Aqui está mais um exemplo típico de que as lendas não têm origem certa, nem no espaço, nem no tempo. Esta foi-me contada por várias vezes. E de cada vez, por assim dizer, se situava numa época diferente…

De todas as narrações preferi a de uma doce velhinha de olhos sem luz que me dizia ter ainda conhecido Guerra Junqueiro e que, talvez por isso mesmo, recitava como oração duas das suas quintilhas mais ternas e mais formosas, como se ela própria tivesse inspirado esses versos:

Oh velhinha santa, minha boa amiga,
Reza o teu rosário, move os lábios teus!
A oração é ingénua! Vem da crença antiga?
Que me importa? Reza, minha boa amiga,
Que orações são línguas de falar com Deus!

Pois, velhinha santa, tua crença pura.
Tua reza antiga, que me fez chorar, 
É igual aos cegos que na noite escura 
Não precisam d’astros para ver a altura, 
Não precisam d’olhos para te olhar!

Conta-se, pois, que em tempos já distantes, nas eternas questiúnculas com seu filho o príncipe D. Afonso, el-rei de Portugal D. Dinis chegou um dia àquelas terras, então ainda praticamente desertas, que hoje fazem parte do distrito de Bragança, quase na raia de Espanha. 

Os correligionários do príncipe D. Afonso tinham cometido tropelias graves e D. Dinis viu-se obrigado a correr o Norte do reino, com os seus melhores cavaleiros, para castigar os prevaricadores e salvar os inocentes. 

Por mais de uma vez a sua própria espada teve de salpicar-se de sangue e o rei de Portugal, em plena pujança de vida e de glória, gritava furioso e agastado: 
— Filho indigno que não sabe respeitar seu pai que tanto o ama!… Que deseja ele mais?… Não lhe tenho dado honrarias e poderes?… Umas vezes, por minha espontânea vontade… outras vezes, a pedido da Rainha?… Ingrato D. Afonso, antes eu não fosse vosso pai, antes não tivésseis o meu sangue… e eu vos saberia ensinar duma vez para sempre! 

E fitando os que o fitavam, e semicerrando o olhar naquele prenúncio de cólera e ameaça que tanto fazia temer os que bem o conheciam, el-rei D. Dinis rematava febrilmente: 
— Lá porque amo também outro filho, D. Afonso Sanches — e esse, sim, é bom e sabe respeitar-me — pensa o ingrato, o indigno D. Afonso que há-de rebelar o reino contra mim e contra seu irmão… Mas eu vos garanto, senhores… eu vos garanto que um dia me cansarei de ser bom e clemente e então não mais perdoarei a D. Afonso! 

Depois, num gesto sem réplica, ordenava: 
— Vamos! Acompanhai-me, que temos ainda de castigar muitos rebeldes e maus Portugueses!

Assim decorria a jornada por terras do Norte, entre rancores e perseguições, inquietudes de alma e cansaços de corpo. Por tudo isso, talvez, ao passar junto dum grande freixo, plantado à beira do caminho e derramando em seu redor uma sombra de encantar, el-rei D. Dinis, segundo narra a velha lenda, sentiu-se subitamente desejoso de um merecido repouso. 

E não resistiu, a sua voz ergueu-se sobre os que o acompanhavam: 
— Ide, cavaleiros… ide e montai mais além o nosso acampamento… Depois irei ao vosso encontro, pois agora quero ficar alguns momentos a gozar a sombra deliciosa deste magnífico freixo. 

As ordens foram cumpridas. De facto, D. Dinis ficou sozinho junto do grande freixo. Desmontou então e à vontade desentorpeceu os membros fatigados por tanta correria e tanta luta. Teve a ilusão de que remoçava. Sorrindo, el-rei de Portugal aspirou forte o ar fresco e reconfortante que por ali passava. 

— Oh, como é bom podermos descansar quando se deseja! 

Voltou a olhar em seu redor. 

