CL 02

 

 

«Escrever sobre o que foi, o que é e o que será o problema da filosofia portuguesa constitui tarefa que, paradoxalmente, em nossa terra é tida como inoportuna, sentida como antipática, recebida com ingratidão, mantida num silêncio e numa ignorância que assombra e preocupa o português menos avisado. Efectivamente o problema não mereceu até hoje, desde que foi clara e inequivocamente enunciado em seus termos por Álvaro Ribeiro em 1943, nem a atenção, nem o interesse, nem a meditação dos nossos políticos, professores, eclesiásticos, literatos ou jornalistas. Levados pelo pendor utilitário de um ensino tecnicista, descem o plano inclinado das reformas e contra-reformas, agravando cada vez mais o problema, por entre os brados, gritos e lamentos dos que, incitados por ressentimentos sofridos numa instrução pública que deprime o instruendo, repelem e sacodem a melhor iniciativa de um veraz impulso para uma verdadeira educação portuguesa, com dichotes e sarcasmos irrisórios, acompanhados pelas incompreensões que só não classificaremos de ignaras, porque suas raízes mergulham na terra de má vontade e pelas queixas que denunciam o sofrimento de um povo em crise mental.

Como é do conhecimento das pessoas interessadas, três foram as teses adoptadas por quem interveio no tema discutido. E assim, enquanto certos pensadores afirmaram a existência de filosofia portuguesa e outros partiram da posição contraditória, houve quem aceitasse apenas a existência de filosofia em Portugal. Tanto os primeiros quanto os segundos baseavam seus argumentos sobre a legitimidade ou ilegitimidade do uso da expressão filosofia portuguesa, aceitando uns a possível adjectivação da palavra filosofia, negando outros a adjectivação da palavra filosofia, negando outros a adjectivação da palavra filosofia portuguesa, negando outros a adjectivação da palavra filosofia, negando outros a adjectivação possível. A terceira posição em breve descambaria na pseudo-ciência intitulada História da Filosofia, integrada depois como disciplina nas faculdades de letras do País.

A tese exposta no livro O Problema da Filosofia Portuguesa é porém postulada pela tradição nos domínios
do pensar, viver e sentir portugueses. Latente ou pujante, adormecida ou vibrante, a filosofia portuguesa não
constitui efectivamente problema. A questão crucial, posto que nela se causa o destino da pátria com a tensão
espiritual da sua elite, essa sim é a que provoca a interrogação de como pode haver o reatar da tradição,
do pensar português; e leva a determinar os termos do problema a resolver precisando o que empece e impede,
o que ajuda ou impele, a educação da mente portuguesa. Em suma, o estudo, desenvolvimento e aplicação
da hipótese de que é possível e admissível criar um escol entre nós. Tal a tese do livro de Álvaro Ribeiro
que suscitou a polémica em que, surpreendentemente, por todos os interventores, foi obnubilada, esquecida
ou omitida a palavra problema. O desvio provocado não permitia depois o esclarecimento necessário.

Enunciado como já foi o problema, competirá ao patriota, ao estudioso e ao investigador não discutir se
existe ou não existe filosofar português, se o adjectivo querido cabe ou não ao verbo glorioso, mas desvendar,
investigar e descobrir o que é constante e o que é vário numa tradição que, se teve momentos surdos, teve
também instantes luminosos e significativos, deixou vestígios e rastos como os dos astros que sulcam os
céus. Rompendo por entre o rumorejar da tempestade de opiniões, impávida em seus surtos, constante em
seus saltos, mostra que a perenidade é um dos seus atributos.

Caberá pois, a quem tem interesse em resolver o problema da filosofia portuguesa, situar-se perante os
obstáculos que não permitiram até hoje a criação de um escol entre nós, e dissolver na medida que lhe é possível
as dificuldades e os escolhos que perturbam o nosso ambiente mental.

Não há história da filosofia. A filosofia é uma arte e, como tal, não tem história. Da arte para a técnica
vale a diferença que existe entre a obra e o fabricado, o facto ou o feito. É possível instruir e ensinar aos homens
os artifícios, as técnicas, as ficções e as imitações da arte, mas aprender e educar são verbos que, para
devirem actuais, requerem e propõem uma classificação, exortam e apelam para o aprendiz e para o educando, exigem a ascensão a uma aristocracia, permanente através das idades do mundo.»

 

Mais informações em Fundação LusíadaEnsaios de Filosofia Portuguesa – Dispersos