereis… assim o tereis! Os meus homens não tardarão a expulsar-vos!
E, ditas estas palavras, ele voltou costas, meteu-se na velha carroça que o esperava — e abalou…

Mas, pouco tempo depois, voltou com muitos homens armados. A família que viera de longe e acampara ali para encontrar paz e descanso recolheu apressadamente à sua carruagem. A vida estava em perigo e era necessário, mais uma vez, defendê-la.
Com voz cansada e triste, a pobre mãe murmurou numa queixa:
— Meu Deus! Porque somos tão perseguidos? Não fizemos mal algum e todos nos odeiam! Porquê, meu Deus?… Porquê?
Mas já o marido lhe recomendava, enérgico:
— Defende tu aí essa entrada… Eu ficarei aqui a aguentá-los! Não se dirá que um fidalgo como eu se rendeu pela força…
Um grito abafado veio cortar-lhe o pensamento. Ele olhou a mulher que mostrava uma expressão apavorada.
— A nossa filha?.. A nossa filha onde está, que não a vejo?
Ele inquietou-se:
— Mas… vi-a há pouco, junto de ti!
— Sim… enquanto estávamos descansando… Mas agora… Agora não sei dela!…
O homem rangeu os dentes:
— Ah, miseráveis! Se derramam uma gota de sangue que seja da minha filha, hão-de pagar-mo bem caro!

Entretanto, indiferente ao perigo, a criança tinha atravessado por entre os homens armados e avançara, devagar, como um pequeno gato, ao encontro do velho chefe. Quando este a viu perguntou, espantado:
— Tu? Aqui? Como ousaste?
A pequenina sorriu com candura:
— Com a ajuda de Deus, meu senhor… Preciso falar-vos!
— Falar comigo?
Havia desconfiança na voz do velho.
— Ah! Não será uma armadilha?
A rapariguinha abriu os olhos num espanto. Num espanto e num sorriso.
— Armadilha? Oh… Não! Não poderia fazer-vos mal… Sou tão pequena ainda…
O velho pareceu cair em si. Franziu as espessas sobrancelhas esbranquiçadas e a sua voz soou melhor aos ouvidos da menina:
— Perdoa-me! Tens razão! Portei-me agora com insensatez. Diz lá o que pretendes…
Ela mostrou-se alegre.
— Sabei, senhor… que estive a pensar numa coisa!…
— Tu… a pensar? E que foi?
— Ora… Pensei que em volta duma árvore tão bonita como aquele tremoceiro podia construir-se uma povoação também bonita e grande… capaz de causar inveja às outras povoações…
Foi a vez do velho sorrir à criança.
— Não é mal pensado! Mas como havemos de a construir?
— Com boa amizade e paz.
O velho repetiu as mesmas palavras. Pensativo. Como num eco do seu próprio pensamento.
— Com boa amizade e paz…
Então a pequenita prosseguiu com entusiasmo, vendo que a luta se mantinha suspensa, esperando ordem de ataque.
— Sabei que o meu pai é um grande construtor. A minha mãe ajuda-o em tudo… Se o senhor quisesse… eles poderiam construir aqui uma cidade, dirigindo e aproveitando o trabalho dos seus homens…
O velho olhava-a espantado. Meneava a cabeça como que duvidoso do que ouvia.
— Ora esta! Uma catraia como tu… com uma ideia tão grande! Donde te veio semelhante pensamento?
Ela sorriu, ingénua.
— Foi Deus Nosso Senhor quem mo deu!
Houve um momento de silêncio, em que o olhar do velho ficou a perder-se no vasto horizonte. Depois, tomado de súbita energia, gritou para os seus homens:
— Basta! Pensei melhor e não atacaremos… Podem retirar-se. Daqui em diante, todos seremos bons amigos e companheiros!
E nesse mesmo dia, com grande jubilo do casal foragido — que voltara a ter junto de si a filhinha adorada mas ignorava ainda tudo quanto se havia passado — o velho chefe procurou o marido e a mulher. Porém desta vez chegou sorrindo:
— Venho em missão de paz e amizade!
A mulher respondeu-lhe, já com voz serena:
— Sede bem-vindo, senhor!
Afável também, o homem que viera de longe quis demonstrar o seu desejo de confraternização.
— Tomai um pouco de sombra do tremoceiro!
O velho acrescentou intencionalmente
— Do «nosso» tremoceiro — quereis dizer!
— Como?
— De hoje em diante, o tremoceiro pertencerá a todos nós… Sei que sois um grande construtor e vós, senhora, extraordinária ajudante…
O homem interrompeu-o, perplexo:
— O quê?… Decerto estais enganado, senhor! Fui, sou e serei unicamente um fidalgo… E esta é a minha esposa, à face de Deus e dos homens!
— Mas… a vossa filha disse-me…
Houve um leve sorriso nas expressões do casal.
— Compreendo agora, senhor! A nossa filha tem uma imaginação prodigiosa e vós… acreditastes…
O velho olhou a criança. Ela encolheu-se um pouco, entre envergonhada e receosa…
— Uma fedelha destas a enganar um velho como eu! Mal posso acreditar…
Mas a sua voz tinha um tom bonacheirão. Cheirava a simpatia. E a pequena ladina pareceu ficar logo mais à vontade. Segurou carinhosamente nas mãos do velho e falou devagar, espiando as reacções dele:
— Oh, meu Senhor… eu não vos enganei… Reparai no que vos disse: Com o auxilio de todos, poderemos construir uma grande povoação à volta do tremoceiro… Pois não é verdade?
O velho voltou a sorrir.
— Tens razão… O que é preciso é haver boa amizade e paz!
E sublinhou, puxando-a para si com ternura:
— Hoje mesmo começaremos todos a construir a nossa terra!

