CARTA DO CANADÁ

Fernanda  Leitão

PELOS VALORES É QUE VAMOS

 

Há dias, uma entrevista encheu-me de alegria: aquela que deu à RTP a actriz Maria Rueff. A talentosa moçambicana afirmou que educa a sua filha em valores como a gratidão e a bondade. Se juntarmos a esta decisão a coragem e a modéstia da mãe, temos que aquela menina tem para cumprir um belo programa de vida. De sublinhar que, apesar de ter chegado a Portugal com três anos de idade, com os pais e cinco irmãos, portanto todos “ultramados”, que devia ser o nome exacto em vez de retornados, Maria Rueff cresceu sem ódio e sem ganância.  Bem ao contrário doutros que, nem sequer tendo nascido em África, foram desde a descolonização (nada exemplar) postos a cozer em despeito e ressabiamento, no lento lume da vingança futura, como todos hoje sabemos e sentimos na pele porque, finalmente, o vilão teve a vara na mão. Maria Rueff saíu da prova sem aleijões de carácter. E transmite à sua filha essa nobreza.

Tenho a certeza que a maior parte dos jovens portugueses cultiva os mesmos valores, tem o mesmo anseio de transparência e lealdade na vida politica, o mesmo sonho de uma pátria livre, justa, escorreita, em que cada cidadão, por muito modesto que for, seja respeitado na dignidade de pessoa humana. Sendo que o respeito implica ter habitação, trabalho, saúde, educação e liberdade. Mas também não duvido que, precisamente por serem fiéis a estes valores, é que quem abocanha o poder os convidou a emigrarem, isto é, a porem-se ao largo e não perturbarem o trabalho dos predadores. Calculo que, nesta altura, algumas almas pias estarão perguntando-se se eu não sou uma perigosa comunista…  E eu, paciente, lembro-lhes que esta posição é a da Doutrina Social da Igreja. Há uma direita que a conhece, a aprecia e a tenta pôr em prática, de par com uma esquerda democrática, leia-se não totalitária. Não é essa a direita que detém actualmente o poder, muito embora  se benza, vá à missa, se mostre em Fátima, faça rapapés ao Papa Francisco diante de fotógrafos a solldo de tabloides. O grave é que a direita decente e séria está, salvo honrosas excepções, calada.  Muito grave mesmo. Porque a hora é decisiva e não permite acomodações ou medos. A hora é de, sem olhar a rótulos religiosos, as pessoas de bem, à direita e à esquerda, se juntarem no mesmo esforço de falarem alto e claro na União Europeia, porque, a não ser assim, a falência fragorosa do clube europeu é garantida.

É pelo menos estranho que a comunicação social esbanje tempo e dinheiro noticiando e debatendo tricas, difamações, mentirolas de meia tigela, sem dar uma palavra sobre o que, de facto, está a acontecer em Portugal e no mundo. Metem medo ao povo com o papão da Alemanha, escondem que a Alemanha ronca grosso para os seus bancos apanharem o dinheiro dos povos do sul e, à sorrelfa, vai mandando muitos milhares dos seus reformados para países de mão de obra barata porque o estado germânico já não consegue servir os seniores com qualidade, por falta de pessoal especializado e receio do dinheiro que se gasta. A Alemanha tem pés de barro, e isto demonstra-se diariamente em países onde a a comunicação social ainda é livre, culta e bem informada, Assim sendo, não há razão para se permitir a liderança europeia e os seus desmandos. O mesmo se diga em relação à corrupção que campeia em muitos países, desde a China à Alemanha, por exemplo. Fruto de uma globalização de roubalheira. É por isso que em muitos países, e não apenas na Grécia e na Espanha, as pessoas estão a erguer-se contra o polvo.  Já ninguém quer saber de partidos que parecem de mãos atadas, mas todos querem pôr termo à pouca vergonha de haver povos com fome para que uns quantos apodreçam de ricos.  Jesus Cristo foi amor e doçura em forma de homem que veio ao mundo espalhar a sua palavra mas, quando viu como se comportavam os vendilhões do templo, pegou no chicote e varreu tudo diante dele.

É bom que as pessoas saiam do silêncio, tomem posição, para que se evite o pior.