Madrugada fria. Madrugada triste. Madrugada com cheiro de tormenta. Inverno na natureza e nas almas. Vento cortante como o fio de uma espada. Mas Viriato — o pastor dos Hermínios — não sentia esse frio cortante. Nem essa madrugada triste. Nem o cheiro da tormenta. Direito, como bela estátua erguida num campo coberto de cadáveres dos seus compatriotas, dir-se-ia o génio da Vingança. À sua volta, os companheiros vivos que conseguira agrupar esperavam, submissos, atentos, as suas ordens. E forte, clara e precisa soou a voz do herói: 
— Companheiros! Olhem em redor! Que estão vendo? Os corpos mutilados dos nossos irmãos pelo sangue, indignamente atraiçoados pela perfídia de um romano: Galba! Todos nós temos aqui um amigo ou um parente. Todos estamos a contemplar as bárbaras acções desses altivos vencedores do Mundo: crianças, mulheres e donzelas degoladas. Teremos nós coração para sofrer tanto? Não! Vinguemo-los, pois! Vinguemos tantas nações devastadas por esses verdugos! Tudo é por nós! Juremos, neste mesmo local, um ódio eterno ao inimigo. Pelo sangue derramado, por todas as virgens, eu juro, por mim, não despir estas armas enquanto não vingar as suas mortes! 
Parecia ecoar a voz do pastor no silêncio da montanha onde a morte imperava. E quantos o escutavam repetiram em coro o mesmo juramento. E foi então que, descendo a montanha por onde esvoaçavam aves de rapina, esses homens intrépidos, chefiados por Viriato, se espalharam pela Lusitânia para incitarem o povo a pegar em armas contra os Romanos. 
Em baixo, na planície, um sacerdote esperava-os. Vendo chegar o grupo, o sacerdote, com ar resoluto e olhos brilhantes, dirigiu-se àquele que parecia comandá-los. 
— Meu filho! Em nome do deus Endovélico serás a partir deste momento o chefe supremo do exército dos pastores da serra. Assim, concedo-te o grande colar de oiro do comando!
Como resposta, houve um clamor de entusiasmo, gritando por Viriato. E lá em cima, na montanha, as aves de rapina faziam-se ouvir desde logo, no seu afã de recolherem as presas já quase apodrecidas… 
Reunindo os povos lusitanos sob o seu comando, Viriato encetou a sua carreira de grande chefe, com verdadeiras proezas que assustaram Roma, obrigando os invasores a bater em retirada. E como os triunfos chamam sempre adeptos, em breve o exército de Viriato aumentou, chegando a ser criado o corpo dos Suldórios, formado apenas por voluntários. 
Ora, entre esses voluntários, surgiu certo dia um jovem soldado, de cabelos loiros e olhos azuis, figura frágil, quase feminina, que viera de muito longe com o desejo de ser, também, um suldório. Ao vê-lo, Viriato chamou-o à sua tenda. O jovem acorreu imediatamente. O chefe recebeu-o com um sorriso quase trocista. 
— Aceitaram-te como voluntário e ouviste bem as nossas regras. Não desististe! Mas repara que és ainda muito novo para morrer, e na verdade, com esse ar delicado… não acredito muito em ti como guerreiro. 
No rosto do adolescente surgiu uma expressão de receio ou ansiedade. 
— Não te preocupes com o meu aspecto, Viriato! Juro-te que lutarei como os melhores. 
O chefe lusitano olhou o rapaz com estupefacção. 
— Que voz a tua! Condiz com o teu corpo, que mais parece de donzela… Tenho receio de que se riam de ti. 
Embora pouco cheia, a voz do mancebo ouviu-se firme: 
— Descansa que ninguém se rirá. E se alguém se atrever, a minha espada obrigá-lo-á a engolir o riso! Compreendes? 
Viriato sorriu de novo. 
— Compreendo apenas que esta não é a vida para ti. 
E o chefe dos Lusitanos, tornando-se quase paternal, concluiu: 
— Segue o meu conselho: regressa à tua terra e entrega-te ao amanho do campo. 
O rapaz abanou a cabeça com energia. 
— Não! Eu vivo para estar junto de ti, Viriato! Não me afastarei, portanto. Quer queiras, quer não queiras, hei-de combater a teu lado! 
Viriato encolheu os ombros. Sempre gostara das pessoas que sabiam sustentar a sua vontade. 
— Bem, faz então o que quiseres. Mas nunca me atribuas a culpa do que te venha a suceder no futuro. 
O jovem sorriu. Que sorriso estranho, de invejável ventura! Depois baixou o olhar, curvando-se ligeiramente ante o seu chefe, e saiu da tenda de Viriato. 
A tarde morria ao longe, num vagar que definia força. Resistência entre a luz e as trevas, entre a vontade e o destino!
 
