Em certas regiões do nosso País, existia o costume antigo de preparar um galo especialmente para cantar na chamada Missa da Meia-Noite do dia de Natal…
Esse galo, escolhido entre os melhores de cada terra, gozava de grandes regalias, era tratado com requintes de cautela e tinha uma alimentação privilegiada.

Na pequena e pitoresca Vila Nova do Laranjal, da freguesia e concelho de Ponte de Sor, havia também tal costume. E dava-se mesmo o galo a guardar ao homem melhor da terra.
Conta a lenda, já gasta pelas repetições da vida, que em certo ano se apresentaram ao Meirinho  dois homens fortes e soberbos, disputando entre si o lugar de honra.
O primeiro que falou parecia não admitir dúvidas:
— Provo que sou o melhor! Perguntem nas redondezas… Investiguem a minha vida!
Mas o segundo não se intimidou. E também afirmou com absoluta convicção:
— Perdão, senhor Meirinho… O melhor sou eu. Veja as esmolas que tenho espalhado durante o ano… o bem que eu faço aos outros.
Houve uma pausa. Depois, o primeiro dos dois homens voltou a acentuar, um tanto ironicamente:
— Será preferível investigar, senhor Meirinho!
Foi a vez do outro se exaltar. Fitando bem de frente o seu rival, perguntou num ar de desafio:
— Porquê? Alguém se atreve a contestar o que eu digo?
O Meirinho resolveu intervir, para não deixar azedar a questão. E, inclinando-se para ambos, disse na sua voz pausada e sentenciosa:
— Basta, senhores, basta!… Sou eu quem deve resolver o vosso caso… Eu, como meirinho desta terra!
Fazendo uma pausa propositada, a criar expectativa, o Meirinho perguntou depois, em tom arrastado e sem perder os dois homens de vista:
— Podem apresentar alguma testemunha das virtudes que apregoam?
Ambos o olharam e se entreolharam. Sorrindo. Sorrindo com desdém e superioridade, como quem tem a certeza antecipada da vitória.
— A menina do Laranjal!

Parecia de propósito. Tinham ambos dito simultaneamente as mesmas palavras. Logo se fitaram, furiosos. Foi a altura do Meirinho se rir:
— Mas… como é isso possível? Então os senhores têm ambos a mesma testemunha? Expliquem-se, por favor!
O primeiro dos homens avançou:
— Senhor Meirinho, quero comunicar-lhe que a menina do Laranjal será em breve minha esposa… Pelo menos, penso declarar-lhe o meu amor…
O outro não se mexeu do lugar, mas retorquiu peremptoriamente:
— Impossível! É comigo que ela vai casar… Já lhe falei nisso e ela aceitou!
O Meirinho voltou a olhar alternadamente para um e para outro.
— Não compreendo… Não compreendo…
E, de súbito, tomou a resolução mais adequada:
— Bem… Vamos chamar a própria menina do Laranjal!

Diz a lenda que a menina do Laranjal era, de facto, a jovem mais respeitada das cercanias. A mais respeitada e a mais querida.
Pensa-se até que a terra, toda ela, começara apenas pelo Laranjal. E daí o nome que herdara para o futuro: Vila Nova do Laranjal. Por isso, a jovem simbolizava as tradições da própria terra.
Era órfã e vivia na companhia duma senhora idosa, a qual tratava por tia, mas cuja origem era desconhecida dos habitantes da terra. Misteriosa e estranha, a velha senhora não gozava da mínima simpatia. Todavia pouco se importava com isso, porque dominava por completo a menina do Laranjal.
Quando a notícia chegou até elas, a jovem não escondeu a sua estupefacção.
— Mas… se eu nem sequer os conheço… Como poderei eu casar com um deles? E qual devo escolher?…
Aflita, buscou os conselhos da velha senhora:
— Dizei-me, minha tia, por favor… Qual deles hei-de escolher?
A velha senhora fungou uma risada:
— Ora, escolhei o melhor!
Nasceu novo espanto nos olhos da menina do Laranjal:
— O melhor?… E qual deles é o melhor?
Vagarosamente, intencionalmente a resposta da velha senhora fez-se ouvir.
— O melhor é aquele que for mais rico!
Depois, num ar de sabedoria, ajuntou:
— Compreendeis, não é verdade? Com dinheiro, pode comprar-se o
Mundo! Acreditai…
A menina do Laranjal, ingénua e simples como era, abanou a cabeça, num ar de tristeza:
— Não, não acredito, senhora minha tia!
E, num suspiro, logo completou o seu próprio pensamento:
— Com dinheiro, pode comprar-se o Mundo… Mas não se compra a felicidade!
A conversa ficou por aí. O Meirinho esperava-as…

