Quanto a Ciências exactas e naturais, e apesar da dispersão pelo mundo dos Lusos, é tão grande a “unidade portuguesa”, que não é possível referir uma perspectiva histórica de qualquer actividade cultural, sem penetrar na unidade do conjunto.

O êxito da epopeia marítima portuguesa, exigiu que se congregassem todas as potencialidade da Nação, e assim temos um imenso esforço científico de conjunto ao serviço daquela causa.

O bom sucesso das “viagens marítimas” “e descobertas de novos mundos” exigiu a Portugal ser o mais evoluído na Europa de então, quanto às ciências exactas e às naturais.

A “arte de marear” exigia pois uma planificação cientifica e contínua, sistemática e intencionalmente preparada.

- A navegação no alto mar, e os graves problemas que tal levanta, obriga à orientação pelos Astros, e a muitos e elevados cálculos matemáticos. É necessário inventos, e, pôr em prática novas técnicas navais, descobrirem-se novos métodos de orientação e criar “instrumentos de orientação”, por isso, tem de se evoluir nos conhecimentos matemáticos, astrológicos e outros mais que vão sendo necessários para os pôr em prática.

“Ora manifesto he que estes descobrimentos de costas, ilhas e terras firmes, não se fizeram, indo a acertar; mas partiam os novos mareantes mui ensinados, e providos de instrumentos e regra de astrologia. Levavam cartas mui particularmente rumadas e não já as de que os antigos rezaram.  As novas cartas  são mui diferentes delas. (Citação esta de Pedro Nunes) – o nosso matemático e cosmógrafo-mor do reino (1534), que imortalizado numa Estátua sua, existente na Sala Algarve da Sociedade de Geografia de Lisboa, tem a sua mão apoiada numa “esfera armilar”.

Essa “esfera armilar” não só simboliza a globalidade do Império Luso (a partir dos finais do século XV), como magistralmente Camões dele fala – em Os Lusíadas – no Canto I na Estrofe 8:

“Vós, poderoso Rei, cujo alto Império

O Sol, logo em nascendo, vê primeiro;

Vê-o também no meio do Hemisfério,

E quando desce o deixa derradeiro”.

Como simboliza também, que o estudo, desenvolvimento e mesmo a criação das CIÊNCIAS positivas, de orientação, naturais e sociais é apanágio da Cultura Lusíada no início do século XVI.

Efectivamente, um dos graves problemas a resolver foi o da orientação das naus para além do equador, pois a partir dali, deixava de se ver a Estrela Polar por onde até aí se orientavam com o auxílio do “Regimento da Estrela do Norte”.

Recorreu-se então à “observação da altura do sol” na sua passagem, pelo meridiano do lugar, método que exigia o conhecimento de tábuas de “declinação do Sol”.

Por isso, os nossos navegadores, abrem com eles, a era da Ciência Moderna, e iniciam a globalização do mundo.

Desde as “Crónicas da Guiné” de Gomes Eanes de Azurara, de Diogo Gomes nas suas “Relações” ou de Álvaro Velho no seu “Roteiro da Viagem de Vasco da Gama à Índia”, e daí para diante, são constantes e numerosas as descrições de novos animais e plantas, de fenómenos naturais, de povos, costumes e raças, de novas constelações, novas terras, ilhas, rios, mares o que dá origem e início, à estruturação científica e da criação de novos ramos das ciências naturais, e sociais.

As observações de D. João de Castro (séc. XVI) sobre “magnetismo” são um verdadeiro modelo de “método experimental” e os “Roteiros” portugueses da época, são exemplo do perfeito método de experiência, observação  registo em que iria assentar a nova era do progresso científico e técnico que Portugal fundou, e os Países Europeus a seguir adoptaram e desenvolveram.

Para cruzar todos os mares, quer do Oceano Atlântico, Índico, Pacífico, a ciência de marear, descoberta e posta em prática pelos portugueses, exigiu deles (cientistas, navegantes, e até políticos e gestores) todo um conhecimento e estudo sobre marés, coordenadas geográficas, problemas de matemática e astrologia, e de navegação, que lhes dessem enfim, a possibilidade e sentido da ORIENTAÇÃO  A TOMAR.

Da orientação de onde vinham, e para onde queriam ir.

Da orientação de saberem o que queriam fazer.

A orientação, só por si, e como fenómeno científico puro, nada produz, se não estiver ao serviço do querer, da vontade, e do objectivo da mente humana.

“A orientação” de um Ser Humano, de um Povo, de um País, jamais pode ser pensada e executada – “indo  a acertar“ como escreveu Pedro Nunes. Isto é: resolver as coisas de improviso e “à sorte”, sem esquematização nem planeamento.

Mas sim, ela deve ser fruto, de muito estudo, do uso de técnicas científicas certas e eficazes, e do estabelecimento e programação primeiro, dos objectivos a serem atingidos.

Os Portugueses, os Lusos, sempre conseguiram atingir os seus fins, os seus objectivos, embora para isso sempre tenham de fazer muito elevado estudo, e trabalho, e com grande capacidade de sofrimento.

“Sem dor nunca se passará o Cabo Bojador”.

“Ninguém tem nada de bom, se não sofrer”.

Por isso, é que é natural, que eles também se sintam orgulhosos de si mesmos e do Povo a que pertencem.

E de novo, rememoremos Camões:

“Fazei Senhor, que nunca os admirados

Alemães, Galos Ítalos e Ingleses

Possam dizer que são para mandados

Mais que para mandar, os Portugueses”

(Os Lusíadas – Canto X Est. 153).

“E julgareis qual é mais excelente

Se ser do mundo Rei, se  de tal gente”.

(Os Lusíadas – Canto I Est. 10).

 

Os Lusos, que o saiba todo o mundo, não são pois melhores nem piores que qualquer outro Povo, Língua, ou País. Eles porém são diferentes.

E é nessa diferença que a sua universalidade se exalta e se realiza.

Por isso, eu desejo aderir ao “sítio da Portugalidade” porque acredito que

O Povo Luso, sempre soube que ele

É no Estar

Sem no estar Ficar.