CL 34

 

 

«O esoterismo é uma doutrina segundo a qual o saber deve ser mantido secreto e apenas acessível aos escolhidos, ou uma teoria pela qual nem tudo se ensina a todos, mas apenas a alguns, ou disciplina de todas as escolas que reservam o direito de saber aos iniciados, como no Pitagorismo. Substantivo derivado do adjectivo esotérico, que significa interior, reservado, em oposição a exotérico, que significa exterior, vulgar ou comum.

O adjectivo esotérico acha-se na forma do comparativo relativo, sendo um composto de teros, desinência do grau comparativo: o mais adentro, por contraste com o mais de fora, também dito acroamático. A subjectividade do conceito torna-se menos aleatória quando, utilizando termos da ordenação de um templo, entendemos que o átrio (adro) é exotérico em relação à capela-mór, e que esta é esotérica em relação ao adro, o que tem efectiva analogia com o espaço da sinagoga, em que se consideram o pátio e o santo dos santos, onde se guardam os livros da aliança. A interpretação do saber é possível mediante três graus: o literal, o analógico e o simbólico. Jesus promete explicar aos amigos o sentido interior ou esotérico das parábolas (Lc., 8, 10), apenas para significar que o comum do povo entende à letra, mas que o discípulo deve saber o verdadeiro significado, por exemplo, “ovelha perdida” é o pecador e, o “Bom Pastor”, o mesmo Jesus. Todavia, recusa-se o ocultismo: “nada há encoberto que não venha a descobrir-se, nem oculto que não venha a desocultar-se” (Mt., 10, 26) porque Jesus ensina que tudo deve ser dito à luz do dia, sendo a mensagem para o mundo em que, mediante o seu holocausto, todas as barreiras seriam destruídas, não havendo lugar para a discriminação entre o mestre, que sabe o todo, e o discípulo, que ainda se acha no estado de iniciação. A leitura empírica do substantivo tem sido fonte de equívocos, ou de falácias, na medida em que se tomam como seus sinónimos, outros conceitos que de facto se não identificam com ele.

Na gnose “Filosofia Portuguesa” há, pelo menos, duas vias. Raro se tem prestado atenção às diferenças, mas elas existem e caracterizam duas sequências: a via leonardina, mais afeita à dinâmica criacionista como gnoseologia fundamental, e a via pascoalina, de preferencialidade saudosista, como proposição messiânica. A situação telúrica, ou o telurismo situado de ambas as vias está fora de causa, até por efeito das origens paisagísticas do filósofo e do profeta, mas importa sublinhar que o criacionismo não leva necessariamente ao saudosismo, nem o saudosismo ao criacionismo. São vias de diferente inteligência e de alterada sensibilidade, pelo que, na gnose, nem em todos os autores a ela vinculados, o saudosismo aparece como premissa necessária, ou como vector apodítico. Álvaro Ribeiro teve do saudosismo uma crítica opinião, enquanto ele aparece valorizado como enteléquia messiânica no discurso de José Marinho. E há uma diferença de fundo: embora na aparência filológica idênticos, os termos firmamento e fundamento têm diversa significação. Fundamento liga-se de preferência ao alicerce que está em baixo, ao sus (sustentar, fundamentum) enquanto firmamento se liga primordialmente ao que está em cima, ao templo do contemplo, e, portanto, à ponderação (ponderare). O fundamento leva-nos à imagem do fixismo; o firmamento leva-nos à imagem do mobilismo. Ora, em Junqueiro, a ideia de firmamento prevalece em quase oposição à de fundamento, ou não fosse ele um contemplativo dos altos céus, capaz de elevar as coisas da terra a paradigmas celestes, ou de proceder à transubstanciação eucarística do pão e da luz, no corpo e no fulgor do próprio Cristo. Não é Cristo que é o Mundo; é o Mundo que se torna o corpus Christi, o corpo de Cristo, de onde a justeza de um atributo aferido ao termo “cristocósmico”.»

 

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