III PARTE

 

PORTUGALIDADE E OS LUSÍADAS 

Terá Luís de Camões, nos Lusíadas, falado dos Portugueses? Do Povo Luso? Da sua Grei? dos seus Reis? Dos seus Heróis? Terá Camões dito:

- Quem são os Portugueses?

- Donde vieram os Lusitanos?

- Para onde é que vão?

Terá Camões descrito quais são os seus costumes, os seus valores, a maneira de ser, da maneira de estar na vida? Terá ele descrito a civilização Lusa, quais as sementes que eles deixaram pelo Mundo fora, e mesmo feito a comparação do Ser-se português, em confronto com os outros Povos? Terá ele em fim, descrito a Paideia Lusa?

Ou pelo contrário só terá falado dos ingredientes culinários necessários para se fazer o “Cozido à Portuguesa”?

 

Vamos ver:

- Camões é o primeiro poeta épico,  a ter como herói do seu poema, não um Homem ou Mulher, mas todo UM POVO desde a a sua “arraia miúda” até aos seu barões, aos seus reis, à sua Alma Una, simbolizada pelo seu “peito”. Os Lusíadas, realmente cantam

 

“As armas e os barões assinalados”

 

“E também as memórias gloriosas

Daqueles Reis que foram  dilatando

A Fé e o IMPÉRIO

“e aqueles que por obras valerosas

Se vão da lei da morte libertando

 

“Que eu canto o peito ilustre Lusitano

A quem Neptuno e Marte obedeceram”

 

E tudo isto porque? Porque Camões vai descrever, esclarecer, fazer  troar por todo o Mundo, a maneira de ser e de estar de todo  UM POVO, que até aquela data era um POVO DIFERENTE de todos os outros Povos.

 

Por isso:

 

“Cesse tudo o que a Musa antiga canta

Que outro valor mais alto se alevanta”.

 

E além disso, esse Povo estendeu por toda a ORBE, a sua maneira de ser, a sua civilização.

 

“Vós, poderoso Rei, cujo alto Império

O sol logo em nascendo vê primeiro,

Vê-o também no meio do Hemisfério

E quando desce o deixa derradeiro”.

 

E esse povo lusitano, essa gente é realmente diferente dos outros, é efectivamente grandíloca.

 

“E julgareis qual é mais excelente,

Se ser do mundo Rei, se de tal gente”.

 

E a maneira de ser, de estar na vida, as façanhas desse povo lusitano, é verdadeira e não fantasia ou “virtual” (como hoje se diria).

 

“… não vereis como vãs façanhas

Fantásticas, fingidas, mentirosas

Louvar os vossos

 

As verdadeiras vossas são tamanhas

Que excedem as sonhadas, fabulosas

Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro,

E Orlando, inda que fora verdadeiro”.

 

Enfim, Camões promete descrever ao Rei D. Sabastião, de onde é que os Lusos vêm ou descendem, onde estão, e para onde querem ir, quais  os valores que os norteiam, quais os heróis que os representam e encarnam, enfim qual a maneira de ser e de estar no mundo que os lusitanos praticam. E assim Camões propõe-se explicar

 

Que gente será esta, em si dizemos

Que costumes, que Lei que Rei teriam.

 

Quem eram, de que terra, que buscavam

Ou que partes do mar corrido tinham?

 

os Portugueses somos do Ocidente

Ia-mos buscar as terras do Oriente.

 

“Do mar temos corrido e navegado

Toda a parte da Antárctica e Calisto

Toda a costa Africana rodeado

Diversos Céus e terras temos visto”.

 

(e ainda hoje, 450 anos passados, continuam os lusitanos na sua diáspora, na sua paideia, na sua portugalidade, a peregrinar por

 

“Diversos Céus e terras temos visto”

 

E afinal, o que é que somos? Um Povo sedentário? Um povo nómada? Um povo preguiçoso? Um povo que foge ao trabalho? Um povo sem esperança? Um povo Rico e afortunado? Um povo não crente? Um povo que não sabe amar?

