DIÁSPORA

O que é – como nasce – o que representa

Não devemos confundir “Diáspora” com “Emigração”.

Na verdade são dois conceitos completamente distintos, com origens e significações próprias.

Assim:

EMIGRAÇÃO Deriva da palavra LATINA “emigratio-onis” e significa o acto de emigrar.

Emigrar representa o facto de um ser vivo ou animado mudar de local, região, país ou continente de onde ele é natural (onde nasceu) para outro sítio terrestre, na procura e tentativa de encontrar melhores condições de sobrevivência, de trabalho, de lazer, de vida ou mesmo de clima.

Neste sentido, tanto emigram os homens como os animais, as aves e até os peixes.

Esta é uma emigração natural e voluntária.

Há também a emigração anti-natura, e involuntária, e essa é sempre provocada por fenómenos e atitudes exteriores à vontade do Ser, e pode ser produto de opressões à liberdade individual (criadas por factores familiares, sociais, económicos, políticos, religiosos ou militares, ou ainda, por motivos de graves cataclismos naturais (tremores de terra, tsunamis, vulcânicos, dilúvios, fogos, ciclones, furacões, tornados, etc.).

DIÁSPORA Vem do Grego, e significa – “Dispersão” e fundamentalmente quer exprimir a “dispersão por todo o mundo, de qualquer Povo ou Etnia que é levado a tomar essa atitude e decisão por motivos religiosos, políticos, militares ou culturais, em virtude da perseguição que a esse povo ou etnia é movida por grupos (ou outras etnias e culturas) dominadoras e intolerantes.

É este o caso da Diáspora Judaica

Diáspora ou dispersão pelo mundo de um Povo que fechado sobre si mesmo pretende conservar a pureza da sua religião e dos seus costumes, sendo contrário a qualquer miscigenação com qualquer outros povos ou culturas, não permitindo inclusive que suas filhas casem com homens de outras religiões ou culturas.  Esta é uma Diáspora que é praticada por um grande Povo ou Etnia e que o faz de uma forma dogmática, egocêntrica e elitista.

 

Diáspora pode também conter em si, um significado mais lato, e nesse sentido, a Diáspora pode significar a dispersão por todo o Mundo de vários povos, mas que comungam e praticam a mesma língua, embora conservando os costumes e heranças culturais próprias de cada um deles.

E assim procuram na vivência e no intercâmbio civilizacional com os outros Povos e Culturas, realizarem-se individualmente como  seres humanos peregrinos na Terra, com o sentido pois de cada homem – e como pessoa ou Ser que É – conseguir realizar o sonho de Ser no Estar, sem no Estar Ficar. E ao respeitarem no país dos outros – o viver deles, respeitam-se também a si próprios pois realizam-se integralmente como seres humanos, e embora não vivendo nos seus países de origem, deles sentem muita e contínua “Saudade”.

Neste caso estamos em face de um conjunto de povos  - que têm em comum a mesma língua em que falam, em que pensam, e em que sentem, e que (messianicamente ou não) conseguem através da miscigenação biológico-cromossomática e de uma miscigenação também espiritual (comunhão de ideias e de vivências com os outros que os rodeiam) espalharem pelo mundo fora uma maneira de ser e de estar quotidianamente, praticando uma solidariedade humana constante, que terá como consequência inevitável o estabelecimento da PAZ no Mundo entre os homens de Boa Vontade.

    É este o caso da Diáspora Lusa.

Que é uma Diáspora ou dispersão de um conjunto de povos pelo mundo fora, que usando e praticando sempre a mesma língua – embora assumindo culturas diversas – comunicam os seus valores morais comuns, e comuns costumes ancestrais, junto dos outros povos e países onde passam a viver e com eles também recebem e partilham a cultura própria dos povos e países que os acolhem, sendo só necessário para isso que os valores éticos dos países hospedeiros estejam em consonância com o seu sentir e estar no mundo.

Assim a Diáspora Lusa é extrovertida e aberta, integrando-se completamente numa fraternidade universal, praticando a liberdade corpórea e mental dentro de uma filosofia e conhecimento muito próprio da vida. E tudo isso é contido em uma mesma Língua que tais valores conserva, integra e consagra, e que é comum a vários Povos que nela pensam e nela se expressam.

 

Lisboa, Abril de 2015 – III Congresso da Cidadania Lusófona.

Abel de Lacerda Botelho

 

 

Anexo:

Para demonstração do atrás referido junto se anexam dois poemas sendo um deles do poeta Brasileiro Manuel Bandeira e outro de Fernando Pessoa.


                    

         Poema de Manuel Bandeira
“Estudo da Vida Inteira”

        Intitulado “Portugal meu Avozinho”

Como foi que temperaste,
Portugal meu Avozinho,
Esse gosto misturado
De saudade e de carinho?

Esse gosto misturado
De pele branca e trigueira
Gosto de África e de Europa
Que é o da gente brasileira?

Gosto de samba e de fado,
Portugal, meu avozinho.
Ai Portugal que ensinaste
Ao Brasil o teu carinho.

Tu de um lado, e do outro lado

Nós… No meio o mar profundo…
Mas, por mais fundo que seja,
Somos os dois um só mundo.

Grande mundo de ternura,
Feito de três continentes
Ai mundo de Portugal,
Gente mãe de tantas gentes!

Ai Portugal de Camões,
Do bom trigo e do bom vinho,
Que nos deste, ai avozinho,
Esse gosto misturado
Que é saudade e que é carinho!

 


 

Da “Mensagem” de Fernando Pessoa
                                   I
Extracto do Poema “O Quinto Império”

(Que poderia ser considerado como o
cromossoma genético da Diáspora Lusa)

Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa,
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!

Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raiz-
Ter por vida a sepultura.

Eras sobre eras se somem
No tempo que em eras vem.
Ser descontente é ser homem.
Que as forças cegas se domem
Pela visão que a alma tem.