Considerandos sobre o Milagre de Ourique,  o juramento de D. Afonso Henriques e sua Influência na Geo-política  dos descobrimentos Portugueses

 

Palestra proferida na Sociedade de Geografia de Lisboa
e integrada no ciclo de conferências sobre
“A Geopolítica dos Descobrimentos Portugueses”

Novembro – 1999
LISBOA

 É minha intenção, nesta pequena Palestra, chamar a atenção para o facto histórico, de que o Fenómeno dos Descobrimentos Portugueses não foi “UM ACASO” “UMA COINCIDÊNCIA temporal e espacial esporádica”; e “desgarrada” de todo um contexto; uma Exigência Económica enquadrada numa época medieval, fruto da ganância e da exploração do homem pelo homem.

NÃO

Toda a Geo-Política dos Descobrimentos Portugueses teve um começo, um meio e um fim, perfeita e voluntariamente pensada, arquitectada, trabalhada e consciente e ardentemente desejada, executada e conseguida. E os seus Arquitectos e Autores, e futuros Executores, todos comungaram da mesma Ideia, todos a Assumiram, e nos seus respectivos lugares e cargos a souberam pôr em prática.

E como nada melhor há para provar factos históricos, que dar VOZ à própria História, é por Ela que começa esta minha palestra.

Dê-mos então a palavra à História na voz do nosso Cronista – Duarte Galvão, ao próprio D. Afonso Henriques, e também ao nosso querido e sublime poeta Luís Vaz de Camões.

Depois será só necessário verificarmos – se após oitocentos e cinquenta anos de História continua ainda a existir ou não, a Paideia Portuguesa, e se realmente a História foi bem contada, assimilada, executada e cumprida.

CAPÍTULO I

O que os Campos de Ourique presenciaram
na véspera e dia de Santiago no Ano da Graça de 1139

Realmente Portugal como “Reino” unindo povos diferentes, com um só Rei, e Independente e Autónomo dos outros Povos – e Reis – que circundam um Território geograficamente delimitado – Nasce em 1139 Num Grito – e SOM – Unânime – dos guerreiros – combatentes, que em Terras de Além-do-Tejo, ACLAMAM o Príncipe – D. Afonso Henriques, como REI DE PORTUGAL, na Batalha de OURIQUE, tendo como testemunhas os 5 Reis Mouros e suas Gentes:

“REAL, REAL, POR AFONSO REI DE PORTUGAL”

Não é nossa intenção discutir aqui e agora, a veracidade e profundidade do “Milagre de Ourique”, e muito menos a veracidade ou não da Visão de Cristo que Afonso Henriques disse ter tido nessa Madrugada luminosa.

O que é um facto Indesmentivel e Provado, não só documentalmente, como pelos comentários dos cronistas históricos, é que Afonso Henriques na noite da véspera da Batalha, deitou-se como Conde, e iniciou a Batalha como Rei no dia seguinte, aplaudido e “Aclamado” pelas suas gentes, pelos seus “Cavaleiros” e pela sua “arraia miúda”, e ANTES da peleja se ter dado.

-          Que metamorfose se terá operado nessa noite e nessa Madrugada?

-          O que se terá passado na “Mente” e no “Discernimento de Afonso Henriques”?

-          E dos seus Vassalos – Cavaleiros e Conselheiros?

-          E da sua “arraia-miúda” que o seguia?

-          Por “Obra” de quem? E Como? é que tal facto se operou?

O Cronista Oficial dos factos havidos – Duarte Galvão – escreveu dizendo:

(Inserem-se aqui alguns extractos (e em versão de português actual) da Crónica de El-Rei D. Afonso Henriques escrita pelo Cronista Duarte Galvão)

 

Como o príncipe D. Afonso, passado o Tejo, foi buscar El- Rei Ismar que com quatro outros Reis, e infinita mourama vinha contra ele, e como assentaram seus arraiais um em frente do outro:

“E partindo daquele lugar onde D. Egas se finou, passou o Tejo e as charnecas muito grandes e despovoadas e começou de fazer grande guerra aos mouros, correndo-lhe a terra e tomando villas e lugares. Do que tanto El Rei Ismar teve notícia, mandou então ajuntar toda a Mourama dos Algarves e de outras partes arredores.

Assim El Rei Ismar conseguiu reunir tanta gente para o ajudar, mouros de aquém e de alem mar, e outras gentes barbaras, que era infinda a multidão deles, em tanta desigualdade com os Christãos, que se dá por certo serem pouco menos de cem mouros por cada um dos Christãos, e entre os mouros vieram mais quatro reis e vinham com essa gente mulheres “vezadas” (com viseiras) e que pelejaram como as amazonas, o que foi sabido e provado depois, pelas mortes que se acharam no campo.

 

O Príncipe D. Afonso chegou a um lugar que agora se chama Cabeças de Rei junto a Castro Verde onde havia uma Ermida, e um Ermitão, e isto por volta da hora Sexta.

Ali se viram ambas as hostes: e o Príncipe Dom Afonso e El Rei Ismar assentaram seus Arraiais, um à vista do outro em véspera de Santiago (24 de Julho) do ano de Nosso Senhor de mil cento e trinta e nove”.

Para se compreender então, o que se terá passado, melhor é continuar a transcrever a crónica de Duarte Galvão que reza assim:

Como os Portugueses, visto a multidão dos mouros, requereram ao Príncipe Dom Afonso que “escusasse” a batalha, e da “Falla” que então o Príncipe sobre isso fez (disse)

“E os Christãos que estavam com o Príncipe, vendo a grande multidão dos mouros sem conta, começaram a pôr em dúvida se se devia dar a batalha ou não, em virtude da grande desigualdade de número que havia entre eles e os mouros”.

