Noite de luar, sim! Noite bonita. Noite romântica. Noite de luz prateada, finíssima, feérica.
Mas as noites de luar não pertencem apenas às lendas: fazem parte também da realidade.
Esta a que nos referimos foi uma noite de luar dos fins de Agosto. Verdadeira noite de Verão, quando a Lua parecia sorrir, lá do alto, para uma povoação graciosa situada nas abas da serra da Estrela.

Isto passou-se há muitos, muitos anos! E teve como cenário a vila deLinhares, freguesia do concelho de Celorico da Beira. Daí derivar, segundo se diz, o desenho do seu antigo brasão municipal, ostentando uma das fases da Lua e cinco estrelas.

Linhares fora já célebre no tempo dos Godos. Conquistada depois aos Mouros por D. Afonso Henriques, foi povoada por este mesmo rei, que a cedeu em parte aos que mais se haviam distinguido na sua conquista. Entre esses guerreiros ilustres contava-se D. Pedro da Silveira, a quem D. Afonso Henriques obsequiou com largas terras de Linhares. Os fidalgos tomaram conta delas e trataram não só de as guardar, mas de as alargar.

Certa vez, o velho fidalgo D. Pedro, sentindo-se doente, mandou chamar seu filho D. Afonso. A tarde estava serena e cálida. Sentado no cadeirão seu velho amigo, o dono da casa cismava, respirando com dificuldade. À porta, respeitoso, apareceu por fim seu filho D. Afonso. As faces do velho tingiram-se de um leve rubor de satisfação. Com um gesto ordenou ao filho que se aproximasse. O jovem sorriu.
— Mandastes chamar-me?
Numa voz cansada, o velho respondeu:
— Sim, meu filho. Preciso falar-te.
O rapaz alarmou-se.
— Estais tão fatigado, meu pai! Talvez o que tendes para me dizer, possa esperar.
Num meneio de cabeça, o velho confirmou:
— Estou cansado, sim, meu filho. E vê tu que apenas me levantei deste cadeirão para me debruçar sobre aquele baú…
— E isso era necessário? Que tem o baú…
— Velhas recordações… Lembranças da minha mocidade…
D. Afonso tentou gracejar.
— Agora compreendo, meu pai, o vosso cansaço. Estivestes debruçado sobre vinte e tal anos! Qualquer homem se cansaria…
D. Pedro sorriu…
— Talvez, Afonso! Mas um homem da nossa têmpera não se cansaria por tão pouco, se…
O velho suspendeu a frase. O filho interrogou-o com o olhar. Havia ansiedade nessa silenciosa pergunta. E o velho fidalgo concluiu, depois de um longo suspiro:
— Estou doente, Afonso! Muito doente. Não sei quanto tempo mais viverei.
— Meu pai…
— Não me interrompas. Necessito que me escutes, pois forçoso é que fique cumprida a promessa que fiz ao senhor D. Afonso Henriques, nosso defunto rei.
Calou-se o velho, a tomar alento.
— E é difícil de cumprir essa promessa, senhor meu pai?
A voz do velho fidalgo tomou mais alento, como alimentada por força íntima.
— Não. Vês esta espada?… Pega nela.
D. Afonso aproximou-se e pegou na espada que estava junto do cadeirão.
— Oh… É pesada e boa!
— Foi-me confiada por el-rei. D. Afonso Henriques, que Deus tenha em descanso. Quando tomamos aos Mouros estas terras de Linhares, dois jovens se distinguiram: D. Paio de Meneses e eu. Quis el-rei premiar-nos com esta espada, a qual ficaria comigo enquanto a morte me não rondasse. E mal a pressentisse, teria de enviar esta espada a D. Paio de Meneses.
D. Afonso ouviu, interessado, a narrativa de seu pai. E perguntou:
— E por morte de D. Paio, para quem vai essa espada?
— Se D.Paio não tiver filho varão, ficará em poder de meu filho ou filha mais velha.
— E se ele tiver filho varão?
— Nesse caso… a espada voltará para ti que és o mais velho, decerto, e és meu herdeiro. Todavia, ficarás sujeito à mesma promessa que eu fiz quando sentires a morte a rondar-te… Enviarás a espada ao filho de D. Paio, e assim pelas gerações adiante!
— Compreendo, senhor meu pai. Mas permiti que vos lembre ser demasiado o vosso escrúpulo. Estais ainda bem longe da morte!
O velho sorriu, quase enigmático.
— Quem conhece o seu destino?
O rosto tomou dolorosa expressão.
— Vê tu… a tua mãe… tão nova… tão forte… E de repente…
Curvou a cabeça de cabelos todos brancos. D. Afonso sofria, vendo o pai sofrer. Tentou animá-lo.
— Foi um acidente que vitimou a senhora minha mãe…
O velho encolheu os ombros.
— A morte não escolhe idades, nem raças, nem castas! Por isso te chamei. Quero que vás a Celorico entregar a espada ao meu nobre amigo D. Paio de Meneses.
— Irei, se isso vos apraz. Mas ficai seguro que ainda vivereis muitos anos, para nossa alegria e glória de Linhares!

