I PARTE

 

EXISTIRÁ A PORTUGALIDADE?

 

A

Já depois de ter transmitida à nossa mui estimada Presidente da Secção de Camões qual o tema que escolhemos para esta palestra, e de ter sido publicitada a 1 de Abril (nr 2008), deparámo-nos com dois artigos insertos na última página do Jornal “Diário de Notícias” de 5 de Abril – a qual em anexo, reproduzimos. Um dos artigos era subordinado ao título:

“… e os madeirenses não gostam dos Portugueses”

Em que aparecem as “alegações finais” do Sr. Rui Alves (presidente do Clube desportivo Nacional da Madeira) que em  síntese disse:

“Um dia, se a Madeira for independente, o Nacional representará um Clube Nacional da República Independente da Madeira. O Nacional não tem nada a ver com a “PORTUGALIDADE”. Na mesma página desse jornal e mesmo à sua direita o Jornalista Ferreira Fernandes comentava tal dito dizendo:

“Mais português é impossível”

E acrescentou:

“Aqui ao lado, entrevistado, o Rui Alves, presidente do Nacional, é um português do “CARAÇAS” (…) mais português é impossível”.

Só um presidente português de clube português, consegue encaixar duas vezes na mesma frase, a palavra “idiossincrasia”.

Duas! Só um português (seja ele de Moimenta da Beira ou da Calheta)é capaz de dizer “achamento” e “PORTUGALIDADE” em conversa”.

Enfim, nem de propósito. Em Março de 2008 eu escolhi o tema da palestra: Portugalidade, e em 1 de Abril tal é publicitado, e em 5  de Abril no Jornal “Diário de Notícias” surge a “batalha sobre o tema” Portugalidade, e hoje, 18 de Abril de 2008, precisamente o Presidente da República está em visita oficial à Madeira.

 

B

Antes de passar a dizer, o que é que eu entendo e sinto, pelo vocábulo “Portugalidade”,  e estando quase a deflagrar o “furacão“ da significação de tal termo, pensei que devia ter cuidados redobrados sobre tal matéria, e para não “fantasiar sobre tal termo” procurei saber, através do melhor e mais actual Dicionário de língua portuguesa, o que é que lá se diz e pontifica, sobre o que quer dizer

“PORTUGALIDADE”

Para tal consultei o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporâneo da Academia de Ciência de Lisboa.

Realização da Academia e da Fundação Calouste Gulbenkian, elaborado pelo Instituto de Lexiologia e Lexiocografia da Academia, com o apoio de Ministério da Educação e do Instituto Camões – Editorial Verbo 2001.

Ao consultar-se um livro, para nele se procurar uma certa temática, é útil e até imprescindível, analisar-se o seu Índice.  Contudo, e como é óbvio, o Índice de um dicionário,… seria quase outra vez o mesmo Dicionário.

Por isso, comecei a ler o Dicionário em causa, como quem lê um qualquer  outro livro, e assim comecei a lê-lo pelo princípio, isto é: pela INTRODUÇÃO.

Lá se verifica que “nele constam 70.000 (setenta mil) entradas e 33.000 (trinta e três mil) abonações linguístico-literárias de autores contemporâneos, desde Almeida Garrett a Aquilino Ribeiro e José Saramago (Sic.) e não só de escritores portugueses como brasileiros e africanos de expressão portuguesa, que assim convertem este dicionário, num valiosos instrumento lexicológico e lexicográfico“.

Mais acrescenta a Introdução do dito dicionário:

“Se a língua é falada pelos seus falantes, são os seus grandes escritores que fixam a ortodoxia lexical e sintáctica.

E ainda se lê nessa Introdução:

“A nomenclatura do presente dicionário ou seja, o conjunto de entradas lexicais nele registadas (cerca de 70.000), embora de natureza selectiva, abrangem vocabulário amplo e diversificado, conforme a seguir se indica.

(E a seguir são indicadas e desenvolvidos os seguintes itens).

- Vocabulário geral.

- Vocabulário científico e técnico.