“- Vede bem a multidão de gente que o rei Ismar traz consigo, e reparai na tão pouca que está convosco, pois pelejar contra ele será cousa de fora de toda a razão, e mais parece tentar a Deus do que “sendo valentia”.

Nem se deve ter tal vontade (de pelejar e dar batalha) como serviço de Deus, antes pelo seu “desserviço” e pôr assim em tamanha aventura e risco, em uma só Hora o Senhorio de Portugal, ganho em tantos e muitos dias e anos!.

Então, pareceu a Dom Afonso, que era necessário fazer a todos ali presentes, uma falla.

Mandou-os “ajuntar” e assim começou:

“Meus bons vassalos e amigos, muito vos deve lembrar a intenção e desejo com que partimos de Coimbra, para servir a Deus e pugnar por sua Santa Fé, contra estes seus inimigos e nossos. E estando nós agora na vista dos que vimos buscar, seria grande mágoa não pelejar, e mais que não pelejar se fugíssemos da batalha, o que Deus e as nossas vontades tão cerca nos trouxeram. Porque então, o nosso recolhimento não poderia deixar de parecer uma fuga.

 

“Deus, por sua piedade, nunca abriu mão dos que nele confiam e esperam, nem para dar a vitória a quem lhe apraz, tem importância ou pode haver mais ou menos gente.

Lembremo-nos de quantas vezes e em tantos lugares pelejaram os nossos antepassados, com estes inimigos da fé, e os venceram, sendo poucos ou muitos.

Pois não será agora, menos poderosa a Mão do Senhor Deus, para nos ajudar contra El Rei Ismar, do que foi nos tempos passados para ajudar a eles, assim como aconteceu com muitos outros príncipes e senhores cristãos em casos semelhantes.

E tanto mais desvantagens de nossos inimigos deve ser nossos coração e esforço, quanto nós temos mais justas causas e razão de pelejar que eles.

Nós combatemos por DEUS, pela FÉ, pela VERDADE. Esses arrenegados que vedes á vossa frente, pelejam contra DEUS e pela falsidade.

Nós combatemos pela Nossa terra, eles por nos quererem dela tirar.

Nós pelo sangue e vingança de nossos antecessores, eles por ainda quererem verter cruelmente o nosso.

Nós combatemos por nosso Pais, nossas pessoas, nossas mulheres e filhos e liberdade de todos nós, eles pelejam por nos pôr todos no cativeiro.

A terra que hoje em dia eles têm e possuem em África e em Espanha, nossa já foi e a Christãos – por nossos pecados – eles a tomaram, e agora que DEUS quer que a retomamos, não desfaleçamos a vontade de DEUS para tamanho BEM para nós.

Pelejemos pois por ELE (DEUS) e por nós. Peleja em que mataremos seguros de nenhuma culpa praticar, e morreremos mais seguros do galardão.

Matando, ganharemos terra e honras temporais. Morrendo ganharemos o Céu e a Glória Eterna.

Matando, tolhemos a vida aos nossos inimigos, morrendo damo-la a nós para sempre.

E a quem se deve mais nossa vida, senão a Deus que a deu a nós, nem nosso sangue senão a Cristo, que primeiro deu o dele por nós, nem que coisa poderemos fazer por Ele neste mundo, que Muito e Mais; primeiro Ele já não fez por Nós?

Ele, sendo Filho de Deus, se baixou a nascer homem para nos fazer filhos de Deus,

E nós filhos de homens, por Ele nada faremos para que filhos de Deus pareçamos?

Ele padeceu por nós sozinho, NU, despido e sem qualquer galardão, e nós cobertos de armas e acompanhados, e com galardão muito maior do que merecemos, receamos lutar por quem assim morreu por nós?

Para quê nos fez então DEUS?

Para quê teve Ele tão grande amor por nós, que para redimir tão ingratos servos deu o seu próprio Filho, por nós e feito isso tudo só por Nós e para Nós?

Certo não é de homens, nem de cavalheiros e muito menos de Cristãos, termos receio de trabalhos que nos dá tanta glória.

Por isso, meus bons Cavaleiros, tenhamos muita FÉ, muita Esperança em Nosso Senhor: o dia de amanhã em que com a sua Graça venceremos a Batalha será de tanto prazer e alegria para nós e nos apresenta tanta Glória e Honra para o outro Mundo e para Este, que pensando nesse prémio, fazemos somente o trabalho.

Ide-vos agora todos embora repousar, e esperai com muito prazer e calma o dia de amanhã.

Logo que amanhecer, iremos logo, com a Graça de Deus, fazer aquilo que aqui viemos para fazer, porque DEUS há-de ser connosco, como sempre Ele foi com os seus.

Quando os portugueses ouviram tais palavras, com tanto e tão confiado esforço do Príncipe, ficaram todos com força e animados, cheios no seu coração para servir a Deus e a Ele naquela batalha que parecia ser trespassado em cada um, o mesmo esforço que no Príncipe viram.

E naquela noite, Nosso Senhor apareceu ao Príncipe Dom Afonso Henriques, posto na cruz como padeceu por nós.

“… E quando foi “huua meia hora” antes da manhã, tocou a campainha como o Ermitão dissera ao Príncipe, e este saiu fora da sua tenda – e segundo ele mesmo o disse e deu testemunho em sua história, VIU NOSSO SENHOR NA CRUZ na maneira que o Ermitão lhe dissera, e Adoraram-o muy devotamente com lágrimas de grão prazer, e então o Príncipe falou ao Senhor da Cruz dizendo “Senhor, aos herejes, aos herejes faz menção de apareceres, porque eu sem nenhuma dúvida já creio e espero em ti firmemente”.