Dentro em breve, o sonho da rapariguita começou a transformar-se em realidade. Com a ajuda de todos, trabalhando esforçadamente de sol a sol, a povoação ia criando as suas primeiras casas e a sua primeira rua.
Agora, sim, graças à esperteza e à iniciativa da filhinha, o casal foragido sentiu que conquistara de novo a felicidade.
E a estimular ainda mais os infatigáveis obreiros da nova povoação, o velho chefe voltou alvoroçado duma das suas viagens habituais.
— Escutai, amigos! Escutai! Boa nova para todos nós! El-rei D. Afonso III acedeu a dar foral à nossa terra!
Foi uma alegria. Houve abraços e beijos. Vivas e palmas. Dançou-se e cantou-se, como se todos fossem irmãos.
Depois, o velho chefe reuniu-os de novo e falou solenemente:
— Temos de dar um nome à nossa terra… Um nome bonito, sonante, que fique para a posteridade… Qual deve ser esse nome?
As opiniões começaram logo a dividir-se. Cada um dava a sua ideia. E a ideia de cada um era sempre melhor do que as ideias dos outros… Depressa se estabeleceu a barafunda, até que o velho chefe, com a sua autoridade incontestada, resolveu intervir:
— Calai-vos! Assim nada conseguiremos. A mim, parece-me que só há aqui uma pessoa capaz de nos indicar um nome bonito… Sabeis a quem me refiro, com certeza. A ela devemos a ideia feliz da fundação da nossa terra. Pois que nos dê também um nome para ela.
Todos se voltaram para a rapariguita. De acordo. Esperando. Um pouco intimidada por tão grave responsabilidade, mas sempre sorrindo, como fazia nas ocasiões de perigo, a menina avançou por entre os homens e as mulheres que a olhavam ansiosamente e falou. Falou sem tremer a voz. Falou como se estivesse a repetir uma lição já decorada:
— Bem… Se desejam que seja eu a dar o nome à nossa terra… parece-me que o melhor é pôr-lhe um nome que lembre aquela árvore a que devemos tão boa sombra… Foi a única que sempre aqui nos acompanhou, tal como o Sol e como a Lua… Eu acho portanto que a nossa terra se deve chamar Estremoços!
Houve um momento de pasmo. E de silêncio. A rapariguita falara tão bem, tão bem, que estavam todos maravilhados.
E foi afinal o velho chefe quem tomou a palavra em nome de todos:
— Muito bem!… A garota falou como uma pequena sábia… Na verdade, devemos dar à nossa terra o nome do fruto abençoado que tanto nos ajudou. Os estremoços foram o pão nosso de cada dia… Pois também nós seremos sempre leais aos bons estremoços!
E a terra ficou a chamar-se Estremoços — ou, melhor ainda, a Terra dos Estremoços, como então se designavam em linguagem popular os tremoços de hoje… E o seu brasão inicial compôs-se precisamente de um tremoceiro, tendo por cima o escudete das quinas e em redor o Sol e a Lua… a perpetuar assim pelos séculos fora as palavras daquela garota de imaginação prodigiosa que falara, de facto, como uma menina sábia…
Depois, com o correr dos tempos, tudo se foi alterando… O nome dos estremoços passou a ser apenas tremoços… E a Terra dos Estremoços (ou de Estremoços, como a designaram mais tarde), acabou por se transformar na cidade de Estremoz, que se ergue hoje, altaneira, em pleno distrito de Évora, como uma sentinela do Alentejo.

 

Em: MARQUES, Gentil Lendas de Portugal, Porto, Editorial Universus, 1962 , p.Volume I, pp. 11-16.