Vem correndo de geração em geração que a princesa Fátima, jovem e bela princesa moura, ainda mais bela do que jovem, vivia recolhida no seu palácio (alcácer), em tempos que se perdem na memória do próprio Tempo.

E vivia feliz.

Era a única filha do emir – e tal privilégio dava-lhe direito a ser tratada como um verdadeiro tesouro. Seu pai, temeroso de que a vissem – e maculassem com o seu desejo – os olhos ambiciosos dos cristãos, mandara construir só para ela, uma pequena torre, ricamente mobilada, onde Fátima passava dias e noites, tendo por única companhia a tagarelice das aias.

De todas elas, a jovem e bela Fátima escolhera para confidente a mais velha e experiente. A mais fiel, Cadija de seu nome.

395px-Muslim_woman_in_Yemen.-Steve-EvansCerta tarde, quando o calor do meio do ano se punha, Fátima ficou sozinha com Cadija.

A princesa curiosa, pediu a Canidja que compartilha-se consigo momentos passados fora daquelas paredes. Conversaram durante longas horas, tendo a princesa Fátima já alguma desconfiança aproveitou a ocasião para questionar Canidja se era mesmo verdade que o seu primo Abu a queria para esposa? Pois o seu coração pertencia a Gonçalo Hermingues,  a quem todos conheciam, como guerreiro cristão.

Silenciaram-se durante instantes. Lá de fora, do ar livre e puro, vinha o chilrear das avezinhas.

Depois, Fátima, a jovem e bela princesa, respirou fundo.

Nesse mesmo momento confessou a Canidja, de que vira da sua janela o seu guerreiro passar ontem à tarde, por um caminho que era possível ver da torre. Tenho mesmo a certeza de que era ele, o meu coração não se engana.

Nesse instante, Canidja pegou nas mãos da princesa e relembrou de que esse cristão, era o que o seu pai mais odiava.

Conta a lenda velhinha e a própria história de Portugal, que Gonçalo Hermingues era conhecido entre os companheiros pelo nome de «Traga-Mouros».Forte e destemido, habituado a fazer de cada impulso uma vontade, o moço guerreiro era tido e havido como um dos melhores do seu tempo.

Porém, embora cruel e sanguinário na luta, não perdoando aos que não lhe perdoavam, Gonçalo Hermingues possuía também uma alma de poeta.

Gostava de cavalgar pelos campos, improvisando os seus versos e as suas canções. E foi numa destas cavalgadas que ele descobriu um vulto de encanto em certa torre daquela terra ainda em poder dos Mouros, mas que ficava bem ao alcance dos seus olhos e dos seus desejos de conquista.

Gonçalo Hermingues voltou ao mesmo local, mais do que uma vez. E fosse por acaso, fosse de propósito – ela lá estava sempre, como visão maravilhosa que ia enchendo aos poucos o pensamento do guerreiro-poeta.

Em breve, ele sabia tudo o que lhe interessava a respeito dela. Chamava-se Fátima, era jovem e bela, filha única do emir, que a queria casar com o primo Abu, e vivia recolhida naquela torre, donde raras vezes saía, na companhia das aias.

Mas Gonçalo Hermingues soube também que uma dessas saídas devia estar para breve. Seria na noite da Festa das Luzes, que correspondia à noite de S. João, em pleno mês de Junho.

Então, Gonçalo Hermingues começou a forjar o seu plano. E com os seus companheiros habituais esperou anoite de S. João.

Era algo que se assemelhava a uma cilada como tantas outras que naquele tempo se faziam – mas com uma diferença fundamental era uma cilada de amor…

Tal como mandava a tradição formou-se o cortejo que todos os anos ia em procissão de luzes até às margens do rio, como prelúdio da festa que se prolongaria pela noite dentro.

Fátima, a jovem princesa moura, lá seguia também, fielmente acompanhada pela boa Cadija. Assim saíram pelas portas largas do alcácer, acordando ecos no solo adormecido.

Fátima era conduzida por seu pai; mas sentia ao lado o olhar atento, de seu primo Abu. Foi de súbito, como se a própria noite inundasse a manhã, transformando a claridade em trevas;

Surgiu o mais terrível e odiado de todos os gritos:

«Por Santiago, aos Mouros!»

E logo, saíram correndo um tropel de cavalos vultos e mais vultos de guerreiros cristãos, que caíram impiedosamente sobre o cortejo. Foi nesse mesmo momento que os olhos de Gonçalo Hermingues a descobriram. De um salto, estava junto dela. E sorriu de triunfo.

Nada mais era necessário. Gonçalo Hermingues ergueu o braço e deu ordem de retirada aos seus companheiros. Mas algo aconteceu que Gonçalo Hermingues também não esperava.

Já na retirada, levando consigo a bela princesa, entre outros prisioneiros que desejava oferecer a el- rei D. Afonso Henriques. Foram surpreendidos pelo ataque dos Sarracenos, que se tinham bem reforçado para tirar vingança.

À frente de todos, vinha Abu, o rico e poderoso primo de Fátima.

Para Gonçalo Hermingues, porem só um inimigo existia verdadeiramente: aquele que lhe roubara a bela princesa moura. Não hesitou, caiu sobre o outro, com a violência da sua cólera e com a raiva do seu ciúme.

A luta foi curta. Curta e terrível. Terrível e fatal para o rico e poderoso Abu.

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Diz-se que D. Afonso Henriques felicitou vivamente Gonçalo Hermingues por mais essa brilhante sortida, que tantos e tão bons prisioneiros conseguira. E que lhe perguntou que recompensa desejava ele para a sua magnífica façanha

Enquanto, Gonçalo Hermingues respondeu apenas:

– A honra de vos ter servido, meu rei e senhor, e como lembrança desta jornada, licença para casar com a princesa Fátima.

Dali seguiram a preparar os esposais. E a região onde a princesa Fátima foi viver, durante algum tempo, já esquecida dos seus e enleada por esse novo amor que tão depressa a conquistara – passou a chamar-se, desde então, segundo reza a lenda velhinha, a Terra de Fátima, que mais tarde se transformou apenas em Fátima, nome que conserva ainda e que, por obra divina, é hoje um dos mais belos nomes de todo o mundo.

 

Em: MARQUES, Gentil Lendas de Portugal Porto, Editorial Universus, 1962 , p.Volume I, pp. 3-8.