CL 32

 

 

«Para a esmagadora maioria dos cientistas, o conceito de vida é uma noção incontroversa que abrange, apenas e só, as existências que (à semelhança dos vírus, das bactérias, dos celenterados até aos peixes, das algas até às ervas e às árvores, dos insectos até aos répteis, das aves e dos mamíferos) utilizam àcido nucleicos na transmissão de hereditariedade…

Proteínas como enzimas no controlo da química das respectivas células… Servindo-se todas do mesmo, do mesmíssimo código genético na tradução das informações dos ácidos referidos em correspondentes de proteínas – vectores e actores do prodígio que a vida é.

Porém, do exarado, tem de concluir-se que entre vírus, bactérias, algas, ervas, etc., etc., até aos humanos, há uma unicidade basal; uma irmandade longínqua; uma identidade genesíaca que atesta, garante, que todos, todos aqueles existentes (designados seres-vivos) tiveram uma única, uma só ancestralidade inicial, muito, muito distante.

Por outras metáforas, pois vale a pena insistir: Os seres-vivos, todos os seres-vivos, por verazes descendentes directos da mesmíssima mater e do mesmíssimo pater iniciais (as partículas e os acompanhantes evidenciados em 01.02) são mesmo-mesmo irmãos… Como, curiosamente, muito curiosamente, desde há milénios, todas, todas, todas as religiões vêm doutrinando e postulando, explícita e implicitamente.

Posto isto, uma ideação incómoda, inevitável: uma vez que as partículas e os acompanhantes evidenciados em 01.02 estão igualmente na base dos metais, das rochas, dos planetas, das estrelas, das galáxias e de todos os demais corpos celestes ditos activos e não-activos (os quais, seguramente, não utilizam ácidos nucleicos nem proteínas na regência das respectivas engendrações, seus desenvolvimentos, seus réquies e suas continuidades), os chamados seres-vivos e estes outros (que “vivos” cientificamente não podem ser) quer se queira ou não queira, são mesmo-mesmo, ab origine, irmãos genuínos uns dos outros e entre si…! Quer se queira ou não queira, insisto.

Por outras palavras e mais agreste desnudagem: Nós somos irmãos genuínos de não apenas vírus, bactérias, celenterados, algas, ervas, árvores, peixes, insectos, répteis, aves e todos os mamíferos…, como ainda, e tal-qualmente, dos metais, das rochas e dos planetas, etc., etc., – como também desde há milénios as religiões propriamente ditas, sem discrepâncias fundamentais, continuamente, vêm doutrinando e postulando em milhares e milhares de idiomas, carizes e éticas, que os imperativos das circunstâncias geoclimáticas e idiossincráticas lhes foram determinando.»

 

Mais informações em Fundação Lusíada: De Religiões – Na Pista do Livro Terceiro de António Damásio