Logo que a visão de Nosso Senhor desapareceu, o príncipe muito cheio de prazer e força veio para a sua tenda e vestiu sua armadura, mandando tocar as trombetas, atarifes e anafis de tal modo que todo o Arraial foi alevantado e começaram de se confessar, ouvir missa e comungar, encomendando-se todos a Deus com grande devoção e alegria.

Então o Príncipe dividiu as suas gentes em quatro alas (ou azes). No primeiro da frente e no da retaguarda meteu trezentos de cavallo e três mil homens de pé em cada uma dessas allas, e nas duas alllas (ou azes) laterais, meteu duzentos  de cavallo e dois mil homens a pé, perfazendo ao todo dez mil homens de pé e mil de cavallo.

Então Pero Paez Gonçalves, Lourenço Viegas, Gonçallo de Sousa, Mem Moniz e Martim Moniz cercaram-se do Príncipe e disseram-lhe:

Nós vimos a Vós, para que nos façais uma Mercê, a qual será de grande bem e honra aos que aqui viverem, e aos que morrerem e a todos de sua geração. O Príncipe diz-lhe então que não haveria cousa que em seu poder não fosse de fazer, que de boa vontade lhas fazia.

Então os cavaleiros disseram:

“Senhor, o que toda esta gente nos pede, é que vos consentais, que vos façam REI e assim haverá mais força para lutar!”. Afonso Henriques então respondeu:

“Não me quero chamar de REI, nem sê-lo, mas como Vosso Irmão e Companheiro, vos ajudarei com o meu corpo contra estes infiéis inimigos da fé, quanto mais o que dizeis não é aqui o lugar e a hora a mais conveniente, pois o Senhor Jesus Cristo por cuja Fé estamos aqui juntos e prestes a pelejar e a verter o nosso sangue por Ele, como Ele por nós fez, só Ele será nosso Rei e Senhor e nos ajudará contra estes inimigos e os dará vencidos em nossas mãos, e o preciosos Apóstolo Santiago – cujo dia é hoje – será nosso Capitão e “valledor” nesta batalha”.

Responderam os cavaleiros todos: “…. a Deus que assim seja, mas é muito necessário que vos alcemos por Rei, e não deve ser uma só vontade, a Vossa, a contrariar a vontade de todos nós, que tanto isso pedimos e desejamos.

Então, um SOM ÚNICO, um grito total se ouviu no Arraial Christão:

Real. Real, por EL REY, Dom Afonso de Portugal

 

CAPÍTULO II 

O JURAMENTO DE DOM AFONSO HENRIQUES

A verdade também, é que o Novo Rei, mais tarde fez constar de seu Juramento, a Visão que teve e na qual falou a Jesus Cristo e dele ouviu:

“Vi de repente no próprio raio, o sinal da Cruz, mais resplandecente que o  Sol, e a Jesus Cristo crucificado nela; e de uma e outra banda, grande cópia de esplendidos mancebos os quais creio eu que seriam os Santos Anjos. Vendo pois esta visão, pondo de parte o escudo e a espada, e tirando as roupas e calçado, me lancei de bruços na terra. E desfeito em lágrimas comecei a rogar esforço de meus vassalos, e disse sem nenhum temor:

A que fins me apareceis, Senhor? Quereis porventura acrescentar a FÉ  a quem tem tanta?

Melhor será, que vos vejam os Infiéis e creiam, que eu, desde a fonte do Baptismo Vos reconheço por verdadeiro DEOS, Filho da Virgem e do Padre Eterno

E a Cruz era muito grande e estava levantada do chão quase dez covados. O Senhor com um tom de voz suave, que minhas orelhas indignas ouviram, me disse:

“NÃO TE apareci desta maneira para te acrescentar tua FÉ, mas para fortificar teu coração neste conflito e estabelecer os princípios de teu Reino sobre pedra firme. Confia, Afonso, porque não só vencereis esta batalha, mas todas as outras, em que pelejares contra os inimigos de minha cruz.

Acharás tua gente alegre, e esforçada para a peleja e te pedirá que entres na batalha com título de Rei. Não lhes ponhas dúvida, mas tudo quanto te pedirem lhe concede facilmente. Porque EU SOU o Fundador e Destruidor de Reinos e Impérios, e quero em Ti e teus descendentes fundar para mim um Império, por cujo meio seja meu Nome publicado entre as Nações mais estranhas. E para que teus sucessores conheçam quem lhe deu o Reino, comporás o Escudo de tuas Armas, do preço com que eu remi o  género Humano e daquele por que fui comprado dos Judeus.

E será reino para mim santificado, puro por Fé e amado por piedade”. Eu tanto que ouvi estas coisas, prostrado por terra, o adorei, dizendo: Por que merecimentos, Senhor, me fazeis tão grande mercê? Tudo o que me mandais farei. Ponde pois vossos benignos olhos nos Sucessores, que me prometeis, e tende em vossa guarda a Gente Portuguesa. E se acontecer que tenhais contra ela algum castigo aparelhado, executai-o antes em mim e  em meus Sucessores e livrai este Povo, que amo como a único filho. Consentindo nisto o Senhor, disse: Não se apartará deles, nem de ti nunca a minha misericórdia, porque por sua vida tenho aparelhadas grandes searas, e a eles escolhidos por meus segadores em terras mui remotas. Ditas estas palavras, desapareceu: então cheio de confiança, e gosto tornei para o arraial; e Eu Afonso, rei, juro pelos Santíssimos Evangelhos de Jesus Cristo, tocados com estas mãos, que isto assim passou na verdade. Por tanto mando a meus Sucessores, que ao diante hão-de ser, que em honra da Cruz, e Cinco Chagas de Jesus Cristo, tragam por Brasão de armas cinco escudos, feito em Cruz e em cada escudo trinta dinheiros e em cima a Serpente de Moisés, por ser figura de Cristo e este seja o nosso trofeu Memorial em nossa geração. E se alguém inventar o contrário, seja maldito do senhor e atormentado no Inferno com Judas traidor.

