II PARTE

 

PORTUGALIDADE

- O que é – como nasceu – como se assume e se pratica, é o que em nosso entendimento e mui sucintamente, vamos tentar dizer, e explicar.

Um Povo, só é povo, e independente, e  é autónomo, e não confundível com os outros povos, quando possui e exerce em pleno o uso de uma LÍNGUA própria, isto  é:  de um pensamento autónomo.

Um agregado humano  – societário – só verdadeiramente existe e é autónomo e adulto, se usa uma PALAVRA diferente da que usam os povos limítrofes.

E a Palavra, como é Som e Imagem de uma Ideia, só assume uma identidade própria e diferente da dos outros povos, se acaso e verdadeiramente é a expressão de uma IDEIA NOVA, de uma Ideia diferente, a qual os outros povos ainda desconhecem e, como tal, não a comungam entre si.

Uma “Palavra Nova”, ou uma “linguagem nova” só aparece num estrato social humano, localizado num Espaço (geográfico) certo, e num Tempo (histórico) determinado, quando esse aglomerado social humano (ou alguém individual que faz parte desse agregado humano) tem uma Ideia Nova, ou uma  Ideia diferente, daquela que já existe e é praticada pelos povos seus vizinhos ou confinantes.

E se as Ideias Novas se encontram estruturadas e transmitem um Ideal e um Objectivo de vida novo, elas vão dar origem a uma “MENSAGEM”, a uma mensagem nova, a uma Ideia diferente de um Povo estar, e ser, na vida colectiva.

E essa “ideia” para, e por ser mesmo nova, (verbal, ou escrita) deve ter e assumir uma “Som Novo”, um “Som diferente”, o que acontece, através do aparecimento – da criação – de uma “Palavra Nova“.

E se essa Ideia – nova, através de Som-novo, faz surgir uma Palavra-nova, assistimos então ao início, e ao alvorecer de uma nova linguagem, ou de uma nova língua.

Faz-se Luz no Espírito, e a Palavra nova – nasce.

E esta “nova língua” ou “nova linguagem” estrutura-se, fortifica-se e desenvolve-se, na proporção geométrica, do grau de comunhão que todo um agregado social-humano, fizer de tal ideia nova.

E foi assim, que a Língua Portuguesa “apareceu” na Europa (à beira do Atlântico no mais extremo ocidental da Europa) e no virar de um Milénio (o 1º milénio depois de Cristo ter aparecido, morrido e ressuscitado).

A Língua Nova, que viria a dar a língua portuguesa, (quer certos intelectuais gostem ou não da ideia) apareceu, e desenvolveu-se, como forma de um povo (geográfica e temporalmente bem definido) exprimir essa Ideia Nova, que era até então desconhecida quer por romanos (latinos), quer por vândalos (godos e suevos), quer por safarditas (judaicos), quer por mouros (linguagem arábica), quer por Cristãos iberos (galaico-leonoeses-castelhanos).

Só a necessidade de “inventar”, de “criar” uma ou várias palavras-novas (novos sons que até aquela altura eram desconhecidos) é que deram origem, a que, pouco a pouco, essas “Palavras Novas” apareciam, pois “traduziam” e eram “expressão” dessas “novas ideias” que repetimos, os povos circundantes não conheciam, e como tal não praticavam.

E qual terá sido essa “Ideia-Nova”, esse Som-Novo, essa Palavra diferente que foi génese de nova Língua? Talvez tenha sido o que hoje chamaríamos de ideias de:

- Autonomia e Individualização;

- Grito contra a escravidão;

- Desejo de independência;

- Clamor conta a pobreza;

- Vontade de ser, de ser, de ser, e de ser mais;

- Ânsia de Aventura – conhecer cada vez mais pessoas e povos, conhecer cada vez mais Mundos;

- Consciência de não suportar mais servidões;

- Querer mais lutar que sofrer;

- Lutar para vencer e vencer para amar;

- Preferir avançar morrendo, do que vivendo – fugindo de si e dos outros;

- Ser amante e ser amado;

- Ter honra em ser Filho, e ter honra em ser Pai;

