Ali, no meio da planície ribatejana, apenas a cinco quilómetros do Rio Tejo, estende-se a pitoresca e curiosa vila da Golegã, onde se realiza todos os anos a famosa feira de S. Martinho. E bem famosa, diga-se desde já. E justamente famosa, acrescente-se ainda.

Pois a Golegã, a da Feira de S. Martinho, possui também a sua história lendária. História que vem das próprias raízes da nossa nacionalidade, tal como o povo conta e assegura. História que vou evocar nestas páginas, como que ao sabor do castiço fandango, alma e poesia de todo o Ribatejo.
Sim, nos princípios de Portugal — reza a lenda remota — a Golegã ainda não existia… Por ali, havia unicamente um terreno pedregoso e aparentemente inútil. Era a Terra do Demo, como então chamavam a todos esses descampados sem vivalma.

Mas um dia aconteceu que certa mulher, oriunda da Galiza e residente em Santarém, se meteu a caminho para tratar da vida. Era longa a jornada. Longa e penosa. Quando chegou ao local ermo onde hoje se estende a Golegã, pensou decerto o mesmo que pensavam quase todos os caminhantes que por ali passavam, ou de longada para Santarém ou em direcção a Coimbra. Pensou que seria bom existir ali uma locanda, onde se pudesse descansar um pouco, a ganhar novas forças para o resto da jornada.
Era mulher animosa, aquela. Desde criança, na sua Galiza distante, habituara-se a trabalhar e a vencer sozinha.
Olhou em redor, enquanto se retemperava, e voltou a pensar na mesma ideia. Eram terras sem dono, essas terras agrestes e abandonadas. E se ela ficasse ali? E se ela construísse ali uma pequena estalagem onde se abrigassem os viajantes?…
Se assim o pensou, melhor o fez, segundo conta a lenda. Tinha braços fortes e alma de antes quebrar que torcer. Em pouco tempo, a sua venda, embora modesta, punha uma nota de vida no local outrora deserto…

A partir de então, os viajantes passaram a bendizer a ideia magnífica e tornou-se, por assim dizer, ponto obrigatório de paragem no caminho, a Venda da Galega — como desde logo ficou designada a locanda.
A mulher multiplicava-se em esforços e em vontade para atender todos da melhor maneira. E alguns tornaram-se mesmo familiares da casa, de tanto que ali passavam e paravam. Entre eles um fidalgo desenvolto e impertinente, que requeria para si o melhor quinhão da comida e da bebida.
— Eh, Galega, chega aqui… Viste o vinho que me deitaste?
Era mais uma das recriminações do «Senhor Fidalgo». Ela suspirou molemente:
— Ah, senhor Fidalgo… vou ja arranjar outro melhor… Desculpe, mas o trabalho é tanto, que mal tenho tempo para ver o que sirvo…
Ele inclinou-se um pouco para a frente e falou-lhe em tom de confidência:
— Ora, do que tu precisas, Galega, é de um homem que te proteja… que te possa auxiliar em tudo isto!
Foi a vez de o rosto dela se abrir numa risada:
— E onde está esse homem, senhor Fidalgo?
Voltou a suspirar e acrescentou em tom de confidência:
— Eu bem o procuro… mas nunca o encontrei até hoje.
Puxou um banco para junto da mesa e sentou-se pesadamente, sentindo que devia desabafar:
— Sabe uma coisa, senhor Fidalgo? Todos os que se oferecem para casar comigo, o que querem é explorar-me, apanhar o meu dinheiro, que eu ganho com tanto trabalho, com tanto sacrifício!
Voltou a erguer-se e rematou, já em voz mais forte:
— Ná! Nessa não caio eu… Antes prefiro viver sozinha que mal acompanhada!
Fez-se um pequeno silêncio. Ela ja ia retirar-se, de regresso ao trabalho, mas a voz dele soou, fazendo-a parar:
— Pois tu não percebes o que eu digo, Galega? O que tu precisas não é de qualquer desses valdevinos que enchem a tua venda… É de um homem forte, bom, compreensivo… enfim… de um homem como eu!
Desta vez o silêncio foi mais demorado. A mulher ficou com tremores na voz, quando voltou a falar:
— O quê?… O Fidalgo?… O senhor Fidalgo… quer dizer…
Ele resolveu ser mais explícito.
— Quero dizer que posso ser o homem que tu ainda não encontraste!
Sorriu, superior e bonacheirão, e rematou, depois de beber o resto do vinho:
— Pensa bem, Galega!… Sigo viagem e, no regresso, pararei aqui, para saber a tua resposta.
Andou uns passos para a porta e quando se voltou, para se despedir, ela ainda estava no mesmo sítio, olhando em frente, como que aparvalhada.
Ele riu, satisfeito.
— Eh, Galega, não faças essa cara… Tudo é possível na vida!
Saiu, batendo com a porta. E a mulher encontrou-se a repetir para si própria, baixinho, como que a medo: — Tudo é possível na vida!