Foi feita a presente carta em Coimbra aos vinte e nove de Outubro, Era de mil cento e cinquenta e dois.

E a partir daí, a Aliança entre o Rei (e os portugueses) com Deus está feita:

E por isso, os guerreiros e Povo presente em Ourique o Aclamou imediatamente de Rei e “Senhor”, pois aquele Povo, naquele lugar e data, comungou plena e totalmente com a Ideia de Afonso Henriques, e a vontade deste com a daqueles.

O Pacto estava celebrado não só entre os Presentes, como entre Deus e as futuras gerações dos portugueses ali presentes.

A Portugalidade, e  a Descendência Real, jamais deixaria de perdurar pelos séculos, desde que o Santo Nome de Deus, fosse Respeitado, Venerado, Santificado e levado a todas as partes do Mundo (pelos Portugueses).

Estava inclusive decretado a partir dali, a Geo-Política da Expansão marítimo-terrestre dos Portugueses.

           Era preciso levar o “Santo Nome de Deus” a ser conhecido e venerado por todos os outros povos, quer conhecidos, quer desconhecidos.

E a partir dali, outro Povo Místico e com um Só Deus, surgia, Não como o Judeu – Povo Escolhido, mas como profetizara S. Pedro: um Povo Adquirido por Deus (Carta de S. Pedro I Ped. 2, 9 e 10).

E a mensagem aberta ao Povo, e ao mesmo tempo “oculta” e “secreta” porque Sacra, do Nascimento e Objectivo de uma Nação que então surgia, era preciso “Guardá-la” e “Transmiti-la” de Geração em Geração, para que nenhum português a olvidasse – ou profanasse, ou sequer deixasse de a Respeitar e pôr em prática.

POR ISSO

TAL MENSAGEM TINHA DE SER GRAVADA NOS SÍMBOLOS NACIONAIS, isto é: NA BANDEIRA, NA MOEDA, NA CHANCELA REAL, NO HINO, E NA LÍNGUA.

 

CAPÍTULO III

 O CARÁCTER RELIGIOSO  DE DOM AFONSO HENRIQUES

A criança que Egas Moniz e sua Mulher instruíram e educaram em Terras de Cárquere, nas cercanias de Lamêgo, em Terras do Douro, guardadas e protegidas pelo MARÃO e que mais tarde é o Reino de Portugal – teve desde tenra idade o contacto directo – e talvez único – com a Doutrina Cristã por um lado, e com a Cultura e Valores Civilizacionais Celtas por outro.

Afonso Henriques, assim como os filhos de Egas Moniz seus irmãos de criação, ávidos como todas as crianças de histórias e contos de lendas e de mitos, antes de atingirem 6 anos de idade, já sabiam de cor, todo o Antigo e Novo Testamento, que seus Amos-Pais, todos os dias lhes contavam.

 

Diz-nos o Cronista como Dom Egas Moniz criou Dom Afonso Henriques e como este foi são por milagre de Nossa Senhora, do aleijão das pernas com que nasceu.

Expressamente ele diz:

“O seu nascimento foi no ano de Nosso Senhor de 1094. Tanto que Dom Egas Moniz soube que a Rainha parira, cavalgou à pressa e foi-se a Guimarães, onde o Conde Dom  Henrique estava, e pediu-lhe por mercê que lhe desse o filho que lhe nascera, para o haver de criar, como lhe tinha prometido. O conde lhe respondeu que não quisesse tomar tal encargo, porque o filho que Deus lhe dera, nascera por seus pecados TOLHIDO, de maneira que todos sabiam que não curaria, nem serviria para homem.

Dom Egas Moniz quando isto ouviu pesou-lhe muito e disse:

“Senhor, antes cuide eu dele, pelos muitos pecados que cometi, pois a DEUS aprouve de tal ser minha ventura, dai-me pois vosso filho, mesmo que aleijado esteja”. E o Conde, posto que tivesse grande dor, mas pelo bem que a Dom Egas Moniz queria, o encarregou de semelhante criação, e apesar do aleijão da criança, contudo lho entregou.

E quando D. Egas viu a criatura tão formosa e com tal aleijão, teve muito dó dela, e confiando em DEUS que lhe poderia dar saúde, a tomou e fez criar, não com menos ardor e cuidado como se fora muito SÃ.

A seguir o Cronista conta como Nossa Senhora -  VIRGEM MARIA – apareceu em sonho a D. Egas Moniz, para que ele se levantasse e fosse a tal sítio, cavasse a terra e logo encontraria uma Igreja e altar (que estava enterrado) e ali pusesse a criança.

“e mandando aí cavar, achou aquela Igreja e Imagem, e logo que o menino foi posto sobre o seu altar, ficou logo curado e são das pernas e de todo o aleijão, como se nunca nada dele tivera. Vendo D. Egas este grande Milagre, deu muitos louvores a Deus e à Senhora Sua MÃE, criando e guardando daí em diante, COM MUITO MAIOR CUIDADO  o menino de quem foi sempre AIO até que seu Pai morreu em ESTORGA.

