Ao princípio, é a própria História que nos conta o que se passou nesse ano de 1199… Dera-se o rompimento entre o reino de Leão e o de Portugal. Afonso IX veio sitiar Bragança e D. Sancho I marchou valorosamente ao seu encontro. Mas o cerco foi levantado e os invasores retiraram-se. Porém D. Sancho, ressentido com a atitude daquele que durante cinco anos fora o esposo bem-amado de sua filhaTeresa, passou o rio Côa e acometeu Cidade Rodrigo. Foi duro o embate. Duro e valoroso. Nessa batalha perderam D. Sancho I e Portugal dois dos seus mais aguerridos e nobres cavaleiros. Mas a contenda teve o seu fim, embora pouco firme. Qualquer pequeno atrito poderia fazer quebrar o cristal da sensibilidade dos dois monarcas inimigos.
 
O rei português voltou. O descontentamento continuava estampado na sua expressão inquieta, de homem habituado ao movimento e de carácter impulsivo, embora bom de coração. E foi grande a sua inquietação quando soube que sua filha Teresa o esperava para lhe falar de um assunto de extrema importância para ela e para o reino — segundo dizia. Intrigado, mandou-a introduzir no seu aposento. 
A que fora esposa de Afonso IX entrou com passo firme, mas curvou-se respeitosa ante seu pai. D. Sancho não escondeu o seu interesse. Olhou-a bem de frente. A luz coada pelo vitral batia-lhe em cheio no rosto, extremamente pálido. 
— Que me quereis, minha filha? 
Era serena a voz do rei, mas inquieto o brilho do seu olhar. D. Teresa fingiu não perceber essa inquietude e respondeu, com aparente serenidade: 
— Perdoai-me, senhor meu pai, se ouso vir falar-vos de assunto que só a vós compete decidir… 
O rei tentou ganhar tempo, receando censuras. 
— Vindes falar-me das vossas rendas? 
A rainha sorriu, num misto de tristeza e desdém. 
— Não, meu pai. Bem sabeis que possuo o suficiente para mim. O que me traz à vossa presença é algo diferente. 
— Diferente? 
— Sim… Trata-se de Afonso. 
— Qual deles? De vosso irmão ou de… 
O rei suspendeu a frase, num quase inexplicável embaraço. Voltou D. Teresa a sorrir nesse ar estranho onde a amargura reinava como senhora. E apressou-se a concluir… 
— Venho falar-vos de Afonso IX de Leão! 
D. Sancho perscrutou com olhar profundo o rosto da filha. 
— Que desejais então, Teresa? 
— A paz entre el-rei D. Sancho e o pai dos meus filhos. 
Empertigou-se o rei de Portugal. 
— O quê? Pedis a paz para aquele que vos repudiou?
D. Teresa baixou levemente os olhos e a voz. 
— Ele foi o meu esposo bem-amado! 
Voltou a ouvir-se, forte, a voz do rei. 
— Mas hoje… ele é o esposo de Berengária, a filha do rei castelhano! 
Fitaram as pontas das chinelas de brocado, os olhos de expressão triste de D. Teresa. 
— Não o censuro por isso. Se Afonso me repudiou, foi só ao fim de anos de luta interior. E bem sabeis que para esse desgraçado desfecho… muito concorreu o vosso acordo no assento. 
Sentiu-se D. Sancho I apanhado em censura. 
— Vindes agora reprovar uma medida tomada há quatro anos? E bem sabeis como o castiguei depois… 
D. Teresa abanou a cabeça, como a afastar as sombras negras dum passado tormentoso. 