A luta continuou. Luta indómita, sem tréguas. E as vitórias seguiram-se: ToledoÉvoraViseu! Em todo o lado o jovem soldado de modos e falas estranhas se mostrou sempre como valente guerreiro. Viriato não pôde esconder a sua admiração. E certa tarde em que ambos se encontraram no campo, o chefe lusitano achou por bem elogiá-lo. 
— És na realidade um soldado extraordinário! Hoje, bem vi que me salvaste a vida. Doravante quero-te sempre a meu lado. 
O jovem corou de alegria e emoção. Tremia ligeiramente a sua voz, ao confirmar: 
— Sim! Na vida ou na morte estarei sempre a teu lado! 
Viriato sorriu.
— Não falemos em morte quando as vitórias se sucedem! És de facto um guerreiro, dos bravos, dos valentes. Contudo… deixa-me que te diga… Tens uma alma quase feminina! 
O soldado mordeu os lábios. Surpresa? Melindre? Viriato notou o embaraço do jovem e tentou compensar a sua frase infeliz. 
— Mas não te preocupes! Tivesse eu cem como tu e o Mundo poderia pertencer-me! 
O soldado abanou a cabeça com ar quase lânguido, numa doce censura. 
— Para quê tanto, senhor? Basta-te a Lusitânia!
O chefe olhou-o fixamente. O soldado desviou o olhar, furtando-se a um profundo exame do seu interlocutor. Mas já a voz de Viriato soava alegre, como poucas vezes acontecia. 
— Tens razão, companheiro. Basta-me a Lusitânia para me dar que fazer! 
Voltou a fixar o jovem soldado, que mais uma vez desviou a sua atenção para um ponto indeterminado. 
Viriato continuou a falar. Agora o seu tom de voz era diferente. Havia nele algo de indefinível e na expressão do seu rosto surgiu um estranho sorriso. 
— Bem… Não pensemos agora em lutas e mortes. A tarde está bonita… Apetece-me ir visitar a minha linda Vanídia — eleita do meu coração — a qual há longo tempo espera por mim! 
Fez-se um pesado silêncio. Viriato continuava olhando fixamente o jovem soldado, como se quisesse ler dentro dos seus pensamentos. Mas foi ele próprio quem voltou a quebrar o silêncio que os envolvia. 
— Queres vir comigo?  
Houve um movimento de surpresa da parte do jovem soldado. Como por encanto fugiu-lhe toda a anterior timidez e a sua voz, embora frágil, soou firme e quase áspera: 
— Não, meu senhor. Para negócios de amor, certamente não precisareis de mim. 
O sorriso de Viriato acentuou-se. Olhou o jovem com certo ar trocista e disse apenas: 
— Tens razão. Em negócios de amor… não precisarei de ti! 
E dando costas ao jovem, que cerrou os dentes num estranho assomo de amargura, Viriato seguiu, altivo, o seu caminho. Iria procurar Vanídia, o seu grande, o seu único amor! Vanídia, que há anos esperava ouvir dele uma promessa de imediato casamento. Mas a hora chegara. Era tempo de pensar no amor! Se a vida era um jogo de incalculável desfecho, por que desprezar os trunfos que caíam nas suas mãos? 
O chefe lusitano continuou descendo a montanha sem nunca olhar para trás. Um único pensamento o conquistara agora: falar a Vanídia, filha do rico Astolpas, e pedir-lhe perdão por tanta demora. Apressou o andar. Queria chegar ao seu destino antes de o Sol se esconder por detrás das montanhas. E quando a luz solar se despediu dessa face da terra, foi beijar, num estertor, o rosto pálido e os olhos tristes do soldado que ficara lá em cima como estátua, fitando o desenvolto chefe a descer a montanha.
 
Era quase noite. No exterior, aquela luz indecisa que antecede a treva. Penumbra pesada como manto enorme. Mas na alma de Viriato havia luz, muita luz, como sol em pleno meio-dia! 
Ao vê-lo, Vanídia correu para ele, olhos brilhantes de felicidade e de lágrimas. 
— Viriato! Demoraste tanto! Cheguei a recear por ti! 
Ele concordou, numa voz quase doce: 
— Tens razão, minha bela, minha querida Vanídia! Mas valeu a pena a tua espera. Como vês, aqui estou e com boas notícias! 
Ela sorriu-lhe, feliz. Imensamente feliz! 
— Tenho tido conhecimento das tuas vitórias! 
O chefe lusitano atraiu aos seus braços a sua bem-amada. 
— Não se trata agora de guerra. Trata-se do nosso casamento. 
Ela teve quase um grito: 
— Será possível, Viriato? Será possível?… 
Murchou de súbito a vivacidade da sua voz: 
— Tens-me dito tantas vezes a mesma coisa!… 
Viriato, obrigou-a a encará-lo bem nos olhos. 
— Querida! Se eu derrotar os exércitos de Caio Uminiano e de Caio Nigídio, juro-te que casarei imediatamente contigo! 
Ela encostou a cabeça ao peito forte do herói e exclamou com emoção: 
— Vencerás, Viriato! 