E os dois homens esperavam-nas, igualmente. Quando a menina do Laranjal e a velha senhora que dizia ser sua tia saíram à rua, ambos correram para elas.
O mais impulsivo, e que sempre actuava primeiro, foi o que chegou mais depressa junto da menina do Laranjal, pedindo-lhe para lhe falar em particular, ao que ela acedeu, sem saber que fazer.
Mas o outro não se incomodou. Parecia até esperar que isso acontecesse. E enquanto o seu rival se declarava publicamente à menina do Laranjal, ele conversava em surdina com a velha senhora…
Por fim seguiram todos a caminho do gabinete do Meirinho, que não escondia a sua impaciência por tanto ter de esperar…

Sentaram-se. O Meirinho olhou-os, um por um. Fixou depois o olhar na menina do Laranjal, que estava muito pálida e trémula.
— Dizei-me… Algum destes homens é vosso noivo?
Timidamente, ela respondeu:
— Só um deles me falou de amor…
— Qual?
O olhar da menina do Laranjal, de fugida, procurou o homem impulsivo com quem falara. E a sua voz mal se ouviu:
— Aquele… além…
Porém o homem aproveitou logo a ocasião, para impôr a sua autoridade.
— Claro, Senhor Meirinho! Até agora… só eu lhe falei de amor… Só eu me declarei apaixonado… Portanto, sou eu o seu noivo!
O outro reagiu com uma risada:
— A menina do Laranjal sabe lá o que é o amor… Ela nada resolve. Quem resolve é a senhora sua tia. E eu… Eu falei com a senhora sua tia e pedi a mão da menina do Laranjal, que me foi concedida. Sou eu, portanto, quem vai casar com ela. Não é verdade, senhor Meirinho?
Nesse ponto enganara-se, porém. O Meirinho, segundo conta a lenda, além de Meirinho, era também homem de coração. E adorava a verdade.
Assim, ficou silencioso, por momentos, a meditar. E depois sentenciou:
— Tenho muita pena, meu caro senhor, mas a escolha está feita… O homem melhor da terra não pode mentir… E o senhor mentiu-me, ao dizer que já falara de amor à menina do Laranjal… Ao passo que o seu rival foi sincero e verdadeiro… E ele, portanto, o melhor. Ele ficará com o galo!
Ergueu-se e fez sinal para que todos se erguessem. Depois disse, ainda, num sorriso:
— Sim, ficará com o galo… E casará com a menina do Laranjal, se ela quiser.
E certamente queria, pensou o Meirinho antes de retirar-se, porque o olhar que ela trocou com o seu preferido — era um olhar doce e meigo. Um olhar de amor.

O tempo correu, sem que nada mais de especial se passasse. O homem escolhido como o melhor tomara conta do galo e instalara-se já no próprio palacete da sua noiva, pois a esperança de amor estava prestes a concretizar-se em casamento…
A velha senhora que se dizia tia da menina do Laranjal parecia indiferente aos preparativos nupciais. Ausentava-se às vezes, sem dizer nada. Porém, como era sempre estranha e misteriosa, ninguém lhe fazia perguntas.
Por seu lado, o homem vencido (mas não convencido) garantia aos amigos que não desistia. Havia apenas que aguardar os acontecimentos…
A menina do Laranjal e o seu eleito viviam um para o outro — e ambos para o seu amor.
Mal podiam eles adivinhar o que ia acontecer…
E aconteceu precisamente em vésperas de Natal!
A notícia caiu como bomba sobre a terra. Desaparecera o galo escolhido e guardado para a Missa da Meia-Noite!
Era o pior que podia suceder àquela gente. Tocaram os sinos a rebate, o tumulto foi enorme e o Meirinho viu-se obrigado a tomar imediatas providências, mandando prender, sem hesitação, o responsável pela existência do galo.
De nada serviram as lágrimas suplicantes da menina do Laranjal. Nem os protestos do melhor homem da terra. Nem as juras de inocência que ambos fizeram.
Perante a ira da multidão, o Meirinho só podia prometer:
— Justiça será feita!
E apontava o presumível culpado, o qual apenas sabia repetir a mesma confissão dorida e frágil:
— Juro que estou inocente! Eu juro que estou inocente!
Mas o Meirinho, desta vez, e com justa razão, parecia inflexível:
— Só uma coisa te poderá salvar: revela-nos onde está o galo!
Entretanto, no meio da multidão, o outro homem esfregava as mãos de contentamento.
— Eu bem dizia… Pois dêem-lhe o castigo que merece!
E, de facto, tudo se começou a preparar para esse castigo, conforme narra a antiga lenda. Nesse tempo, a morte pela forca era a mais afrontosa. E o Meirinho ordenou que preparassem a forca para a própria noite de Natal. O castigo serviria de exemplo para sempre…
O prisioneiro, quase transformado num farrapo humano, esperou pela sua última noite — a noite de Natal.
Que podia ele fazer? Já não tinha lágrimas para chorar, já não tinha pensamentos para pensar. Restava-lhe somente a consolação que lhe dava a menina do Laranjal, agora perdida de amor por ele e também por amor dele perdida…
E foi na tarde do derradeiro dia que o homem, já na agonia das suas esperanças, teve uma ideia que nunca o visitara. Se falhasse, nada mais havia a esperar…
Ao contrário do que poderia supor, a menina do Laranjal encontrou-o mais calmo:
— Que se passa contigo, meu amor?
— Ainda confio…
— Mas já nada é possível… Faltam apenas poucas horas… Só um milagre de Deus!
— Eu espero por esse milagre! Hoje é o dia em que nasceu Jesus… não deixará morrer um inocente!
E mostrava tanta confiança na voz e no semblante, que a menina do Laranjal também se sentiu um pouco mais reconfortada. Mas, de si para si, pensou que, infelizmente, tudo estava acabado…