— Senhor! Eu venho apenas lembrar-vos que, se não continuo a ser a esposa de Afonso IX de Leão, a culpa não foi só dele… Bem sei que os negócios de estado são pesadíssimos fardos, difíceis de transportar. Porém… a única vítima fui eu! 
— Bem sabeis, Teresa, como esse casamento foi mal visto pelo Papa. Instigado decerto pelo rei de Castela, impôs a vossa separação… 
— Com a qual vós concordastes! 
— Não sem relutância, bem o sabeis… Mas… porque vindes agora lançar-me tudo isso em rosto? 
— Perdoai-me, senhor meu pai! Não estou aqui para vos censurar. Bem sabeis que essa afronta não vos fiz nem quando o meu coração foi ferido… 
— Então… que quereis? 
— Apenas suplicar-vos que cesseis esta guerra! Igual pedido enviei a Afonso IX. Que ao menos haja paz entre o reino de Leão e o de Portugal, já que a chaga aberta em meu peito continua viva e sangrando!… 
O rei D. Sancho ficou um momento silencioso. Os seus ombros largos descaíram um pouco. Baixou também a voz. Já não era o rei quem falava, mas sim o pai. 
— Tendes razão, filha minha! Muito deveis ter sofrido no isolamento a que vos submetestes! No torvelinho de pensamentos diversos que assaltam o cérebro de um rei, cheguei a pensar que a ferida do vosso coração estivesse a caminho de sarar… 
Teve D. Teresa um leve trejeito de estranho significado. No seu olhar passou uma imensa tristeza. E a sua voz soou quase velada. 
— O mal de amor… é moléstia cujo remédio só o próprio amor pode dar! 
Novo e pesado silêncio caiu na sala íntima de D. Sancho I de Portugal. Depois o rei levou uma das mãos ao rosto e passeou-a pela barba. A sua cabeça agitava-se num movimento lânguido, como quem diz não a qualquer pergunta do seu subconsciente. Olhou de novo a filha e sentiu comiseração pelos estragos deixados em quatro anos nesse rosto outrora tão maliciosamente alegre. 
— Filha! Que poderei fazer, então, para amenizar a vossa dor? 
— A paz é tudo quanto desejo agora, senhor meu pai! 
— Dar-vos-ei novas terras… 
— Dai-as aos meus irmãos, que muitos são! 
— Teresa! 
— Senhor? 
— Afligis-me! Precisais distrair-vos! Sou eu que vo-lo ordeno! 
Foi a vez de D. Teresa abanar negativamente a cabeça. 
— Perdoai-me, senhor meu pai! Precisamente vivo ainda… porque me alimento das minhas recordações! 
— Como desejaria que compreendêsseis a minha posição! 
— Sempre vos compreendi, senhor meu pai! 
— Tive de ceder a Celestino III… 
— Não o esqueço, senhor! E o papa Inocêncio III continuou a insistir no assento após a morte do seu antecessor… Como queríeis que o esquecesse? 
— E sabeis, Teresa, que se diz que nova excomunhão vai cair sobre Afonso IX, se não repudiar a sua nova esposa?
Os olhos de D. Teresa refulgiram. Perguntou apressada: 
— Será possível, meu pai? 
— Tudo é possível! E o motivo é o mesmo: o próximo parentesco… 
Fugiu de novo a luz intensa que iluminara momentaneamente o olhar da infeliz rainha. 
— Pobre Afonso! Não o deixam em paz! 
— Pois ide vós em paz, Teresa! Pela minha parte prometo-vos cessar a guerra com Afonso IX de Leão. 
— Graças, meu pai! 
— Ficais connosco mais algum tempo? 
— Algumas semanas apenas. Mas desejo isolar-me. 
— Isolar-vos? 
— Sim! Agora a minha única ambição é encontrar um local onde possa viver longe de importunos e onde a minha recordação consiga continuar a ser viva!…
 