Claro que  QUEM nunca esqueceu tal Milagre foi o próprio D. Afonso Henriques, pois com 5 anos e meio de idade, tal facto ter-lhe-á ficado gravado na memória até à morte.

Quem é que se sentindo firmemente robusto e adolescente forte – após ter sido tolhido das pernas (que nem para homem servia, como dissera seu Pai à nascença) – não havia de venerar e ADORAR, e diariamente, a MADRE de Deus que o curara?

- Se acrescentar-mos a esse sentimento de gratidão próprio e sincero, toda a instrução cristã já referida e ainda o estar a ser “ensinado para Rei ser”, não há-de ter a veleidade de se armar a Si próprio Cavaleiro, no dia de São Tiago – 25 de Julho de 1125 na Catedral de Zamora, após vigília de 3 Dias e 3 Noites??

Este era pois, “Aquele Zeloso a quem Deus ama” (Camões, Canto VIII, estrofe 11).

Ele que era Neto de Dois Reis Cristianíssimos, do Rei da Hungria por parte de seu Pai, e do Rei de Leão e Castela por parte de sua Mãe, vivia pois em constante ardor e amor por Deus e por sua Santa MADRE.

O pior que qualquer cidadão medieval e do seu tempo lhe poderia fazer, não era o de lhe tirarem seu Condado, ou bens patrimoniais. O pior que lhe poderiam fazer, foi o que o Papa lhe fez: Excomungá-lo por ele não “devolver” o Condado a sua Mãe Teresa e considerá-lo Herege, por ele ter feito e nomeado como Bispo de Coimbra, um simples padre.

Por isso, devemos analisar, e em profundidade o facto de a Igreja de Roma – o Papado – motivada por meras causas temporais e políticos (pretendia que D. Afonso Henriques devolvesse o Reino a sua Mãe (que aliás continuava presa no Castelo de Lanhoso) e para isso usava a espiritualidade para conseguir tais fins, e assim chantageou Afonso Henriques com a excomunhão, considerando-o mesmo um herege, a quem devia ser ensinada a “doutrina cristã”.

E assim, um segundo Dignatário da Igreja, um Cardeal, veio de novo de Roma a Portugal.

“E vindo o Cardeal perto de Coimbra onde o Rei estava, vieram alguns fidalgos a El-Rei e disseram-lhe:

Senhor – aqui vos vem um Cardeal de Roma por estares em “desprazer” e “descontentamento” do Papa por aquele Bispo que fizeste”.

Disse El-Rei – “Ainda não me arrependo”.

Estas palavras soube o Cardeal em chegando a Coimbra e ficou com muito receio.

El-Rei não quis sair fora e receber o cardeal, e portanto este quando chegou foi logo direito a Alcáçova onde o Rei pernoitava. Ali o recebeu o Rei muito bem e disse-lhe:

“Pois Cardeal, a que vistes a esta Terra, e que riquezas me trazes de Roma para estas ostes, que tão a miúdo faço de dia e de noite contra os Mouros?

Dom Cardeal amigo, se Vós por ventura me trazeis algo para me dar, dai-mo então. E se não trazeis nada, tornai-vos para onde vieste.

Senhor, disse o Cardeal, eu sou vindo a Vós da parte do Santo Padre para Vos ensinar a Fé Cristã”.

Respondeu-lhe então El-Rei.

“Certo na verdade, nós temos tão bons livros de Fé nesta terra, como os há em Roma, e portanto bem sabemos como o Filho de Deus encarnou na Virgem Maria e dela nasceu e isto por obra do Espírito Santo, e Ele morreu na Cruz para redimir a geração humana e desceu aos infernos ao terceiro dia e Ressuscitou que nenhum mortal, e que o PAI, e o FILHO e o  ESPÍRITO SANTO, são três PESSOAS realmente repartidas em Uma Só ESSENCIA. E esta Fé temos e nela cremos firmemente, tão bem como Vós lá em Roma.

Pelo que não temos necessidade de ouvir de Vós outra doutrina nem ensino.

Mas demos por agora esta fala, e amanhã, se Deus quiser, eu e Vós falaremos”.

A fala de D. Afonso Henriques é integralmente a recitação do CREDO e a CRENÇA na  SANTÍSSIMA TRINDADE.

A lição e ensinamento da Fé Cristã deu-a El-Rei ao Cardeal, e não o Cardeal àquele.

E foi lição rápida e total.

O Cardeal pois nem sequer foi descansar ou dormir, e pelo contrário logo mandou pôr cevada às bestas e logo que foi meia-noite, mandou chamar todos os Clérigos da cidade e

“Excomungou a cidade e todo o Reino, e cavalgou e foi de fugida pois antes de amanhecer já tinha andado duas léguas.

Quer dizer: Roma mais uma vez, cedendo à política, à intriga e inveja humana, e no meio das trevas, chantageava de novo o nosso primeiro Rei.

O que é que faria nessa circunstância qualquer cidadão cristão?

E o que é que fez “Aquele Zeloso a quem DEUS amou”?

Pois bem, ao amanhecer, e quando o Rei perguntou pelo Cardeal, responderam-lhe:

“Senhor, muito antes de ser manhã ele se foi daqui, e deixou Excomungado a Vós e a toda a Vossa Terra”.

