A história tradicional do Alfageme de Santarém, que o povo conta de várias maneiras — mas sempre à sua maneira — foi conservada para a posteridade através da Crónica do Condestabre, atribuída a Fernão Lopes, e deu origem, além de outros trabalhos novelísticos, poéticos e jornalísticos, ao bem conhecido drama teatral de Almeida Garrett, que se representou pela primeira vez em público no velho teatro da Rua dos Condes, em 1842. 
Porém, para a evocação que vou fazer, mais do que nessas duas preciosas fontes, baseio-me na narrativa que dela ouvi, quando ainda menino, a um velho campino do Ribatejo. Foi essa a primeira vez que aos meus ouvidos chegou a história do Alfageme. E lá diz o povo, na sua terna sabedoria: «Não há amor como o primeiro…» 

Ele chamava-se Fernão Vaz e era considerado, pelos entendedores, o melhor alfageme das redondezas. Já seu pai fora também um grande artífice. À custa de muito trabalho e de alguns sacrifícios, Fernão Vaz juntara fortuna que lhe dava uma certa independência. E também uma certa soberba. Dizia-se até que fora por via dessa fortuna que com ele casara a jovem e linda Alda Gonçalves, a qual, em tempos, andara enamorada de D. Nuno Álvares Pereira.
 
Ora aconteceu que, certo dia, D. Nuno Álvares Pereira, cavalgando de longe, veio parar à porta de Fernão Vaz. 
D. Nuno saltou em terra e dirigiu-se ao homem que continuava a trabalhar, como que indiferente ao que se passava em seu redor. 
— Eh, mestre alfageme!… Podeis correger-me esta espada? 
O outro suspendeu o trabalho que tinha entre mãos. Olhou para D. Nuno. Olhou para a espada. E só então falou. 
— Senhor, por hoje cheguei ao fim do meu trabalho… E bem preciso de descansar… 
Olhou-o de novo e rematou com ênfase: 
— Mas, enfim, como se trata de vós, ordenai. Farei o que desejardes. 
D. Nuno Álvares Pereira sorriu. 
— Obrigado, mestre alfageme… Disseram-me que ninguém possui habilidade igual à vossa… 
No silêncio que se fez, olharam-se melhor. D. Nuno Álvares Pereira reparou então mais atentamente no homem que tinha diante de si. 
— Céus, de onde conheço eu o vosso rosto?… Onde vi eu já esses vossos olhos… irónicos e indiscretos? 
Fernão Vaz inclinou-se levemente, numa vénia. 
— Senhor D. Nuno Álvares Pereira… 
Novo espanto. Maior e mais profundo. 
— Pois… conheceis-me? 
Foi a vez do alfageme sorrir. 
— E quem não vos conhece? 
Depois, avançou um pouco e disse em tom pausado: 
— Vou ajudar a vossa memória, senhor. Eu sou o marido de Alda Gonçalves… agora Dona Alda Vaz! 
Seguiu-se uma pausa. Pausa feita de recordações. De alegres e tristes recordações. Quando voltou a falar, a voz de D. Nuno Álvares Pereira era menos firme. 
— O quê? Sois vós?… Bem me lembro agora, afinal… Principalmente dos vossos olhos, irónicos e indiscretos… 
Mudando o tom da voz, continuou, com aquela segurança de ânimo que lhe dava uma irresistível autoridade: 
— Mas aqui vos deixo a espada, mestre alfageme… Quando a dareis pronta? 
O outro segurou a arma e mediu-a longamente com o olhar. 
Longamente e abstractamente. Pensava decerto noutras coisas. Mas a sua voz soou igualmente segura, como quem acaba de tomar uma grande resolução. 
— Amanhã de manhã podereis vir buscá-la, senhor D. Nuno… Não me deitarei sem que a deixe corregida e afiada, como desejais! 
D. Nuno sorriu cortesmente. 
— Obrigado, mestre… Até amanhã! 