Chegou a noite. Nunca se vira noite de Natal semelhante a essa. A forca erguia-se, sombria e fúnebre, diante da igreja toda iluminada.
E, como era da lei, o Meirinho permitiu que o condenado formulasse o seu último desejo.
Serena, a voz do homem ergueu-se diante da curiosidade dos que o escutavam:
— Peço à menina do Laranjal e à senhora sua tia que subam ao alto da torre da igreja. Quero vê-las, lá bem no alto… antes de morrer!
Imediatamente, o desejo foi satisfeito. Trémula, nervosa, a menina do Laranjal, sempre acompanhada, embora de má vontade, pela senhora sua tia, subiu lentamente ao ponto mais alto da torre da igrejinha bonita, enquanto cá em baixo se faziam os preparativos para a execução do castigo.
E, de súbito, no meio do silêncio impressionante que se fizera, ouviu-se com verdadeiro espanto o galo cantar. Uma. Duas vezes. Três vezes. E o homem que estava prestes a morrer na forca gritou emocionado:
— O galo vê-as! O galo vê-as!
Foi um assombro. Muitos correram em direcção ao local donde viera esse canto inesperado. E, daí a pouco, voltavam triunfantes, trazendo o galo que estivera escondido no quintal do outro pretendente.
O homem que se salvara da forca não podia conter as lágrimas que lhe inundavam o rosto.
— Foi um milagre… Um milagre do Menino Jesus!
E contou então a ideia que tivera. Lembrara-se que sempre o galo cantava, fosse pelo que fosse, quando via a menina do Laranjal e a senhora sua tia. E pensou fazer essa experiência derradeira. Se o galo estivesse na vila e visse a menina do Laranjal e a senhora sua tia no alto da torre, havia certamente de cantar. E cantara, de facto!
Ajunta a lenda velhinha que ninguém mais soube do outro homem nem da velha senhora que se dizia tia da menina do Laranjal. Desapareceram por completo, nessa mesma noite…
A missa do galo foi autêntica missa de festa, à qual se seguiu a tradicional «missadura». Em breve o Homem Bom, como agora lhe chamavam, e a menina do Laranjal casaram, com grande alegria de toda a gente da terra.
Para eles, fora o Menino Jesus que fizera o milagre… E o grito do homem «O galo vê-as! O galo vê-as!» ficou perdurando na tradição, de tal modo que o nome da terra deixou de ser Vila Nova do Laranjal, para passar a ser, como hoje ainda é, Galveias — a bonita e pitoresca vila do concelho de Ponte de Sor.
E diz-se, igualmente, que vem desse tempo e desta história a tão pitoresca expressão popular «cantaste a tempo», inspirada precisamente pelo galo que, na verdade, cantara a tempo.

 

Em: MARQUES, Gentil Lendas de Portugal, Porto, Editorial Universus, 1962 , p.Volume I, pp. 37-42.