 

“Oh grandes e gravíssimos perigos

Oh caminhos de vida nunca certo

Que, aonde a gente põe sua esperança

Tenha a vida tão pouca segurança.

 

“No mar, tanta tormenta e tanto dano

Tantas vezes a morte apercebida;

Na terra tanta guerra, tanto engano

Tanta necessidade aborrecida.

 

“Onde pode acolher-se um fraco humano

Onde terá segura a curta vida,

Que não se arme e se indigne ao Céu sereno

Contra um bicho da terra tão pequeno.

 

“Quem poderá de mal aparelhado

Livrar-se sem perigo, sabiamente

Se de lá de cima a Guarda Soberana

Não acudir à fraca força humana.

 

“Ó tu, Guarda Divina, tem cuidado

De quem sem Ti, não pode ser guardado”.

 

E Camões sabe e ensina, que é próprio do português, que o núcleo, o âmago da Portugalidade está no

 

“Ser no Estar

   Sem nele ficar”

 

Os Lusitanos sabem, que são meros viventes PEREGRINOS nesta Terra, onde o seu Espírito ou alma, nessa terra não ficará. Daí a singularidade da Portugalidade.

 

“E se te move tanto a piedade

Desta mísera gente Peregrina

Que, só por Tua altíssima bondade

Da gente a salvas, pérfida e malina”

 

“Nalgum porto seguro, de verdade

Conduzei-nos, já agora determina

Ou nos mostra a terra que buscamos

Pois só por Teu serviço, navegamos”.

 

Aqui está o âmago e a “idiossincrasia” da Portugalidade. O ser humano, e nomeadamente o lusitano, o luso, o filho da Luz, é um mero peregrino que navega neste mar terrestre – na maior parte das vezes, à deriva, ou à “bolina” mas que do fundo do seu coração e do seu entendimento, anseia por ser conduzido e abrigado num Porto Seguro, na terra (ou na Jerusalém celeste) que se busca procurando ansiosa e constantemente, encontrar o seu Norte, que o leve de retorno à fusão com a Saudade da sua Mátria.

E isto Camões rediz e reforça, usando como pretexto, o ter de dar  explicações e ensinamentos ao Rei de Coxim do Oriente, sobre quem são os Lusitanos, de onde vêm e o que procuram.

 

“Eis aqui se descobre a nobre Hespanha

como cabeça ali da Europa toda

Em cujo senhorio e glória estranha

Muitas voltas tem dado a fatal roda”.

 

“Eis aqui, quase cume da cabeça

Da Europa toda, o Reino Lusitano

Onde a terra se acaba, e o mar começa”.

 

“Esta foi Lusitania, derivada

Do Luso, ou Lisa, que de Baco antigo

Filhos foram, parece, ou companheiros

E nele estão os incolas primeiros”.

 

“E com amor intrínseco acudidos

Da Fé, mais que de honras populares

Eram de várias terras conduzidos

Deixando a Pátria amada e próprio lares

Depois que em feitos altos e subidos

Se mostraram nas armas singulares”.

 

“Porque não é das forças lusitanas

Temer poder maior, por mais pequeno”.

 

E o amor estará intrínseco na alma e no peito lusitano? O português quando verdadeiramente ama, ama até à eternidade.

 

“Estavas, linda Inês, posta em sossego

Dos teus anos colhendo doce fruito

Naquele engano de alma ledo e cego

Que a Fortuna não deixa durar muito”.

 

“De noite, em doces sonhos que mentiam,

De dia em pensamentos que voavam

E quanto enfim cuidava e quanto via

Eram tudo memória de alegria”.

 

“Tu só tu, puro amor, com força crua

Que os corações humanos tanto obriga

Deste causa à molesta morte sua”

 

“O caso triste e digno de memória

Que do sepulcro os homens desenterram,

Aconteceu da mísera e mesquinha

Que depois de ser morta, foi Rainha”.

 

Que “Amor” é o que ainda hoje o nosso Fado canta?

 

Mas na Paideia Lusa, há também traidores, cobardes, simuladores, invejosos e até anti-religiosos (que hoje se chamam ateus ou laicizantes).

“Negam o rei e a Pátria e, se convém

Negarão, como Pedro, o DEUS que tem”.