— E como é refrescante esta sombra, meu Deus! 

Sempre sorrindo, el-rei de Portugal confidenciava a si mesmo: 
— Nunca me apeteceu tanto adormecer um pouco… libertar os meus pensamentos de inquietação… lavar a alma neste sossego que me envolve… 

E assim falando, tal como conta também a lenda remota e pitoresca, D. Dinis desembaraçou-se da sua pesada espada e do cinto que a sustentava, prendendo-o ao próprio tronco do freixo… 

Depois, na volúpia saborosa de se encontrar sozinho e poder fazer quanto lhe apetecesse, não como rei, mas como homem — estendeu-se preguiçosamente, aspirou nova golfada de ar puro, encostou a cabeça ao freixo… e adormeceu.

Foi então que tudo se passou conforme a lenda revela e tem sido transmitido de geração em geração… 
Sonhando, el-rei D. Dinis viu de repente que se erguia junto dele, em aparição fantasmagórica, um velho de longas barbas brancas, trazendo à cinta a sua própria espada. 

Surpreendido, desconfiado, inquieto, o rei de Portugal perguntou: 
— Mas… quem sois vós, ancião?… Que desejais de mim? 

Em voz irreal, que mais parecia eco doutra voz distante, o vulto respondeu apenas: 
— Sou o espírito vivo deste freixo, ao qual tu te encostaste… Aqui estou encantado para sempre, desde que morri… Tu hoje, porém, quebraste o encantamento e por isso aqui me vês… 

Novo espanto nasceu no rosto de D. Dinis: 
— Quebrei-vos o encantamento?… Mas… como, se nada fiz?… Explicai-vos, por favor, bom velho! 

Na mesma voz estranha, o vulto satisfez-lhe a vontade: 
— Pois é bem fácil de explicar. Sempre que um rei de Portugal pendure a sua espada no meu tronco… eu poderei viver, de novo, durante alguns momentos! 

Houve um silêncio. Pequeno. Frágil. E el-rei D. Dinis insistiu: 
— Mas… afinal quem sois? Ainda não me dissestes o vosso nome… 

A voz feita de eco subiu de intensidade, tornando-se mais forte e mais estranha ainda: 
— Sou um velho rei visigodo… Sim, rei como tu, Dinis! E, como tu, também fui valente e temido. Conquistei terras e dominei povos… Um dia, porém, adormeci à sombra deste mesmo freixo a que tu te encostaste… E os inimigos surpreenderam-me assim… e mataram-me! 

Num movimento instintivo, el-rei de Portugal procurou imediatamente erguer-se e afastar-se. 

Mas a voz tremeu, como numa risada, e sentenciou: 
— Não tenhas medo, Dinis!… A ti não te farão a mesma coisa… Estamos aqui apenas os dois… E eu vim para te aconselhar… 

D. Dinis aquietou-se. Todavia, a sua curiosidade não o deixou calado: 
— Que sabeis vós da minha vida, bom velho rei? 
— Sei tudo! Tudo, compreendes?… Quando se liberta o espírito das algemas da terra, vê-se e aprende-se muita coisa… Por exemplo, eu sei que, lá no íntimo, o que tu desejas é fazer as pazes com teu filho Afonso. Pois tu Dinis, foste fadado pelo destino , não só para amares os teus filhos e o teu povo, mas também para mediares os conflitos entre os teus pares.

Descoberto no seu segredo, o rei de Portugal mal teve forças para gritar, num desabafo de alma: 
— Mas este meu filho é um ingrato!… 

A voz estranha voltou a soar com brandura: 
— Acalma-te Dinis!… Vou ensinar-te como deves proceder… Quero ajudar a tua felicidade. 
— Nem sei como agradecer-vos… Não mais esquecerei este encontro! 

A voz desceu até junto dele, tornou-se murmúrio: 
— Escuta primeiramente um aviso que te quero dar: tens tratado muito mal tua esposa, a Rainha Isabel! D. Dinis reagiu: 
— Ela está sempre ao lado do filho… contra mim! 
— Enganas-te… Ela é mãe. Mãe verdadeira. Mãe amantíssima. E procede como tal! 