Na verdade, Viriato venceu. E cumprindo a sua promessa casou com Vanídia, louca de felicidade. A cerimónia realizou-se em Vaaca e todos os Lusitanos ali acorreram para felicitarem o seu chefe,  transformando a casa de Viriato numa autêntica feira franca.
Um ano se seguiu. Um ano de paz com Roma. Um ano de amor… Todavia, Viriato não esquecia os seus companheiros, embora o seu exército já estivesse um tanto disperso. Só os suldórios continuavam unidos em torno do seu chefe, como um corpo só. E entre eles avultava o jovem soldado, já famoso pelas suas façanhas em prol de Viriato e da causa da Lusitânia. 
Certa vez, Viriato levou Vanídia até à tenda do seu melhor guerreiro. Houve alvoroço com a chegada súbita do chefe. Depois de dirigir uma palavra grata a cada um dos seus suldórios, chamou de parte o jovem soldado, que mostrava uma palidez como nem nas horas de combate o tomava. Por fim, indicando-o à sua linda esposa, disse: 
— Vanídia, eis quem mais admiro depois de ti. Comecei por não acreditar nas suas aptidões para soldado, devido ao seu aspecto frágil. Contudo, hoje considero-o o melhor dos meus guerreiros! 
Vanídia sorriu ao jovem: 
— Daqui em diante, também eu te considerarei como meu amigo! 
Sério e sempre pálido, o soldado respondeu: 
— Vanídia… A minha dedicação por teu esposo é tão grande, que enche todo o meu coração e nem sequer para ti encontrarei lugar vago. 
Viriato riu. A sua voz soou precipitada: 
— Ouviste, Vanídia? Além de valente, é também trovador! 
Fez-se um silêncio impressionante. Vanídia e o jovem soldado fitaram-se por um momento. Depois, a esposa de Viriato sorriu ao marido e pediu-lhe que a levasse dali. 
E uma vez mais, no cimo do Mons Herminius, um estranho soldado, de olhar ao mesmo tempo doce e triste, ficava como estátua, vendo o seu chefe descer a montanha…
 
A vida é roda que gira, às vezes quase em vertigem. O tempo passou. E então, não sendo possível aos Romanos vencerem pela força o chefe da rebelde e altiva Lusitânia, valeram-se da astúcia — que é por vezes caminho da traição. 
É de todos os tempos a existência de almas fracas, capazes de tudo por uma ambição fugaz. Também na Lusitânia houve traidores. Traidores que levaram Viriato à morte a troco de dinheiro. De noite, aproveitando a hora do descanso, entraram na tenda de Viriato, apunhalaram-no e levaram-lhe a cabeça para a apresentarem ao Cônsul romano! 
Entretanto, no arraial lusitano, alguém dera subitamente o alarme. Alguém que chorava convulsivamente abraçado ao corpo decapitado e escorrendo sangue de Viriato — aquele que fora o glorioso chefe dos exércitos lusitanos. E esse alguém foi o jovem soldado desconhecido. 
A dor encheu o acampamento. A dor e a indignação. Uma algazarra enorme surgiu, cortando a noite. Viriato era amado até à idolatria. Foram-lhe feitos solenes funerais. A meio do acampamento levantaram uma enorme pira, onde seria queimado o corpo de Viriato, para depois guardarem as suas cinzas. Envolto no seu manto de comando e levando o grande colar de oiro — a víria — o que fora valoroso chefe lusitano em breve começou a arder. A cerimónia iniciou-se com pompa, seguida dos rituais sacrifícios. Os suldórios desafiavam-se em combate, como holocausto àquele que haviam jurado defender até à morte. Mas o exército reclamava novo chefe. De súbito, alguém apontou o vulto de um jovem pálido, rosto marcerado pelas lágrimas, que parecia desafiar o próprio fogo onde o corpo de Viriato ardia. E diziam: 
— Só ele! Só o companheiro dilecto de Viriato pode substituí-lo! 
Um clamor saiu de todas as bocas, aprovando a escolha. Porém, o jovem soldado, sem uma palavra, cabelos soltos ao vento, aproximou-se mais da pira onde o fogo ardia. Depois, num gesto dramático, tirou a couraça e em seguida a túnica interior que lhe cobria o corpo, mostrando aos olhos espantados do exército em peso um busto formosíssimo de mulher. Ouviu-se um «Oh» de pasmo. Mas a que fora durante tanto tempo o mais valente dos suldórios gritou então: 
— Sim, sou mulher! Por amor a Viriato suportei toda esta aventura. Disfarçada de homem, tornei-me seu suldório para estar sempre a seu lado! Ele amava outra mulher. Não podia aspirar ao seu coração. Agora que o mataram, a vida já não tem valor para mim. Morro com Viriato, porque vivi para ele! 
E num gesto súbito, a mulher-soldado lançou o seu esbelto corpo às chamas ardentes… 
Os homens ficaram perplexos! A tarde, porém, morria sem queixumes, concedendo ao fogo o direito de a substituir na sua luz. 
Viriato deixara de existir. E com ele ardia agora o corpo daquela que jurara estar a seu lado para sempre, na vida ou na morte!

 

Em: MARQUES, Gentil Lendas de Portugal, Porto, Editorial Universus, 1962 , p.Volume II, pp. 9-15.