Com tempestade de chuva, neve ou granizo; com temperaturas glaciais ou calores tórridos; debaixo de fogo ou de tiroteio; contra tudo e apesar de tudo, médicos, enfermeiros, bombeiros, padres e membros da comunicação social, têm de correr em socorro de quem precisa, têm de arriscar tudo para salvar ou informar, que o mesmo é dizer dar o grito de alerta para que outras ajudas venham ou consciências acordem.  Para os que escolheram estas profissões, não há domingos nem feriados, não há garantias de noites de Natal sem perturbação, de dias de aniversários celebrados sem interrupção. Tudo pode acontecer. A tudo é preciso responder presente. Porque escolher estas profissões é escolher servir o próximo, sem distinção de raça, género ou posição social.

Um jornal é um objecto de utilidade pública, duma ponta à outra: desde os telefones para emergências até ao anúncio que nos ajuda a comprar o necessário, passando pela informação, clara e verdadeira, do que se passa no nosso país e no estrangeiro. A opinião que ali se publica, devidamente assinada, é uma sobremesa variada porque variados são os gostos dos que lêem. A parte heroica e nobre é o jornalismo de investigação, esse que vai ao fundo do mal para o esconjurar e alcançar o bem. A maior lição que se tira no jornalismo tem de ser a humildade, o despojamento. Jornalismo que se vende a interesses, é prostituição.

Na última cerimónia dos Oscares, em Holywood, aconteceu a homenagem a este jornalismo, puro e duro, através do grande vencedor da noite, o filme Spotlight. Conta a história do jornalista Mike Rezendes, descendente de uma família de São Miguel, Açores, que se bateu como um leão, aguentou todos os obstáculos e incompreensões, para pôr a nú o escândalo de pedofilia que grassava na diocese de Boston. Entrou pelo Vaticano dentro, abanou os católicos acomodados, e fez-se justiça.

Uma noite destas vi e ouvi, na CNN, a conversa entre o jornalista Anthony Bourdain e uma jornalista mexicana de que, infelizmente, não retive o nome. A conversa teve lugar numa cidade onde quem tudo manda é um dos mais poderosos cartéis da droga com que o México se debate. Na impossibilidade de denunciar tudo ao pormenor, com nomes e factos, através de jornais que foram sendo silenciados, e o número de jornalistas mortos naquele país já vai em 90, a jornalista pôs tudo em livro. Atónito, Bourdain  perguntou-lhe porque é que ela não saía do México. A resposta foi dada com toda a serenidade: escolhi ficar e continuar a investigar, já perdi tudo, não tenho mais nada a perder.

É esta mística, este nervo, esta raiva, este absoluto sentido de servir o povo que vai faltando à morna e monótona comunicação social portuguesa, salvo honrosas excepções.  No entanto, na blogosfera podem encontrar-se jovens de grande coragem e conscientes do que têm feito a Portugal os mercenários da política.