Afonso Henriques não quis ouvir mais nada, mandou que lhe aparelhassem a sua ginete, cingiu a espada e cavalgou a grande pressa sem esperar por ninguém. E foi alcançar o Cardeal num lugar que se chama Vimeiro, para os lados de Poiares, no caminho das Beiras. E mal se chegou a ele, lançou-lhe a mão ao “cabeção” e com a outra tirou a espada e alçando o braço com ela disse:

“Dá a cabeça traidor”, querendo-lha cortar. Nisto chegaram quatro cavaleiros que lhe disseram:

“Senhor, por mercê não queirais tal fazer, porque se matais este Cardeal, julgarão todos em Roma que sois herege”.

Disse então El-Rei:

“Por essas palavras que agora dissestes, Vós lhes deste a cabeça”.

Mas acrescentou o Rei

“Dom Cardeal, ou Vós desfazeis quanto fizestes, ou cá vos ficará a cabeça”

É claro, que nesta situação, o materialismo de Roma personalizado no Cardeal cheio de medo da morte, fê-lo logo entrar em “diálogo democrático” dizendo:

“Senhor, não me façais mal, e toda a cousa que Vós quiserdes, eu a farei de boa mente”

 

E o Rei respondeu-lhe:

“O que eu quero que Vós façais é que descomungardes o que excomungaste, e que não leveis daqui ouro, nem prata, nem bestas, senão três para vos abastecerdes. E mais: que me envieis de Roma uma carta, na qual se confirme que Nunca Eu, ou Portugal em meus dias seja excomungado, porque eu, o ganhei com esta minha espada. E Vós deixareis aqui este vosso sobrinho, filho de vossa Irmã, até que a carta venha. E se ela (carta) até quatro meses aqui não for, eu lhe cortarei a cabeça”.

Quer dizer, Afonso Henriques, rápido aprendeu a lição do Cardeal, a lição de Roma. Isto é, não a lição sobre  a Fé e doutrina Cristã, que essa foi Dom Afonso Henriques o Primeiro a ensinar áqueles,

mas a lição da chantagem e da pressão psicológica.

Não há dúvida pois, que Afonso Henriques além de ser Cavaleiro corajoso e exímio, era também um Aluno Atento.

Mas há mais factos a Ter em conta neste pequeno episódio

Isto acabado, (continua o Cronista) antes que o Cardeal partisse, tirou El-Rei a capa até à pele, e despiu-se todo, e mostrou assim muitos sinais de feridas e cicatrizes que tinha pelo corpo e disse:

“Cardeal, como eu sou herege, bem se mostra por estes sinais que eu tenho: esta foi em tal peleja, e esta em tal cidade e esta em tal vila que eu tomei – TODAS POR SERVIÇO DE DEUS, contra os inimigos de nossa Fé.

Então eu que combati por CRISTO é que seu o herege, e ele (o Papa) que só está sentado na cadeira é que é o Apóstolo do Redentor”?

Assim, Afonso Henrique, assume-se mesmo como um dos Discípulo de Jesus Cristo.

O tal “Zeloso a quem DEUS ama”.

É claro que antes de decorrerem os tais 4 meses, o Papa enviou a carta de Roma a Descomungar o Rei e Portugal.

E para obter tal, não só o episódio atrás descrito foi preponderante, como o foi a intervenção que o Tio Avô  de Afonso Henriques – S. Bernardo – fez junto do Papa em Roma, após ter sido solicitado para isso pelo próprio Afonso Henriques, que mandara a Clarival entregar ao Santo uma carta que foi

transportada pelo seu irmão bastardo.

E Afonso Henriques, sempre bem soube prestar gratidão a tais esforços de S. Bernardo, que durante toda a vida dele, e de seus sucessores, e durante 110 anos ininterruptamente, a tença de 400 Maravedis em Ouro sempre foram religiosamente entregues no Mosteior de Clarival provenientes da Coroa portuguesa.

 

CAPÍTULO IV 

OS  LUSÍADAS E O MILAGRE DE OURIQUE

Não admira pois, que o Herói português, mais cantado por Camões nos Lusíadas, seja Afonso Henriques, a quem dedicou no Canto III – nada menos e nada mais que 57 estrofes – isto é 466 versos, dos quais 13 Estrofes (104 versos) foram dedicadas à narração da Batalha e do Milagre de Ourique.

Não podemos pois, deixar de aqui referir e reproduzir, esses versos magistrais.

 

Canto I

2

“E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando”

6

“E Vós, ó bem-nascida segurança
Da lusitana antiga liberdade
E não menos certíssima esperança
De aumento da pequena Cristandade”

7

“Vós, tenro e novo ramo florescente
De ua árvore de Cristo mais amada
Que nenhuma nascida no Ocidente,
Cesárea ou Cristianíssima chamada
Vede-o no vosso escudo, que presente
Vos mostra a vitória já passada
Na qual vos deu por armas e deixou
As que Ele para si na Cruz tomou”.

13

“Vede o primeiro Afonso, cuja lança
Escura faz qualquer estranha glória”

Canto III

- Conde D. Henrique – Estrofe 27
- Afonso Henriques – 57 estrofes (de 28 a 84) = 466 versos
- Batalha de Ourique – 13 estrofes (de 42 a 54) = 104 versos

Canto III

42

“Mas já o Príncipe Afonso aparelhava
O Lusitano exército ditoso
Contra o Mouro que as terras habitava
Dalém do claro Tejo deleitoso;
Já no campo de Ourique se assentava
O arraial soberbo e belicoso
Defronte do inimigo Sarraceno,
Posto que em força e gente tão pequeno.”

43

“En nenhua outra cousa confiada
Senão no sumo Deus que o Céu regia,
Que tão pouco era o povo bautizado,
Que, pêra um só, cem Mouros haveria
Julga quaisquer juízo sossegado
Por mais temeridade que ousadia
Cometer um tamanho ajuntamento
Que pêra um cavaleiro houvesse cento”.