O tempo foi passando… Agora a Galega tinha um pensamento dominante… «Santo Deus! Eu, com um fidalgo por marido… Essa nunca me tinha passado pela cabeça… Portanto, qualquer dia poderei ser marquesa… ou mesmo rainha.» E ria, ria perdidamente, esquecida dos que a olhavam sem perceber…

Mal podia ela adivinhar que o tal Senhor Fidalgo há muito tempo já amadurecia o plano que só agora pusera em prática.
No regresso da viagem, sobre o tropel dos cavalos nos caminhos, ele gritava para os companheiros, numa moldura de gargalhadas:
— Vocês vão ver, rapazes!… A Galega cai-me no papo e é um ar que lhe dá… E com a maquia que ela já juntou, podemos nós fazer muita coisa… Depressa, rapazes, estou desejoso de chegar…

Entretanto, tal como ele próprio dissera, tudo era possível na vida… E assim algo acontecera que viera modificar um pouco os planos da Galega. Dias antes, tinham chegado à estalagem um velho viandante e sua filha. E o velho, de aspecto respeitável e fala insinuante, ao olhar aquelas terras não escondera a sua surpresa e a sua admiração:
— Que lugar admirável! Que grande povoação se fazia aqui!
— Ora, meu pai, não sonhe tão alto…
Mas a Galega, atraída por essas palavras, insistiu:
— Deixe-o lá, menina, deixe-o sonhar… E diga-me, meu senhor: acha na verdade que se poderia daqui fazer uma grande terra?
O olhar do velho brilhou estranhamente, como se ele fosse profeta:
— Basta querer… Este é um sítio ideal, no caminho grande… Toda a gente passa por aqui…
— Lá isso é verdade, meu senhor… Às vezes até passa gente demais…
— Ora, e cada vez há-de passar mais gente, acredite… O mundo está a desenvolver-se. Ah, se eu pudesse!…
— O senhor… se pudesse… o que fazia? Diga-me…
— Quer saber? Pois oiça… Mandava construir mais casas. Transformava tudo isto numa povoação. Em vez de passar, apenas, as pessoas vinham para aqui viver… E a terra havia de aumentar… Os campos seriam cultivados. O rio seria aproveitado… Ah, se eu pudesse! Mas para isso precisava dinheiro… E eu sou um velho, um velho e um doente. Nada valho! Tenho gasto a vida a sonhar…
Calou-se. O seu olhar deslizava pelo espaço em frente, como se já visse erguida a povoação que profetizava. A própria Galega ficou suspensa, a pensar, a sonhar também. E, de súbito, soltando o que lhe ia no íntimo, confessou:
dinheiro, dinheiro bastante tenho eu… Se não fosse a proposta de casar com um fidalgo, quem se metia nisso era eu… Seria tão bom ter uma terra, uma grande povoação…
O velho continuou-lhe o pensamento.
— Com muita gente, muitos campos cultivados, muito jardins…
— Isso mesmo! Isso mesmo!
O peito da Galega arfava de contentamento. De contentamento e emoção.
— Ah, se não fosse o tal fidalgo…
—E sempre vai casar com ele? — perguntou a filha do velho viandante.
A mulher hesitou na resposta:
— Sei lá, minha menina… Ele deve estar de volta, para saber o que resolvi… Vamos a ver se tomo alguma decisão até essa altura. Deus queira que sim!

