A escola da associação foi fundada no início da década de 70 do século XX, a pedido dos pais. O Mundo Português falou com o padre Martim da Silva e a professora Christine Rodrigues, para perceber melhor este projeto que ajuda a promover e elevar a língua portuguesa em França.

O ensino da língua portuguesa em França começou por ser assegurado pelas associações da comunidade portuguesa. Foi neste âmbito que as primeiras aulas de português foram criadas, como foi o caso do Centre Portugais de Formation Culturelle em Le Raincy, no início da década de 70. O padre Martim da Silva foi o fundador desta associação com o objetivo de ensinar língua portuguesa aos filhos dos portugueses residentes em França. Hoje esta associação continua ativamente o seu trabalho na promoção da língua portuguesa pelas mãos de uma ex-aluna, Christine Rodrigues, a atual presidente do Centro Portugais de Formation Culturelle. O “Mundo Português” falou com o padre Martim da Silva e a professora Christine Rodrigues, para perceber melhor este projeto que ajuda a promover e elevar a língua portuguesa em França.

Padre Martim da Silva, como é que veio para França?
Eu vim para França por sugestão do Bispo da Diocese de Vila Real para fazer um curso de pedagogia catequética, mas este curso não me interessou muito e passado um ano ingressei no curso de licenciatura em Sociologia, no Instituto Católico de Paris. Na altura, talvez tenha sido um pouco influenciado nesta decisão pelo Maio de 68, para além dos problemas sociais com os quais já na altura me preocupava em Portugal. Tive uma bolsa de estudo do governo francês e quando me preparava para regressar a Portugal vieram-me pedir para ensinar língua portuguesa aos filhos dos portugueses residentes em França. Nunca vou esquecer uma frase que me disseram na altura e que repito muitas vezes: -ensine o português aos nossos filhos senão quando eles chegarem a Portugal serão estrangeiros como nós fomos aqui, sem saber falar a língua. Isto motivou-me. Gostava do ensino, já tinha ensinado durante 5 anos em Portugal e com a experiência de vida que já tinha adquirido, política também, entendia que a Sacrossanta Ignorância era terrível e foi contra ela que decidi lutar quer no plano religioso, quer no plano cultural.
Decidi então ficar em França. Rasguei mesmo o bilhete do comboio e ainda hoje tenho pena de não o ter guardado, mas foi para não ter a tentação de querer regressar. Foi então em 72/73 que fundei o ensino em Le Raincy. Começámos com poucos alunos, mas muito rapidamente aumentou o número de alunos. Sem qualquer publicidade, só de boca em boca, foi isso que deu a conhecer os nossos cursos. Em 1980 tínhamos quase 200 alunos. No início, alguns dos meus alunos eram jovens que pretendiam entrar na universidade e não conseguiam, porque não tinham os estudos franceses. Então, precisavam tirar algumas disciplinas para depois pedirem equivalência, em áreas como Filosofia, História, Latim, Português ou Introdução à Política. Durante mais de dois anos lecionei estas disciplinas o que permitiu a alguns alunos entrar na universidade.

Em 2009 parou de ensinar, mas acabou sempre por voltar, como é que isto aconteceu?
Em 2009 decidi parar de ensinar, porque os anos avançaram e eu tinha realmente muito trabalho, era muito cansativo, andava sempre de um lado para o outro. Dava aulas em Meaux, Le Raincy, em Montfermeil, contratado pela mairie para dar cursos de português, em Bondy e em Paris, na École Médicis, para dar cursos de preparação para licenciaturas. Foi uma experiência muito boa, mas em 2009 decidi parar e dar a vez a outros. Acabei por não parar muito tempo, porque em Meaux havia uma associação que eu tinha criado com apenas 12 alunos, que tinha na altura mais de 50 alunos e ia fechar, por falta de professores, então eu decidi retomar o ensino para que não acabasse. Dei aulas mais 2 anos, até 2012 praticamente.
Recentemente a diretora responsável pelo ensino confessou-me que tinham aumentado os alunos, mas que tinha falta de professores e decidi retomar outra vez. É um curso para adultos, são franceses e francesas que frequentam as aulas de português porque estão ligados a Portugal por laços matrimoniais, ou simplesmente relacionais. Alguns compraram casa em Portugal para onde querem ir e saber falar português. Graças à língua portuguesa tive também muitos alunos que conseguiram obter lugares em trabalhos importantes em bancos franceses ou fábricas de montagem de automóveis onde é necessário saber falar português para negociar com o Brasil, por exemplo.

Não era fácil encontrar quem ensinasse língua portuguesa em França?
Com o tempo fui criando os próprios professores. Os primeiros professores que tivemos foram os melhores alunos que sobressaíram pela sua dedicação e inteligência e comecei a introduzi-los no próprio ensino. Houve até uma vaga de jovens que enveredaram pela área do ensino em Portugal, mas também aqui em França, impulsionados pelo que aprenderam aqui. Com os meus primeiros alunos conservamos uma boa relação e fazemos ainda encontros onde recordamos o passado.

