Pesado era o tributo que nesse tempo longínquo pagava anualmente orei Mauregato ao emir de Córdova. Pesado e já então inconcebível: cem donzelas escolhidas entre as mais formosas de Portugal e Espanha.
Em casa de D. Ramiro — velho fidalgo, cujo nome era conhecido e respeitado pela sua bondade e pelas suas heróicas façanhas no tempo em que tinha menos idade — reinava um atroz desespero. Sua filha única, a formosíssima D. Mécia, acabara de ser escolhida para fazer parte do grupo das cem donzelas que seria entregue, nesse ano, pelo rei Mauregato ao emir de Córdova!
Com as mãos enrugadas apertando as fontes, o velho fidalgo chorava como uma criança. A revolta subia aos seus lábios. Amarga como fel.
— Minha filha! A minha querida filha! Mas isto é uma infâmia sem nome!… É um verdadeiro ultraje à minha honra, que Deus há-de por certo castigar!
Chorando também, mas em silêncio, a donzela tentou acalmar o fidalgo.
— Senhor meu pai… por favor… não vos exalteis assim…
Ele abanava a cabeça, num desespero louco.
— Ah, se eu fosse mais novo!… Se as mãos não me tremessem… e fossem fortes como dantes!…
A jovem, temendo pela vida do pai, esforçava-se por sossegá-lo.
— De que vos serviria lutar? Seríeis um contra mil! Nada é possível, meu pai! Que Deus se compadeça de nós e nos dê resignação, é tudo quanto peço…
O velho gritou:
— Resignação? Como?… Ah! E eu que imaginei que te poupariam! Tive a louca ilusão de que o meu nome, o meu prestígio… enfim, tudo quanto fiz e do qual ainda resta fama… tudo isso os movesse a pouparem-te!…
D. Mécia suspirou longamente. A sua voz era fraca, dorida:
— E pouparam, meu pai! Durante anos deixaram-me em paz… e foram levando as outras!… Infelizmente… chegou agora também a minha vez!
O fidalgo teve novo acesso:
— Não! Não permitirei! Primeiramente, terão de passar por cima do meu cadáver!
A jovem assustou-se. Juntou as mãos, suplicante.
— Senhor meu pai… peço-vos!… Não tenteis coisas desesperadas… Nada lucrareis com isso e somente aumentareis o meu sofrimento!
— Que hei-de então fazer? Cruzar os braços e deixar-te partir?
— Senhor… Teremos de nos conformar… e aguardar um prodígio… um milagre… que venha livrar-nos de tamanha aflição!
O velho deixou-se cair numa cadeira, exausto.
— Prodígios… Milagres… Mal vai o tempo para tudo isso! Pois não vês?… Quem salvou as outras donzelas?… Quem as livrou das ganas tiranas desse malvado rei Mauregato?
Um suspiro fundo, foi a pronta resposta. Depois, numa voz mais debil ainda, a jovem murmurou:
— Que se cumpra a vontade de Deus!

De repente, o ruído alarmante produzido pela escolta que chegava junto da casa de D. Ramiro despertou os seus moradores. D. Mécia sobressaltou-se. Fez-se terrivelmente pálida, mas olhou o pai com energia.
— Senhor! Por tudo vos peço… Tende calma! Só assim podereis ajudar-me…
Mas já o chefe da escolta entrava sem cerimónia, apresentando-se com altivez no gesto e na voz:
— Está pronta a vossa filha, senhor D. Ramiro? As outras noventa e nove já a esperam para seguir a caminho de Córdova.
A raiva enchia o peito do nobre velho.
— Quem sois vós, para falardes dessa maneira e dentro da minha casa?
O homem sorriu, desdenhoso.
— Bem vedes quem sou! Estais em frente do chefe da escolta que acompanhará até Córdova as cem jovens virgens deste ano! … Venho aqui buscar apenas vossa filha e mais cinco donzelas, as únicas que faltam para completar a conta.
O fidalgo bramiu com desespero:
— Infame! Pois atreveis-vos a falar desse modo?…
Receando um pior desfecho, D. Mécia apressou-se a comparecer.
— Senhor meu pai… estou pronta a partir! Adeus… e que Deus nos ajude!
O velho não pôde mais. Agarrou a filha, estreitando-a nos braços, outrora fortes e famosos, deixou que o pranto corresse livremente. O chefe da escolta começou a impacientar-se.
— Basta de lágrimas! Está tudo à vossa espera e temos de partir imediatamente! A caminho, pois!