 

“Como? Da Gente Ilustre Portuguesa

Há-de haver quem refuse o pátrio Marte?

Como? Desta província, que princesa

Foi das gentes na guerra em toda a parte,

Há-de sair quem negue ter defesa?

Quem negue a Fé, o amor, o esforço e arte

De Português, e por nenhum respeito, o

Próprio Reino queira ver sujeito?“

 

“Como? Não sois vós ainda os descendentes

Daqueles que, debaixo da bandeira

Do grande Henrique, feros e valentes

Vencestes esta gente tão guerreira?”

 

“E se com isto, enfim, vos não moverdes

Do penetrante medo que tomastes,

Atai as mãos a vosso vão receio,

Que, eu só, resistirei ao jugo alheio”.

 

E a  fraternidade a ser sacrificada em favor da Grei e do Rei?

 

“Ver ser cativo o santo Irmão Fernando

(que a tão altas empresas aspirava)

Que, por salvar o povo miserando

Cercado, ao Sarraceno se entregava

Só por amor da pátria está passando

A vida  de senhora feita escrava”.

 

E o espírito experiente conservador, contestatário e pessimista do povo português, não está também descrito nos Lusíadas? Vejamos:

“Mas um velho, de aspecto venerando

Que ficava nas praias, entre a gente

——————————————

C’um saber só de experiência feito,

Tais palavras tirou do esperto peito”.

 

“Ó glória de mandar, ó vã cobiça

Desta vaidade a quem chamamos Fama!

————————————————

————————————————

Que mortes, que perigos, que tormentas,

Que crueldades neles experimentas”.

 

“A que novos desastres determinas

De levar estes Reinos e esta gente?

——————————————–

Que famas lhes prometerás? Que histórias?

Que triunfo? Que palmas? Que vitórias?”

 

“Deixas criar à porta o inimigo

Para ires buscar outro de tão longe”.

 

“Buscas o incerto e incógnito perigo

Por que a Fama te exalte e lisonge”.

 

Também é próprio da Portugalidade  albergar em si, os arrogantes, os demagogos os fanfarrões, os “ousados aventureiros” que ainda por cima desejam ser “charmosos” e provocar “humorismo”.

 

“É Veloso no braço confiado

e, de arrogante, crê que vai  seguro

——————————————

No aventureiro, eis pelo monte duro

Aparece e, segundo ao mar caminha

Mais apressado do que fora, vinha”.

 

“Disse então a Veloso um companheiro

(começando-se todos  a sorrir)

Olha, Veloso amigo, aquele outeiro

É melhor de descer, que de subir”.

Sim, é respondeu o “ousado aventureiro”,

Mas, quando eu para cá vim tantos vir

Daqueles cães, depressa um pouco vim

Por me lembrar que estáveis cá sem mim”.

 

“Dá a terra Lusitana Cipiões,

Césares, Alexandres, e dá Augustos,

Mas não lhes dá contudo, aqueles dões

Cuja falta os faz duros e robustos”.

 

“Vê que aqueles que devem à pobreza

Amor divino, e ao povo, caridade,

Amam somente mandos e riqueza,

Simulando Justiça e integridade

—————————————-

Leis em favor do Rei se estabelecem

As em favor do povo, só perecem”.

 

“Vê enfim, que ninguém ama o que deve

Senão o que somente mal deseja”.

 

“O favor com que mais se acende o engenho

Não no dá a pátria, não, que está metida

No gosto da cobiça e na rudeza

Duma austera, apagada e vil tristeza”.

 

São passados mais de 450 anos, sobre estas afirmações e “Radiografias” sobre o carácter de alguns portugueses, e do “Estado da Nação”. Hoje, no III Milénio, a vida e costumes sociais nacionais repetem-se. É isto também, ou não uma característica lógica da Paideia portuguesa, da Portugalidade? E para onde é que vão os Lusitanos?

 

“Tomando-o pela mão, o leva e guia

Para o cume desse monte alto e divino

No qual a rica fábrica se erguia

De cristal todo e de ouro puro e fino”.