Sol quente, brunindo a pele de quem o recebia. Abraço forte, que era quase fogo. Manhã luminosa e cálida. Da terra aspirava-se o odor das flores e ervas campestres. Chegado a Celorico, o jovem D. Afonso foi logo introduzido no salão nobre de D. Paio, que o esperava de braços estendidos, pois o seu hóspede tinha-se feito anunciar. Era bastante mais novo que D. Pedro, embora de estatura menos elevada.
— Bem-vindo sejais a esta vossa casa, nobre amigo! Como está vosso pai?
— Bastante doente e pede-vos que guardeis esta espada, na qual ele coloca todo o seu orgulho de guerreiro.
D. Paio, olhos marejados de lágrimas, recebeu a espada quase com unção. A sua voz baixou de tom. A emoção dominava-o. Falou pausadamente.
— Esta espada! Como nós a respeitamos!
Ficou instantes pensativo, como revivendo os passados dias de luta com os Sarracenos. Depois olhou sorrindo o jovem filho do seu amigo.
— Para vós será um dia, D. Afonso, pois eu possuo apenas uma filha, bem mais jovem do que vós!
D. Afonso curvou a cabeça numa cortesia. E a sua voz soou clara, simpática:
— Também vós sois ainda bastante novo. Éreis decerto ainda uma criança quando batalhastes contra os Mouros…
D. Paio perdeu-se, de novo, na meditação. Mas dessa vez recordava alto os tempos idos…
— Sim… era quase uma criança. E de muito me serviram os bons conselhos do meu nobre amigo e senhor vosso pai. Ele era valente! Sabia falar aos homens. Levava todos consigo para onde lhe interessava. E até parecia que tinha o poder de lhes roubar o medo! Era, na verdade, um valente, um homem feito para a guerra!
Afonso curvou-se num gesto agradecido. E decidiu-se a dizer o que havia minutos lhe queimava os lábios.
— Senhor! Já que falais em guerra… devo comunicar-vos que não gostei de certos grupos que encontrei pelo caminho. Pareceram-me suspeitos. Se não fosse a obrigação de vos trazer essa espada, teria averiguado de que se tratava.
D. Paio passou uma das mãos pelo rosto. Franziu as sobrancelhas. Fitou um local da parede fronteira. Suspirou fundo. Mas quando se dirigiu ao jovem D. Afonso a sua voz era serena.
— Bem… Os Leoneses, como sabeis, têm certas pretensões… Mas não devo acreditar numa possibilidade de cerco.
Sorriu francamente para o seu visitante e continuou:
— Sois bem o filho de Pedro da Silveira! Ele via inimigos nos próprios rochedos! Não fiqueis preocupado. Ides ser nosso hóspede e receber-vos-ei com a amizade que vosso pai me merece.
Um pouco desiludido ou confundido, o jovem inclinou-se numa vénia, tentando esconder a impaciência que lhe causava tanta calma ante um assunto que ele reputava de extrema importância. Mas D. Paio prosseguiu:
— Quero apresentar-vos minha filha Lídia. Ela está perto de nós. É só um instante.