E lá abalaram, numa correria louca pela estrada fora, em direcção à fronteira.
Conta a lenda que, perto de Viseu, talvez por cansaço ou por efeitos do calor, os homens da escolta que acompanhava estas seis donzelas para se juntarem ao resto do grupo, pararam precisamente no local onde hoje existe a freguesia de Figueiredo das Donas, aí a uns três quilómetros da margem esquerda do rio Vouga.
A jovem D. Mécia olhou as suas companheiras. Pareciam conformadas com a sua sorte. Ela, porém, sentia dentro de si algo que lhe dava alento e energia: uma esperança!… Esperança num milagre!
Caminhando devagar, com gestos discretos, D. Mécia foi sentar-se num recanto solitário da estrada, olhando com melancolia a linha do horizonte, que se perdia para além da serra de Carvalhais… E, de súbito, aos seus ouvidos chegou, vindo de longe, o tropel dum cavalo batendo a estrada. Quem seria o cavaleiro? — pensou… — Decerto qualquer dos componentes da amaldiçoada escolta!
O galope aproximou-se mais e mais. E, com espanto, a jovem descobriu que se tratava, afinal, dum cavaleiro cristão. Ao vê-la, ele estacou, surpreendido.
— Que fazeis aí, senhora, tão sozinha e triste?
A resposta chegou breve:
— E vós… que fazeis em local tão perigoso?
O cavaleiro sorriu.
— Perigoso porquê? Será que o perigo vem dos vossos olhos?
A jovem suspirou.
— Senhor… não brinco! Pelas vossas armas vejo que sois cristão… Eu também sou cristã e por isso vos previno: afastai-vos… Afastai-vos o mais depressa que puderdes!
— Só me afastarei se o ordenardes. De contrário, quedar-me-ei para sempre… preso aos vossos encantos!
A jovem olhou em volta.
— Senhor cavaleiro!… Já que sois teimoso, escutai. Eu sou uma das cem donzelas que marcham a caminho de Córdova para pagar o tributo anual ao rei Mauregato. Faço parte de um grupo de seis, e vamos ao encontro das restantes, que já esperam por nós… Compreendeis agora? Toda a escolta é da Moirama… Se eles vos encontram aqui, estais perdido!
Ouviu-se uma exclamação de surpresa:
— Que dizeis vós, senhora, que mal posso acreditar? Cem donzelas de tributo? E sois vós uma delas?
— Sim!
— Pois vos juro, à la fé em Deus, que não o consentirei!
Novo suspiro de D Mecia. O seu olhar ficara ainda mais triste…
— Quem sois vós, cavaleiro… e que pretendeis contra tantos inimigos?
— Quem sou? Eis o meu nome, senhora: Goesto Ansures, aquele que vos há-de desposar, se a tal vosso coração não se opuser!
— Mas… senhor…
— Dizei-me apenas: onde estão eles?
— Ali… naquela clareira…
— Esperai então, senhora…
Ela levantou-se, suplicante.
— Por Deus… e por mim… poupai a vossa vida!
O cavaleiro esporeou a montada, dizendo apenas, num assomo de fé e confiança em si próprio:
— Em breve voltarei! Ficai aqui.
E, num arrojo inacreditável, o bravo Goesto Ansures correu para os mouros da escolta gritando altivamente:
— Eh lá! Quais de vós se atrevem a bater-se contra a minha espada? Desafio-vos a todos!… A todos, um por um… ou ao mesmo tempo… como quiserdes!
Houve risadas de troça e um deles gritou:
— Estais a ouvir, companheiros? É assim que falam os cães cristãos! Vamos a ele e cortemo-lo às fatias!
— Pois vinde! A minha espada espera-vos!

E, segundo conta a lenda, Goesto Ansures fez prodigios de milagre. A todos ia derrubando com a sua espada, mal dele se aproximavam. O pânico começou a entrar nos soldados da Moirama. O cavaleiro cristão estava já rodeado de cadáveres, quando lhe surgiu pela frente um dos últimos adversários: o chefe da escolta.
Um golpe rápido partiu-lhe a espada em duas. O cavaleiro ficou desarmado. O mouro riu, selvaticamente, gritando:
—E agora… rendes-te? A tua espada já deixou de semear a morte! É a minha vez!
— Render-me? Nunca! Ouviste bem? Nunca! Se já não tenho espada, qualquer coisa me irá servir para te vencer.
E, num ápice, mais rápido do que a própria palavra, Goesto Ansures arrancou um tronco de figueira e com ele fez frente ao último inimigo, bradando:
— Vamos! Só faltas tu!
— Enganas-te! Vou dar-te o golpe final!
E o Mouro avançou para o cavaleiro cristão. Mas este, mais dextro, atirou-lhe um golpe certeiro, que o prostrou para todo o sempre!
As donzelas presenciavam, atónitas, tão estranha como desigual luta. Um tanto cansado, o cavaleiro vencedor falou-lhes com galhardia:
— Estais livres, agora! Podeis voltar para vossas casas!
E olhando intencionalmente D. Mécia, que vinha já ao seu encontro:
—Todas estão livres… Todas… menos uma… que me prendeu o coração! Com essa irei casar!

Assim aconteceu, na verdade. D. Ramiro, louco de alegria, deu a filha D. Mécia como prémio ao triunfador de tão espantosa batalha. Goesto Ansures, para perpetuar o seu extraordinário feito, concluído com um simples tronco de figueira, acedeu tomar o nome de Figueiredo das Donas, em homenagem à árvore que o salvara. E ali, naquela terra — que ficaria a chamar-se para sempre, também, Figueiredo das Donas — se construiu um belo e sumptuoso paço, do qual hoje só existem lendárias ruínas…

Em: MARQUES, Gentil Lendas de Portugal, Porto, Editorial Universus, 1962 , p.Volume I, pp. 60-65.