44

“Cinco Reis Mouros são os inimigos,
Dos quais o principal Ismar se chama,
Todos exprimentados nos perigos
Da guerra, onde se alcança a ilustre fama.
Seguem guerreiras damas seus amigos,
Imitando a formosa e forte dama,
De quem tanto os Troianos se ajudaram,
E as que o Termodonte já gostaram.”

45

“A matutina luz serena e fria,
As estrelas do Pólo já apartava,
Quando na Cruz o Filho de Maria,
Amostrando-se a Afonso, o animava.
Ele, adorando quem lhe aparecia,
Na Fé todo inflamado assim gritava:
- “Aos infiéis, Senhor, aos infiéis,
E não a mim, que creio o que podeis!”

46

“Com tal milagre os ânimos da gente
Portuguesa inflamados, levantavam
Por seu Rei natural este excelente
Príncipe, que do peito tanto amavam;
E diante do exército potente
Dos imigos, gritando o céu tocavam,
Dizendo em alta voz: — “Real, real,
Por Afonso alto Rei de Portugal!”

53

“Já fica vencedor o Lusitano,

Recolhendo os troféus e presa rica;
Desbaratado e roto o Mauro Hispano,
Três dias o grão Rei no campo fica.
Aqui pinta no branco escudo ufano,
Que agora esta vitória certifica,
Cinco escudos azuis esclarecidos,
Em sinal destes cinco Reis vencidos.”

54

“E nestes cinco escudos pinta os trinta
Dinheiros por que Deus fora vendido,
Escrevendo a memória em vária tinta,
Daquele de quem foi favorecido.
Em cada uni dos cinco, cinco pinta,
Porque assim fica o número cumprido,
Contando duas vezes o do meio,
Dos cinco azuis, que em cruz pintando veio”.

Canto VII

3

Vós, Portugueses, poucos quanto fortes,
Que o fraco poder vosso não pesais;
Vós, que, à custa de vossas várias mortes,
A lei da vida eterna dilatais:
Assi do Céu deitadas são as sortes
Que vós, por muito poucos que sejais,
Muito façais na santa Cristandade.
Que tanto, ó Cristo, exaltas a humildade!”

“Mas entanto que cegos e sedentos
Andais de vosso sangue, ó gente insana,
Não faltarão cristãos atrevimentos
Nesta pequena casa lusitana.
De África tem marítimos assentos;
Na quarta parte nova os campo ara,
É, se mais mundo houvera, lá chegara”.

Canto VIII

10

«- Quem é, me dize, estoutro que me espanta -.
Pergunta o Malabar maravilhado -
Que tantos esquadrões, que gente tanta,
Com tão pouca, tem roto e destroçado?
Tantos muros aspérrimos quebranta,
Tantas batalhas dá, nunca cansado,
Tantas coroas tem, por tantas partes,
A seus pés derribadas, e estandartes?»

11

– Este é o primeiro Afonso – disse o Gama -
Que todo Portugal aos Mouros toma;
Por quem no Estígio lago jura a Fama
De mais não celebrar nenhum de Roma.
Este é aquele zeloso a quem Deus ama,
Com cujo braço o Mouro imigo doma,
Pera quem de seu Reino abaxa os muros,
Nada deixando já pera os futuros

70

Sabe que há muitos anos que os antigos
Reis nossos firmemente propuseram
De vencer os trabalhos e perigos
Que sempre às grandes cousas se opuseram;
E, descobrindo os mares inimigos
Do quieto descanso, pretenderam
De saber que fim tinham e onde estavam
As derradeiras praias que lavavam.

X

“Vês aqui a grande máquina do mundo,
Etérea e elemental, que fabricada
Assi foi do Saber alto e profundo,
Que é sem princípio e meta limitada.
Quem cerca em derredor este rotundo
Globo e sua superfície tão limada,
É Deus, mas o que é Deus, ninguém o entende,
Que a tanto engenho humano não se estende.”

 

E real e historicamente, “ISTO” se passou da maneira que Duarte Galvão e Camões descreveram.

Agora se  “Isto”, foi visão, foi saber, foi sonho individual do Rei, ou colectivo de um Povo, ou é verdade virtual, ou  É MITO, ou É História, não nos interessa agora decifrar, e deixo esse trabalho para heurísticos e pesquisadores de História, e escribas positivistas que ainda hoje negam ter havido um dilúvio Universal, porque nunca encontraram qualquer escrito assinado por Noé ou seus filhos nem documento autentico por eles foi encontrado nos Arquivos de Manchester, Tours, Bolonha, Paris, Kiev ou Alcobaça.

O que na verdade nos interessa saber e conhecer de Verdade Feita, para em verdade verdade o transmitir,  É:

- Que Verdade Ourique nos dá, ou nos traz, ou nos quer indicar?

- Que Ideia ou Mensagem é que Afonso Henriques e UM POVO que ele representou, nos quis transmitir e que até hoje, passados mais de 850 anos, ainda se relembra?

- Que verdade é que Deus quis que víssemos e quer ensinar, com toda esta história de Ourique?