- Sentir o dever de mandar, mais do que a obrigação de obedecer, de obedecer sobretudo a incompetentes, frustrados, raivosos e imbecis;

- Não tolerar a vaidade estulta, nem a opressão do estúpido e do néscio;

- Querer conhecer o Mundo sem nunca renegar ou sequer esquecer a Terra onde nasceu, o lugar onde sua Mãe o “deu à luz” criando e sentindo a Saudade;

- O ter de proclamar a toda a gente, que o que está em cima está presente no de baixo;

- Que o que está em baixo é reflexo e pura imagem do que está em cima;

- Que quando o discípulo está pronto, o Mestre também o está;

- Que mais vale morrer como herói, do que servir com perfídia, servindo e servindo-se constantemente dos outros;

- Que sendo todos humanos, todos se deveriam amar uns aos outros;

- E quando a morte os vencer, se deveriam sepultar uns aos outros, preservando não só temporalmente os ossos e a carne que se decompõe, como especialmente venerando a  imortalidade das suas almas.

- O glorificar,  festejar  e enaltecer os seus Heróis

 

E ainda:

O reconhecer e divulgar a sua Fé em Deus, a sua Fé em Jesus Cristo nosso Senhor e  a sua Fé no Divino Espírito Santo. CRER EM DEUS – CRER EM SI MESMO – CRER NO TRABALHO QUE EXECUTA. Estava encontrada uma Ideia Nova uma Nova Força de viver… e de morrer. Estava encontrada uma Nova Ideia de “se estar e ser no Mundo“, sem ao Mundo ficar agarrado ou… nele ser extinto e apodrecido.

Estava “achada” a PAIDEIA LUSA.

O interruptor encefálico, dos nossos Egrégios Avós, acabava de dar à luz: A Portugalidade. Essa “maneira” e “condição de ser” e de  “estar” no Mundo, completamente diferente da que consciente ou inconscientemente os outros povos vizinhos usavam e viviam.

E a Portugalidade, não é pois nem mais, nem menos, do que “A Paideia Lusa”. “O modo de ser, e de exercitar a vida quotidianamente, à maneira portuguesa”.

E essa “identidade de ser e de estar na vida à portuguesa” ganhou tal força ao longo de centenas de anos, que posteriormente “comungada” por povos longínquos, hoje se vê “espalhada” e  “espelhada“ e “vivida quotidianamente” nos cinco continentes de que o Planeta Terra é constituído.

Hoje pois, a Palavra “Portugalidade”, engloba um conceito abrangente que vai desde a antropologia cultural, à sociologia política, à filosofia da história, não deixando de englobar também toda uma tradição doutrinal e messiânica relativa não só ao homem Luso, como à criação cósmica do SER, à expansão e testemunho de uma espiritualidade já alicerçada no Homem.

Como diz J. Pinharanda Gomes em um artigo inédito, a publicar, “Na esteira de Álvaro Ribeiro, e em glosa a Leonardo, portugalidade surge, neste cenário, não como uma herança, mas como uma vida a construir, dentro de uma elenco axiológico, em vista da redenção. Constitui, enfim, não um dogma fixista, mas um problema da antropologia filosófica, e  de antropologia situada, à luz do preceito que manda filosofar antes de fazer política, considerando o povo, a cultura, a língua, e os valores, com ou sem ideia de V. Império“.

Assim, hoje, o ser-se português, implica o ser-se autor, actor, e espectador de Portugalidade, e tudo isso, ao mesmo tempo.

 

E mais:

A Portugalidade, é pois hoje passível de ser “sentida, desejada e praticada no quotidiano das vidas, mesmo por homens e mulheres, que embora não sejam portugueses,  aderiram à maneira de ser, e de estar no mundo, como o fazem os povos oriundos ou descendentes da lusitanidade, onde quer que estejam vivendo por esses cinco continentes da Terra, por esse Mundo fora … onde todos os dias se ouve e se fala a língua portuguesa, e mais que falar a língua, esses Povos em português pensam, e como descendentes de lusos actuam, vivem e morrem.

 

Comunicação apresentada à Secção Luís de Camões dSociedade de Geografia de Lisboa a 18 de Abril de 2008

continua em: A Portugalidade e os Lusíadas – parte 3