Por instantes, o génio indomável do rei de Portugal veio à superfície: 
— Também a defendeis, não é verdade? Também vós sois contra mim? Porquê? Porquê, meu Deus? Porque querem todos que eu seja afinal o culpado… se eu procedo de acordo com a justiça e com a razão? 

A voz, como se já o conhecesse perfeitamente, deixou passar a fúria. E, agora no mesmo tom de murmúrio, acentuou: 
— Sim… em grande parte, és tu o culpado de tudo, Dinis!… Se desses mais ouvidos à Rainha tua esposa… se mais te guiasses pelos seus conselhos… talvez houvesse menos incompreensão e menos guerra… 

E de tal modo era persuasiva a força dessas palavras, ditas quase em tom de segredo e numa voz estranhamente irreal, que D. Dinis sentiu vontade de aceder e concordar: 
— Está bem! Passarei a dar melhor atenção ao que diz a Rainha… Mas respondei-me, velho rei: como hei-de conseguir as tréguas com meu filho Afonso?… Estou ansioso por saber! 

De novo passou uma tremura pela voz, como se fosse um riso. E o vulto de grandes barbas brancas inclinou-se sobre ele e disse devagarinho: 
— Escuta, Dinis… Escuta, porque é segredo… 

E conta a lenda que o velho misterioso fez ouvir no íntimo de el-rei de Portugal os seus sábios conselhos. Sem voz. Sem palavras. Apenas em pensamento. E conta também que D. Dinis, logo de início, ao ouvir a primeira parte do segredo, se excitou demasiadamente: — Oh, mas é prodigioso, o que acabais de dizer!… E eu que nunca pensara em tal… Obrigado, mil vezes obrigado, velho rei do freixo!… Vou já pôr-me a caminho e fazer tudo quanto dissestes… 

E, num dos seus impulsos habituais, el-rei D. Dinis quis erguer-se de novo, deixando o local onde se encontrava. Nem ligou mais importância àquela voz estranha, que lhe dizia: 
— Espera, Dinis!… Não te alvoroces… Falta ensinar-te o resto… senão tudo voltará a mesma… Espera! 

Mas era tarde, de facto. Com a excitação dos seus próprios pensamentos, el-rei de Portugal já acordara!  E viu-se de novo sozinho, junto do grande freixo… O velho desaparecera por completo. Por completo e para sempre. 

Numa preocupação salpicada de rugas, D. Dinis olhou lentamente a árvore a cuja sombra se acolhera. 
— Meu Deus, é extraordinário como o velho rei visigodo se assemelhava a este freixo… Parecia até o próprio freixo de espada à cinta! 

Desde então, el-rei D. Dinis não se cansou de contar às pessoas mais íntimas o sonho singular que tivera. 

E, aos poucos, de boca em boca, de terra em terra, pelo País fora, foi-se espalhando o caso espantoso do velho rei do freixo de espada a cinta — até que, logicamente, pela tradição do povo, esse local ficou a chamar-se para sempre Freixo de Espada à Cinta.

Aliás, tudo se passou conforme a profecia do sonho. D. Dinis conseguiu, na verdade, umas tréguas com seu filho, o príncipe D. Afonso, assim como ele conseguiu, com a ajuda da sua Rainha Santa Isabel, fazer com que os Reis de Leão, Castela e Aragão fizessem as pazes entre si.

Os conselhos do misterioso e bizarro espírito encantado do Freixo de Espada à Cinta —  não tornaram mais a desencantar-se, porque nenhum outro rei de Portugal voltou a pendurar a sua espada no grande freixo plantado à beira do caminho…

 

Em: MARQUES, Gentil Lendas de Portugal, Porto, Editorial Universus, 1962 , p.Volume I, pp. 19-23.