É que na Verdade Ourique é o “Génesis” do nascimento de um Povo que teve por seu primeiro Rei, um Rei que se Regia, e Regeu, por regras de vida quotidiana muito concretas, e que seguiu um Ideal e transmitiu uma Mensagem que estava bem patente, publicitada e incontestada por quem quer que fosse, e simbolizada:

- Quer por uma Cruz desenhada no seu Estandarte,

            – Quer pelas 5 Chagas de Cristo desenhadas no seu Brazão de Armas como testemunho da Existência de Cristo na Terra e sua venda por trinta dinheiros aos Judeus,

- Quer através das moedas, reguladoras da sua Economia e Finanças com o sinal da Cruz e com “a inscrição” IN HOC SIGNO VINCES e tendo sempre no centro delas gravadas as Cinco Chagas de Cristo.

- Quer através de seu real Selo-Rodado, e o dos seus Filhos e Familiares confirmativos e Garantia da palavra Real, que explicitava ao seu Povo, e ao Mundo, que o Rei actuava “Pela Pax e na Luz de Deus”, com a Autoridade de Rei e fazendo cumprir e administrar com Justiça a Lei da Grei.

Pax __ LUX.

Rex __ Lex.

E o mais curiosos, é que tal mensagem perdura até nós – passados mais de 850 anos, pois ainda hoje e embora sejam passados 4 Dinastias Reais, e MESMO uma viragem de Sistema Político da Monarquia para a República, os Sinais Identificadores de uma Identidade Nacional, como o sejam:

- A Bandeira que desfralda

- A Moeda que se usa

- O Selo e Timbre Oficial que Confirma e Legitima todas as Leis, continuam a ter no Centro deles as Cinco Chagas de Cristo, dispostas em Cruz e portadores dos tais trinta dinheiros pelos quais Cristo foi vendido.

 

E o Instrumento de que Deus  se serviu em Ourique, para sobre uma Pedra (Calle) construir na Terra, um Reino – feito de Homens e Mulheres crentes em Deus, crentes deles mesmos, e crentes no valor do próximo e do valor dos seus inimigos, foi Afonso Henriques e seus guerreiros.

 

E Deus serviu-se de Afonso Henriques e do Seu Povo, – “O Povo Adquirido” de que fala S. Pedro na sua segunda carta  evangélica, para através dele, a Fé Nele, e o Cristianismo consubstanciado na Igreja, ser levado até aos confins do Mundo, “Até às Nações mais estranhas” pois se mais terra houvesse lá deveriam chegar os Portugueses, para Dilatar a Fé e o Império, que como filhos da Luz que são, e que como tais devem ser considerados, só poderão transmitir a Paz e a Solidariedade Humana, que assume o âmago e climax dessa Vontade, através da própria perpetuidade  humana, consubstanciada na dádiva do seu próprio sangue e genes, misturando-os, com o das outras raças, (miscegenação) para que seus filhos, perpectuem  na Terra, a Luz e crença em Deus, numa vivência conjunta dos Povos em Paz e Solidariedade total.

E para isso, era necessário convencer de tal os Infiéis, combatendo-os quando necessário,

E descobrir Novos Mundos, através da Terra, ou sulcando os Mares.

E nessa altura, Não só o Mar se cumpria, como se estava a cumprir Portugal.

E o Mar cumpriu-se, e a Fé e o Império foram dilatados.

 

MAS OURIQUE continua a cumprir-se

 

Pois Milhões de Pessoas e Quotidianamente, dão testemunho disso ao relembrá-lo na Bandeira, ao usá-lo nas Moedas ao Certificá-lo através do Selo Oficial do Estado.

Nós hoje devemos assumir, sem Medo e sem Receios humanos, a quota parte que nos incumbe, e é  necessária e vital, para que se cumpra a Idade da Paz, da Luz e da Fraternidade no Mundo.

 

Fernando Pessoa escreveu: “Não temos que criar um MITO, senão que renová-lo. Comecemos por nos embebedar desse Sonho, por o integrar em nós, por o incarnar. Feito isso, cada um de nós independentemente e a sós consigo, o sonho se derramará sem esforço em tudo que dissermos ou escrevermos e a atmosfera estará criada, em que todos os outros, como nós o respirem. Então se dará na alma da Nação o fenómeno imprevisível de onde nascerão os Novos Descendentes, a criação do Mundo Novo, o Quinto Império”.

Por isso, eu CONCLUO

- Eu português e Lusíada me confesso.

- Creio na Mensagem de Afonso Henriques ao seu Povo, e da lembrança que dela está expressa – através dos séculos – na Emblemática Heráldica da Bandeira Nacional que ainda hoje temos e nos representa, na Moeda que usou, e usamos, no Selo Real rodado que imprimiu e que continuamos a certificar, e que Nós, queiramos ou Não, como herdeiros e Testamenteiros de sua última vontade que somos, continuamos a respeitar e cumprir.

- Creio que Se os Povos Lusos, quebrarem ou esquecerem essa Aliança com Deus, ultrajando assim a mensagem e a herança que D. Afonso Henriques nos transmitiu, Portugal e esses Povos Lusos, não cumprirão sua Missão.

- Creio porém, que Portugal e Todos os Povos que hoje têm como sua Língua Nacional, a Língua Lusa, a Linguagem da LUZ, Desde o Brasil até Timor, passando pela Guiné, Cabo Verde, S. Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique, cumprirão e farão respeitar no Mundo, essa Mensagem de Paz e de Fraternidade Universal no Cristo Redentor simbolizada.

 

Descobrindo-se o Mundo – Cumpriu-se o Mar 

Descubra-se agora  o Próprio Homem – e Cumprir-se-á PORTUGAL.

 

Minhas Senhoras, meus Senhores, está Encerrado o Colóquio sobre a Geo-Política dos Descobrimentos Portugueses.

Muito Obrigado a Todos

 

Abel de Lacerda Botelho

(Presidente da Fundação Lusíada)