Alguns meses passaram. Extinguiram-se os vestígios de guerra entreLeão e Portugal. D. Sancho voltava-se para os negócios internos do reino. Os cuidados da colonização vieram substituir as lutas com os estrangeiros. A povoação das terras começou a fazer-se em ambas as margens do Tejo. Ia-se buscar povoadores a outras regiões da Europa. Exaltava-se e ajudava-se a agricultura. Faziam-se cedências em troca da defesa e o país começava a prosperar. 
Assim se chegou ao ano de 1201. D. Sancho I andava de um lado para o outro, visitando as cidades, vilas e aldeias, dando conselho e ânimo aos plebeus e aos nobres que iam transformando Portugal. 
Ora, numa dessas visitas, parou o rei na antiga «Castrum Malianum». Acompanhava-o o seu conselheiro e amigo Julião. Observaram as ruínas da antiga fortaleza destruída pelos Mouros, as terras devastadas, esse ar de triste abandono que punha no quadro pinceladas de tragédia. Julião acompanhou o seu rei na subida do monte. Lá em cima, a vista de ambos voltou a abraçar toda a paisagem. Então Julião abanou a cabeça reprovativamente, sem poder esconder a sua cólera. 
— O que esses malditos mouros fizeram da fortaleza e de toda esta terra! Parece um cemitério de ruínas! 
O rei aquiesceu. 
— Sim! É uma total desolação. Todavia, reparai nesta vista maravilhosa e neste ar puríssimo. 
O companheiro de D. Sancho I olhou em volta. Serenou. 
— Na verdade, Senhor, olhando daqui, temos a impressão estranha de ver o próprio reino vizinho a nossos pés, numa vassalagem… 
Ficou pensativo o rei. 
Julião insistiu: 
— O horizonte é largo e no ar perpassa uma espécie de franca serenidade, que deve ser salutar… 
O rei voltou-se então vivamente. 
— Salutar… serenidade salutar, dizeis? 
Intrigado, o cavaleiro sublinhou: 
— Sim, meu Senhor… eu disse salutar… 
— É isso mesmo Julião! Tomai nota: quero que se comecem imediatamente os trabalhos de construção do castelo, pois desejo fazer daqui uma povoação de renome, para a oferecer a minha filha Teresa! 
Interessado, Julião perguntou: 
— E onde desejais construir o castelo, Senhor? 
Olhou-o o rei com assombro: 
— Onde? Mas onde havia de ser, meu bom Julião? Aqui, neste monte mor! 
Numa reverência respeitosa, o conselheiro do rei apenas disse: 
— Serão cumpridas as vossas ordens, Senhor! 
Sorriu o rei. Sorriu intimamente, como reconfortado ou aliviado de um peso interior. E murmurou baixinho estas palavras, que de momento pareceram estranhas ao seu companheiro: 
— Horizonte largo sobre o reino vizinho… propício à recordação… vista agradável… e paz! Tudo isso ela terá aqui!… 
E serenamente, lado a lado como dois homens vulgares, o rei de Portugal e o seu conselheiro e amigo Julião desceram o monte mor da antiga «Castrum Malianum» e vieram juntar-se aos outros companheiros. O sol brincava com as suas vestes e punha mais brilho nos seus olhares. O vento rodopiava de vez em quando, em arremessos de garotelho, levando salpicos de terra e pedra miudinha. Mas assim mesmo, havia um quê de sereno que baixava às almas e punha nos lábios um sorriso de esperança!…
 
Dois anos passaram. E tanto bastou para que o castelo ficasse pronto. As terras de Montemor começaram a povoar-se, descendo até ao vale. Como havia outra povoação mais antiga também chamada Montemor, para que esta se distinguisse daquela designaram-nas então por Montemor-o-Velho e Montemor-o-Novo. E um dia, alguns anos mais tarde, na Primavera do ano de 1211, quando o rei D. Sancho deixou este mundo, verificou-se que no seu testamento não esquecera a sua promessa, pois entre as dádivas deixadas a seus filhos, netos e amigos, lá vinha mencionada a vila de Montemor para sua filha Teresa, a quem o destino marcara tão cruelmente. 
Assim nasceu Montemor-o-Novo, cujos alicerces assentam num campo e batalha.

 

Em: MARQUES, Gentil Lendas de Portugal, Porto, Editorial Universus, 1962 , p.Volume II, pp. 18-24.