Tal como prometera, Fernão Vaz passou a noite inteira trabalhar a espada de D. Nuno Álvares Pereira. Era já manhãzinha quando recolheu aos seus aposentos. Apesar de todas as recomendações, Alda ainda estava desperta. 
— Só agora, Fernão Vaz? 
Ele estacou à porta do quarto ao escutar aquela voz doce mas autoritária. E foi ainda dominado pela surpresa que balbuciou uma pergunta: 
— Pois não dormistes?… Ficastes toda a noite à minha espera? 
Um sorriso bonito e amoroso envolveu a resposta. 
— Sim, meu bom marido… Eu poderia lá adormecer sem a vossa companhia!… 
E, num ar de ternura, acrescentou entre dois breves suspiros: 
— Sozinha, tive tanto susto, senhor meu marido! Felizmente, ouvia-vos a trabalhar na oficina… 
Suspendeu-se um momento. E, num reflexo de curiosidade recalcada, acabou por perguntar: 
— Mas, afinal, que trabalho foi esse que vos fez esquecer a vossa mulher? 
Fernão Vaz olhou-a, sorrindo. Sorriso com mistura de carinho e de altivez. 
— Sabeis lá!… Estive a afiar e a correger uma espada… para quem talvez não o devesse fazer… 
Ela soergueu-se do leito. Intrigada. Desconfiada. Perplexa. 
— Que tamanho segredo é esse, senhor meu marido?… De quem se trata? 
Fernão Vaz fitou-a bem de frente.
— Pois escutai, senhora… Estive a trabalhar… para D. Nuno Álvares Pereira! 
Ela não pôde disfarçar o choque. A sua voz tornou-se nervosa e trémula. 
— Como? Que dizeis?… D. Nuno esteve aqui?… E que vos desejava ele? 
O sorriso do marido alargou-se, estendeu-se, acentuou-se, deixando-a mais tranquilizada. 
— Já vos disse… Estive a correger e a afiar a sua espada. 
Um suspiro escapou-se dos lábios de Alda Vaz. 
— Oh, meu Deus! 
O marido inclinou-se imediatamente para ela, ávido de revelações. 
— Vedes?… Vedes como ainda gostais dele?… Eu sempre temi este momento! 
As mãos dele caíram, num desânimo sincero, ao longo do corpo. 
— O vosso coração não me pertence! 
Mas logo as mãos dela correram a segurar as mãos do marido, apertando-as, puxando-as para si, aquecendo-as com amor.
— Calai-vos, senhor meu marido!… Não deveis dizer tontices… O meu coração é vosso, desde que casei convosco… 
Ele ainda quis aproveitar, para insistir na sua suspeita de ciúmes. 
— Mas ficastes impressionada, confessai! 
Alda Vaz riu-se. Riso meigo, tranquilizador. 
— Ora, apenas porque receei por vós… Às vezes, acreditai, o despeito transtorna os mais sensatos… 
O tom da sua voz adquiriu ainda maior sinceridade. 
— E embora eu confie plenamente na nobreza de sentimentos de D. Nuno, tive medo, muito medo! 
Suspirou profundamente, sentidamente, e rematou: 
— Felizmente que ele veio por bem! 
Fernão Vaz endireitou-se, numa postura altiva. 
— Eu disse-lhe que era vosso marido! 
Por instantes, a curiosidade bailou no olhar alvoroçado de Alda Vaz. 
— E ele?… Que disse ele? 
A resposta veio com um sorriso. Sorriso tocado de ironia. 
— Nada disse, senhora!… Nem sequer perguntou por vós… 
Alda Vaz pestanejou. Nem pareceu reparar na ironia do sorriso. Limitou-se a concluir, em voz baixa e despida de emoção: 
— Já me esqueceu, decerto… como eu também já o esqueci… 
Depois estendeu as mãos ao marido, num gesto de carinhosa chamada.
— Sinto-me feliz, tal como sou! 
Ele ajoelhou junto do leito e beijou-lhe as mãos. Suavemente. Amorosamente. 
— Como vos adoro, senhora!… Hoje mais que nunca! 