E como veio para esta Igreja em Le Raincy?
O que me motivou a fixar aqui foi o ensino, mas juntamente com o ensino veio a igreja, eu sou sacerdote embora nunca tenha tido paróquia em Portugal. Eu ia celebrar missa à Missão Portuguesa e um padre, já falecido, padre Vaz Pinto, passava aqui, em Le Raincy, de 15 em 15 dias para celebrar missa e uma vez convidou-me para ficar nesta igreja e celebrar eu as missas e atender os portugueses. Eu aceitei. Isto foi em 1970 e assim começou a formar-se um núcleo que foi aumentando cada vez. No início eram 60, 70 pessoas, hoje são mais de 400.
A nossa atividade centra-se na celebração eucarística aos domingos e aos sábados e na catequese. As aulas de catequese são muito frequentadas, temos mais de 50 crianças para a primeira comunhão e 50 para a comunhão solene e todos os anos se renova.
Também fazemos aqui a preparação para casamentos. Os casamentos acontecem mais em Portugal do que aqui. No ano passado preparei 18 casais e só um casou em França.
Temos aqui muita vida. Temos dois grupos de coro extraordinários que atraem muita gente e dão um brilho único às nossas celebrações.

Christine Rodrigues: “Entrei como aluna e nunca mais saí”

Christine, fale-nos do Centre Portugais de Formation Culturelle…
O Centre Portugais de Formation Culturelle é na sua origem, uma escola fundada pelo padre Martim da Silva. Ele fundou uma pequena escola de Português nos anos 70 a pedido de pais que residiam em França e queriam que os filhos aprendessem língua portuguesa. O padre Martim fundou então uma primeira aula, depois uma segunda aula, o grupo foi aumentando e em 1984 formalizou-se oficialmente a associação, na Sous-Préfecture du Raincy. Hoje podemos dizer que ensinamos língua portuguesa há mais de 42 anos. Inicialmente eram poucos alunos, mas hoje temos 270 alunos.

O que leva os alunos a querer aprender português aqui?
Muitas vezes a motivação vem dos pais que se preocupam para que os filhos saibam falar português em Portugal, quer para férias, quer para eventualmente trabalhar lá ou cá, em empresas portuguesas. Só mais tarde é que vem uma motivação interna ao próprio aluno, mas isso é a partir da adolescência, muitos acabam os estudos na nossa associação e só depois é que realizam quanto lhes valeu a passagem pela nossa escola.
Outra razão, muito motivada por nós professores, é que saber falar português é uma mais-valia importante, estudar uma língua que está enraizada na família, que está sempre presente, mas “morta” para aqueles que já nasceram em França e muitas vezes não falam português em casa, é uma experiência que acabamos por permitir a essas famílias, “acordar” para esta língua que está há bastantes gerações na família. Os nossos alunos reconhecem esta mais-valia e usam-na nos estudos, no trabalho e isto é realmente um plus que eles têm na vida deles, para além do Inglês e do Francês vão também saber falar Português.

Existem muitos professores disponíveis para ensinar língua portuguesa em França?
Neste momento, temos sete professores, entre os quais três que vieram de Portugal, mas que foram contratados localmente. São professores que não encontraram colocação em Portugal, chegaram aqui há alguns anos e encontraram-nos. Entraram na associação, estão a dar aulas connosco e entretanto também conseguiram colocação no sistema de ensino francês, a lecionar Português.

Existe um fenómeno recente no Turismo, obviamente ligado ao investimento em Portugal, designadamente a procura por parte de franceses de casa em Portugal para viver a reforma abrindo aqui uma alternativa para a língua portuguesa e para Portugal como um país alternativo para negócios, por exemplo….
Em França existe um pouco a supremacia do Inglês e do Espanhol nas nossas escolas e também um pouco do Alemão que faz com que seja muito difícil, ou levará muitos anos até que o Português entre em força nas escolas francesas.
Temos muitos professores habilitados a ensinar espanhol, por isso é que o sistema vai demorar muitos anos a mudar. Quando um sistema está enraizado socialmente é preciso levá-lo até ao fim e isso demora muitos anos. Acho que por razões económicas e estruturais não haverá muita diligência em instalar em força o português nas escolas francesas.

Há muitos franceses a querer aprender português?
Já temos alunos franceses há muitos anos. Temos 25 adultos a aprenderem português como língua estrangeira. Alguns porque estão casados com portugueses ou portuguesas e vão passar férias a Portugal, têm uma parte da família que é portuguesa e gostam da língua, da cultura e da gastronomia de Portugal. Esta é a maior parte. Mas também temos uma pequena percentagem que gosta da língua, conheceu Portugal em turismo, por exemplo e que vem então aprender o português como qualquer outra língua estrangeira. Já há uma procura de não-lusófonos na aprendizagem do português.

 

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