 

“Diz-lhe a Deusa: o transunto, reduzido

Em pequeno volume, aqui te dou

Do Mundo aos olhos teus, para que vejas

POR ONDE VÁS, E IRÁS, E O QUE DESEJAS”

 

“Vês aqui a grande máquina do Mundo

Que é sem princípio e meta limitada

Quem cerca em derredor este rotundo

Globo, e na superfície  tão limada

É DEUS, mas o que é DEUS, ninguém o entende

Que a tanto engenho humano não se estende”.

  

“Enfim que o sumo DEUS, que por segundas

Cousas ora o Mundo, tudo manda”.

 

Depois a Deusa, mostra ao navegante Vasco da Gama, a Europa Cristã, a Benomotopa, as casas dos Negros, as alagoas do Nilo, o extremo Suez, o Monte Sinai, as Arábias, Défar, o Cabo Arabora, a Pérsia, a Costa Indiana para lhe dizer:

 

“Por este mar, a gente lusitana

Que com armas virá depois de ti,

Terá vitória, terras e cidades

Nas quais hão-de viver muitas idades”.

 

E a profecia cumpriu-se, e hoje há portugueses desde o Alasca à Austrália, desde a Gronelândia ao Japão, desde o Brasil ao mais entranhado do coração africano. E depois da descrição da vida e obra de S. Tomé na Índia, é-lhe implorado que:

 

“Pedimos-te que a Deus ajuda peças

Com que os teus Lusitanos favoreças,

 

“E vós outros, que os nomes usurpais,

Dos mandados de Deus, como Tomé,

Dizei: se sois mandados, como estais

Sem irdes a pregar a Santa Fé?

Olhai que, se sois sal, e vos danais

Na Pátria, onde profeta ninguém é,

Com que se salgarão, em nossos dias

(infiéis deixo) tantas heresias”?

 

“Até aqui, Portugueses, concedido

Vos é saberdes os futuros feitos

Que, pelo mar, já deixais sabido,

Virão fazer barões de fortes peitos

Agora, pois que tendes aprendido

Trabalhos que vos façam ser aceitos

Às eternas esposas e formosas,

Que coroas vos tecem gloriosas”.

 

“Podeis vos embarcar, que tendes vento

E mar tranquilo, para a pátria amada”.

 

E Camões, remata dizendo a D. Sebastião:

 

“Fazei, Senhor que nunca os admirados

Alemães, Gales, Italos e Ingleses

Passam dizer que são para mandados

Mais que para mandar, os Portugueses”.

 

Mas o âmago, o núcleo e  essência da Portugalidade, ninguém como Luís de Camões a expressou até hoje:

 

“E vós, ó geração do Luso, digo

Que tão pequena parte sois no mundo

Não digo inda no mundo, mas no amigo

Curral de Quem Governa o Céu rotundo”

 

“Vós, portugueses, poucos quanto fortes

Que o fraco poder vosso não pesais;

Vós, que, à custa de vossas várias mortes,

A Lei da vida eterna dilatais”.

“Assim do céu deitadas são os sortes

Que vós, por muito poucos, que sejais

Muito façais na santa Cristandade

Que tanto, ó Cristo, exaltas a humildade”.

 

E os Lusos, filhos da Luz, aquela Luz que dá o Ser, que faz nascer o vivente, essa mesma Luz deverá ser o terminus ou fim desse mesmo Ser, a parte derradeira onde essa Luz se acabe, depois de decorrida a sua peregrinação terrestre, fundindo-se no Amor, é-nos recordado por Camões nos Lusíadas:

 

“Esta é a ditosa Pátria minha amada,

A qual se o Céu me dá, que eu sem perigo

Torne, com esta empresa já acabada

Acabe-se esta Luz ali comigo”.

 

Vale ou não vale a pena ser-se Luso? Vale ou não vale a pena ser-se Autor, Actor e Espectador da Portugalidade, e tudo isso ao mesmo e no mesmo TEMPO?

 

Está Feito.

 

Comunicação apresentada à Secção Luís de Camões dSociedade de Geografia de Lisboa a 18 de Abril de 2008