Na manhã seguinte, conforme ficara combinado, D. Nuno Álvares Pereira veio à oficina logo ao romper do sol. O alfageme já o esperava. Mal o viu, correu para ele. 
— Aqui tendes a vossa espada, senhor. 
D. Nuno Álvares Pereira examinou-a atentamente, como um conhecedor. E o seu rosto reflectiu alegria e satisfação. 
— Belo trabalho, mestre alfageme… Está perfeitíssima! 
Voltou-se então para trás, gritando a um dos seus acompanhantes. 
— Eh, escudeiro, pagai ao mestre alfageme o que ele vos pedir! 
Mas Fernão Vaz, nessa altura, adiantou-se um pouco e interpôs-se entre ambos. 
— Perdão, senhor D. Nuno… Se mo permitis, eu por ora não quero de vós nenhum pago. 
O outro olhou-o. Surpreendido. Desconfiado. E gritou: 
— Mas porquê?… Estais louco, decerto! 
Sem alterar a voz, o alfageme confirmou: 
— É o que vos digo, senhor… Nada quero receber. 
E emoldurando então as suas palavras firmes num sorriso de confiança, acentuou: 
— Ide embora, que em breve voltareis conde de Ourém… E então me pagareis o que eu merecer, senhor conde! 
O semblante de D. Nuno desanuviou-se um pouco. Um breve sorriso nasceu ao canto dos lábios. 
— Não me chameis conde, porque eu não o sou, mestre alfageme… 
A sua voz tornou-se menos dura e autoritária. 
— Deixai que vos paguem tudo o que quiserdes… 
Fernão Vaz cruzou os braços numa obstinada recusa. 
— Não é preciso, senhor… Eu só vos disse a verdade… E assim será cedo, se Deus quiser!
 
E Deus quis, na verdade, que a profecia do alfageme de Santarém depressa se realizasse. Mercê dos seus feitos de valentia e de heroísmo, fazendo frente a inimigos muito superiores em número e vencendo-os sem remissa, D. Nuno Álvares Pereira foi agraciado por el-rei D. João Icom o honroso título de conde de Ourém. 
 
Entretanto, em redor da vida de Fernão Vaz, o alfageme de Santarém, tinham-se amontoado muitas nuvens de tormenta, que ameaçava desencadear-se com terríveis consequências. De facto, invejas e intrigas minavam o prestígio de Fernão Vaz, até que os seus inimigos pessoais, arrastados pelo despeito e pela maldade, resolveram acusá-lo publicamente como traidor à Pátria. 
Fernão Vaz sentiu-se desamparado. O cerco apertava-se cada vez mais. Os fregueses desapareceram, apavorados. E ele acabou por ser preso, vergado às infames acusações que lhe faziam. 
Triste, desesperada, Dona Alda Vaz chorou a sua dor. A sua dor e o seu protesto. 
— É falso! É mentira! Meu marido está inocente, mil vezes inocente! São os outros que nos querem mal, porque somos ricos e felizes… Socorrei-nos, meu Deus! Valei-nos!… Livrai meu marido da forca! 
Mas de nada serviam as palavras e as lágrimas de Dona Alda Vaz. O alfageme de Santarém continuou preso e os seus bens foram totalmente confiscados. Vinha próxima a hora da morte!
 