O Sol continuava a sua marcha. E no seu rasto ficavam pingos de luz que queimavam a terra. D. Afonso esticou o pescoço, tentando respirar melhor. Mas já uma linda voz feminina o desviava de tudo o mais que não fosse conhecer a dona dessa voz.
— Aqui estou, meu pai.
Outro sol entrava na sala. Outra estrela no firmamento do jovem fidalgo!
— Minha filha, apresento-vos D. Afonso da Silveira, filho do meu maior amigo e antigo companheiro de armas.
Sorrindo, a jovem curvou-se em graciosa reverência. D. Afonso também se curvou, mas sem a desfitar, para não roubar aos olhos, por um instante que fosse, tão maravilhosa aparição…
— É grande honra para mim, senhora!
Ela não cessou de sorrir-lhe. Então D. Paio tentou quebrar o embaraço daquele primeiro encontro.
— Lídia, levai o nosso hóspede à torre, para que veja as terras ganhas durante as batalhas com os Mouros.
Sorrindo sempre, a voz da donzela soou melodiosa:
— Quereis acompanhar-me, senhor?
Ele ofereceu-lhe o braço direito, onde ela pousou a sua mão muito branca. E sussurrou-lhe quase:
— Como foi possível tanto tempo para encontrar tão grande tesouro!…