Conforme se conta na lenda remota, passados dias, tornou o Fidalgo. Era uma tarde de calor. Não havia movimento nos caminhos.
Habituado a casa, o Fidalgo empurrou a porta e entrou molemente. A sala estava deserta. Sentou-se à vontade, sentindo-se já senhor de tudo aquilo. Esperou uns momentos. Como ninguém aparecesse, ele bateu as palmas com força e gritou:
— Então, ninguem atende? Morreu tudo?
Com grande surpresa do Fidalgo, apareceu uma rapariguita.
— Pronto, meu senhor!… Deseja alguma coisa?
O olhar impertinente do viandante examinou-a, de alto a baixo.
— Olá, temos cara nova… Pois claro que desejo… Quero comer e beber!
Ela ia retirar-se, mas ele reteve-a suavemente por um braço:
— Ouve la, cara linda: a Galega, onde está?
Suavemente também, a rapariga libertou-se. E respondeu, com os olhos marejados de lágrimas:
— Foi tratar de meu pai… Ele está muito doente… está à morte.
— Hum… Pobre pequena… tens o pai a morrer?
— Teve uma recaída, senhor… Sofre muito do coração… Cansou-se na viagem até aqui…
Limpou os olhos ao avental e procurou dar à voz um tom mais seguro:
— Eu vou buscar o que deseja…
Demorou pouco tempo. Absorto nos seus pensamentos, o Fidalgo nem a olhou. Começou a comer e a beber. Principalmente a beber..
E foi bebendo até se fartar. A tarde escurecia e ele voltou a bater as palmas com força e a gritar:
— Onde raio se meteu esta gente?
A rapariguita reapareceu, agora ainda mais chorosa. Assim que a viu, o Fidalgo avançou para ela, já pouco seguro nos gestos e na voz.
— Eh, pequena… Então sempre vais ficar órfã?
— Oh, senhor, cale-se! Cale-se, por amor de Deus!
Ele segurou-a com força.
— Calo-me.., mas antes quero dizer-te uma coisa: quando eu casar com a Galega, podes contar comigo…
Indignada, a rapariguita fez um gesto para se libertar, sem o conseguir.
— Pois atreve-se, neste momento?… Largue-me! Mete-me nojo! Pobre Galega… Ela que tem um coração de oiro…
Estoirou uma gargalhada impudica.
— Isso mesmo, pequena!… Um coração de oiro que pode valer bom oiro para nós dois… se tu quiseres…
Ela deu novo safanão, sem resultado.
— Largue-me, já lhe disse!… Mas descanse… eu vou contar tudo à Galega para ela saber o que o senhor é e o que pretende…
Irritado, o Fidalgo ergueu o braço num gesto de ameaça.
— Ai de ti, se disseres uma palavra!… Olha que sou capaz…
Mas calou-se, de repente, sem saber que fazer. Na penumbra que envolvia a sala, a Galega entrara, sem que dessem por ela. Avançou devagar, libertou a rapariga e olhou o homem bem de frente.
— Não sois capaz de nada, senhor Fidalgo. Eu ouvi tudo. Agora compreendo muita coisa…
Ele ainda tentou uma explicação:
— Eu queria apenas…
Num impulso de cólera, a mulher interrompeu-o e apontou-lhe a porta:
— Cale-se! O senhor não queria nada, o senhor não quer nada… O senhor vai sair imediatamente da minha casa, para nunca mais cá voltar… Ouviu bem? Para nunca mais cá voltar!
E sem uma palavra o Fidalgo saiu, para nunca mais voltar.

Nessa mesma noite, a morte veio buscar o pobre velho sonhador e, junto do corpo ainda quente, a Galega disse, como se fosse uma oração, à pobre rapariguita que chorava convulsivamente:
— O teu pai já não poderá construir a linda terra que desejava… Mas vais tu construí-la! Daqui em diante serás como minha filha!

E assim aconteceu, diz a lenda recontada de gerações em gerações. A povoação alargou-se, cresceu, embelezou-se, tornou-se importante. As duas mulheres, unidas pelo mesmo ideal, conseguiram transformar o sonho em realidade.
Pequena inicialmente, grande depois, a povoação sempre ficou conhecida, pelos antigos, como a «Terra da Galega». E só mais tarde se transformou, pela inevitável corrupção popular, na Vila da Golegã, actualmente uma das mais típicas e progressivas de todo o Ribatejo.

 

Em: MARQUES, Gentil Lendas de Portugal, Porto, Editorial Universus, 1962 , p.Volume I, pp. 44-49.