Como último recurso, não vendo qualquer outra possibilidade, a jovem esposa decidiu procurar pessoalmente D. Nuno Álvares Pereira, o novo conde de Ourém. 
Ele não a fez esperar. Mas quedou-se boquiaberto, quando a viu surgir na sua frente. 
— Senhora! Vós aqui… e nesse estado? Por Deus!… Porque chorais, senhora?… Que vos aconteceu? 
Entre duas novas crises de lágrimas que a faziam tremer, Dona Alda Vaz conseguiu explicar. 
— Senhor D. Nuno, sabei que prenderam meu marido… Imaginai senhor! Acusam-no de traidor! 
Parou, já sem fôlego. Exausta. Deprimida. Prestes a desmaiar. Porém, num novo impulso de coragem e de revolta, ainda soluçou baixinho: 
— Sim, acusam-no de traidor… mas ele está inocente!… Absolutamente inocente! 
E como que a lembrar-se do passado, ergueu para D. Nuno os lindos olhos inundados de lágrimas. 
— Senhor… ainda acreditais em mim? 
Um suspiro incontido saltou do peito de D. Nuno Álvares Pereira e escapou-se-lhe por entre os lábios. 
— Ainda acredito em vós, sim!… 
Semicerrou os olhos e as suas mãos cruzaram-se. 
— Houve tempo em que talvez não acreditasse… Foi muito forte a desilusão de amor que me fizestes sofrer… 
Ela baixou a cabeça. Como que vencida. Mais do que vencida, humilhada. Expiando a sua própria culpa. 
— Senhor… por tudo vos peço que esqueçais esses tempos!… 
Ele amparou-a docemente, obrigando-a a sentar-se. Depois sentou também diante dela e falou calmamente. 
— Bem sei, Dona Alda Vaz… Tendes medo que o despeito me domine o coração, não é verdade?… 
A voz tornou-se mais austera. 
— Descansai!… Eu não posso nem devo olvidar que a profecia do vosso marido saiu certa… Infalivelmente certa!… Hoje sou conde Ourém, tal como ele me disse certo dia, em que eu não sonhava ainda sequer com esse título… 
Levantou-se, deu alguns passos e voltou a parar em frente da desolada e lacrimejante Dona Alda Vaz. Depois sorriu, a acompanhar qualquer reflexão que lhe vinha do íntimo. 
— Tem graça, Dona Alda Vaz… Lembro-me agora que vosso marido me disse também, nessa altura, que depois de eu ser conde de Ourém lhe pagaria o trabalho, conforme ele merecesse… 
A sua voz soou como um clarim de combate. 
— Pois muito bem: vou pagar-lhe! 
A medo, tremendo mais, D. Alda Vaz perguntou: 
— Senhor! Que ides fazer?… Matá-lo? 
Sorrindo de novo, com ar resoluto e voluntarioso, ele respondeu apenas: 
— Não. Vou salvá-lo! 
Foi fácil a D. Nuno Álvares Pereira conseguir o seu intento. Tendo narrado tudo a D. João I, depressa ele conseguiu o perdão real para Fernão Vaz. E, montando o seu corcel mais ligeiro, meteu-se velozmente a caminho, chegando bem a tempo de salvar da forca o alfageme de Santarém, que mal podia acreditar em tamanha felicidade.
Mas D. Nuno Álvares Pereira foi ainda mais além. Juntou Fernão Vaz e sua esposa num abraço de amor, dizendo: 
— Assim se cumpriu a vossa profecia, mestre alfageme! 
Fernão Vaz soltou um suspiro, fantasma de atroz recordação. 
— É verdade, senhor… Já sois conde e afinal pagastes muito melhor do que eu esperava!… 
Então, D. Nuno Álvares Pereira avançou para ele. O seu semblante tornou-se mais sério. 
— E agora sabeis que mais, Fernão Vaz?… Quero também armar-vos cavaleiro, para vos compensar das injustiças que vos foram feitas! 
Surpreendido, o alfageme fitou D. Nuno bem de frente. A sua testa salpicou-se de reflexões. E concluiu, abanando a cabeça lentamente: 
— Não, senhor D. Nuno, não posso aceitar a honra que me ofereceis. Vós sois um honrado e digno fidalgo… Não deveis descer de onde chegastes… Eu sou filho de alfageme, de um alfageme que sempre colocou o seu carácter acima de todas as coisas da vida… Por isso, D. Nuno, eu não quero subir, porque também não quero descer… 
Por momentos quedaram-se em silêncio. Por fim, D. Nuno concordou. 
— Aprovo as vossas palavras, embora elas contrariem um desejo que me seria muito grato. Já que nada mais posso fazer, desejo-vos muitas felicidades, para vós e para vossa esposa. 
O mesmo sorriso de sempre abriu-se no rosto de Fernão Vaz. 
— Obrigado, senhor… Eu bem sabia que podíamos confiar em vós! 
Do alto da sua montada, D. Nuno Álvares Pereira ergueu o braço, num gesto de saudação. 
— Ide, amigos!… Ide, e que Deus vos proteja! 
Com um último adeus, mas sem dizer mais palavra, o alfageme e sua mulher seguiram de abalada, caminho de Santarém. 
D. Nuno ficou afagando a sua espada de combate. O amor abalava para sempre da vida do herói. Mas ficava a espada que daí em diante seria a sua companheira e a sua dama!

 

Em: MARQUES, Gentil Lendas de Portugal, Porto, Editorial Universus, 1962 , p.Volume II, pp. 193-200.