Nem uma aragem no alto da torre. Um calor tórrido, pondo lagos de febre na terra escaldante.
Encantado com a maravilhosa beleza de Lídia, D. Afonso olhava mais para a esbelta figura que se encontrava a seu lado do que para a não menos linda paisagem que se estendia à sua frente. A linha do horizonte mostrava-se imprecisa. Nuvens baixas, como poeira luminosa, formavam um círculo quase fechado. Lídia sorria. Também ela estava visivelmente agradada daquele moço, alto, forte, de belas feições e olhar doce. De súbito, a atenção do jovem fidalgo desviou-se da sua companheira. Olhava agora, fixamente, alguns pontos em redor. Tão rápida foi a mudança da sua expressão que a própria donzela o notou. E indagou, um tanto sobressaltada:
— Que estais vendo com tamanha preocupação no rosto?
D. Afonso cerrou os punhos. A voz alterou-se-lhe.
— Senhora! Eles vêm pôr cerco a Celorico! Vede… Surgem por todos os lados!
Foi a vez da jovem se alarmar.
— Tendes razão, meu amigo! E quem são eles?
— Leoneses!
A jovem levou as mãos ao rosto por um segundo apenas. Depois, pareceu tomar coragem.
— E que vamos fazer?
D. Afonso mostrava-se nervoso.
— Senhora, dai-me depressa um cantil com água. Partirei sem sequer me despedir de vosso pai.
A estupefacção tomou no rosto da jovem o lugar da ansiedade.
— Que dizeis? Ides partir? Não vos compreendo, senhor… Bem sei que não sois de Celorico e… não vos deveis impor…
Ele interrompeu-a com viveza.
— Que estais a imaginar, senhora minha?… Acaso supusestes que tentava fugir ao perigo? Cedo sabereis que fostes injusta. Perigo… rodear-me-á, sim, ao tentar romper as hostes leonesas! Ouvi, senhora: vou fazer o possível para chegar a Linhares e trazer socorros. No entanto, se estes socorros não chegarem, jamais imagineis que desertei e antes orai pela minha alma, pois decerto sucumbi pelo caminho.
Lídia olhava agora o jovem com emoção crescente.
— Perdoai-me, Afonso! Que Deus vos acompanhe!
Ele levou aos lábios os dedos delgados da sua companheira.
— Lídia, orai por mim. Orai para que volte depressa e vos consiga salvar!
No alto, cada vez mais pojante de força, o Sol estreitou os dois enamorados no mesmo plano de luz…
Quatro léguas separavam o jovem D. Afonso de sua casa de Linhares. Mas no percurso da primeira, ao sair de Celorico, o jovem fez prodígios de bravura para conseguir romper a frente do cerco e passar com vida para o lado de lá. Mal chegou a Linhares, correu a expor a situação ao seu velho pai.
— Os Leoneses cercam Celorico! Alguns lavradores já foram presos!
O velho levantou-se do velho cadeirão.
— Quero que todos os homens válidos de Linhares se reúnam no largo. Preciso falar-lhes.
Intimamente, o jovem sorriu ao recordar-se do que D. Paio de Meneses dissera do seu velho amigo. O guerreiro habituado a falar às multidões não perdera as suas antigas qualidades!
Duas horas passaram. Duas horas que pareceram dois dias à impaciência do jovem D. Afonso. Por fim, amparado ao braço do filho o velho fidalgo foi até ao largo. Encheu os pulmões de ar puro e, no silêncio respeitoso que se fez à sua chegada, a sua voz vibrou forte, enérgica:
— Os que têm a minha idade sabem como e por que esta terra se formou. Tem sido próspera, talvez porque o seu sangue, regando-a, a fertilizou. É nossa, pois! Na raiz das suas plantas corre a seiva que circula nas nossas veias. Quem se irmana pelo sangue, jamais poderá separar-se! Linhares é nossa enquanto houver alento nos nossos corações! Os Leoneses estão a pôr cerco a Celorico. Depois de Celorico, virão para Linhares. Expulsemos o inimigo, como extinguimos parasitas que entram nas nossas hortas! Corramos todos! Eles não esperam que os ataquemos pela retaguarda. Ou agora ou nunca!
O velho silenciou. Mas os braços levantados acompanhavam a vozearia. Todos estavam dispostos a combater!
Mal a noite começou a cair, a marcha tomou rumo a Celorico. Marcha forçada. Havia pressa de chegar. O caminho era bem conhecido e um lindo luar de Agosto mostrava-lhes qual o melhor atalho a seguir. E não tardaram a chegar à vista de Celorico.
A surpresa dos Leoneses foi imensa. À luz da Lua eles viam o inimigo a encurralá-los. Em breve compreenderam a situação. A luta foi renhida. As forças de Linhares e as de Celorico entraram em contacto. Os Leoneses, quase fechados numa bolsa, não poderiam salvar-se. Só havia um meio: a fuga! E assim fizeram. Pelo pequeno espaço que lhes restava, puseram-se em louca debandada. E ainda o luar banhava as terras de Celorico quando Afonso e Lídia voltaram a encontrar-se.
— Lídia! Vencemos!
Pálida pelo temor sofrido e pela felicidade repentina, a jovem murmurou:
— Fostes um valente! Sinto-me orgulhosa e feliz!
Ele olhou-a nos olhos, à luz dessa luz que ia dando lugar aos primeiros alvores do dia.
— Bendita a hora em que vos encontrei!
Ela sorriu-lhe.
— Entrai, meu pai espera-vos. E estes homens que chefiais precisam de repousar…
Sorriu a Lua no alto. Sorriu, morrendo num adeus à manhã esplendorosa que ia alastrando no horizonte. Mas essa noite de luar ficou para sempre imortalizada na lenda que o povo de Linhares e de Celorico conta aos serões ou nas tardes cálidas, ou ainda quando o luar de Agosto sobre imponente, estendendo o seu manto de prata, cheio de mistério e beleza.

 

Em: MARQUES, Gentil Lendas de Portugal, Porto, Editorial Universus, 1962 , p.Volume II, pp. 79-86.