- Regionalismos.

- Gíria e calão.

- Vocabulário clássico e arcaico.

- Neologismos.

- Estrangeirismos.

- Brasileirismos, Africanismos e Asiatismos.

É claro que se eu já estava expectante por ir saber o que é que afinal quer dizer “PORTUGALIDADE”; após a leitura destas afirmações na Introdução do Dicionário, foi com ansiedade que abri o 2º volume (que é nele que estão as “entradas” dos vocábulos de G a Z)

e, meus Caros Consócios e Amigos

PASME-SE

O tal “vocábulo”, a tal “entrada” a tal “abonação linguístico literária” usada pelos autores – NÃO ESTÁ LÁ DESCRITA.

O vocabulário “Portugalidade” não consta de tal dicionário.

Nem sequer de “natureza selectiva” foi considerado. Nem sequer como “Gíria ou Calão”, ou  “neologismo” ou “estrangeirismo” foi considerado. Nem teve honras de ser considerado como vocabulário geral, nem regionalmente, nem sequer de brasileirismo ou asiatismo.

A desgraçada “palavra” PORTUGALIDADE nem teve sequer entrada na secção dos “africanismos”!

Oh má sorte,

Oh Erros meus,

Oh Amor Ardente,

Oh INGRATA GENTE

Que pena nenhum dos nossos escritores contemporâneos, terem sequer usado – uma só vez que fosse, tal palavra – inclusivé até o nosso prémio Nobel da literatura.

Mas, ainda não são decorridos 15 dias, e o Sr. Rui Alves, lá na Madeira, e o comentarista Sr. Ferreira Fernandes usaram tal “vocábulo” e essa palavra até aparece escrita na “Bíblia Jornalística” dos nossos dias como é o “Jornal de Notícias”.

E como refere o comentarista Ferreira Fernandes, o Sr. Rui Alves foi capaz de dizer “Achamento” e “portugalidade EM CONVERSA (sic).  Por isso ele concluiu que “só um português é capaz de dizer tais palavras” e mais, o comentarista até finaliza:

“O Sr. Rui Alves é um português do caraças. Mais português é IMPOSSÍVEL.”

Em conclusão: 

A Academia de Ciências de Lisboa, representada pelo seu Instituto de Lexiologia e Lexicografia não “abriu” a “entrada” do vocábulo “portugalidade” no seu dicionário, – pois e de acordo com o que se afirma na Introdução do dicionário – que tal vocábulo não é falado por nenhum português, nem usado e escrito por nenhum grande escritor, pois até o nosso prémio Nobel da literatura – pelos vistos – nunca sequer o usou. Realmente um prémio Nobel, assim como as Instituições já citadas nunca quiseram saber desse vocábulo, ou pura e simplesmente não sabem o que tal vocábulo significa, e em si contém?

Será que eu, os meus queridos consócios que me escutam, os milhões de falantes portugueses – incluindo neles o Sr. Rui Alves da Madeira e o continental Ferreira Fernandes, somos afinal simples alienígenas fazendo turismo através do Planeta Terra?

Como não queria acreditar, no que os meus olhos viam, e o meu entendimento apercebera aquando da leitura da Introdução do Dicionário, tornei a pesquisar e a ler ambas as páginas Nº 2916 e 2917 (cuja cópia se junta no final deste pequeno ensaio) uma vez, que na realidade o vocábulo

“PORTUGALIDADE”

Não consta como “entrada” ou “abonação linguístico – literária” em tal OBRA. Encontrei como fruto dessa segunda observação, que existe lá a entrada:

À Portuguesa“, adv. significando: segundo os costumes, ideias, ou modos portugueses, COZIDO À PORTUGUESA ou  COZIDO (fls. 2917, folha direita, 3º vocábulo descrito).

Para mim, o Enigma estava resolvido. O nosso prémio Nobel, nunca usou o vocábulo portugalidade  ao contrário do que já o fez, o Sr. Rui Alves, ou o Sr. Ferreira Fernandes, pois na realidade, ele não sabe sequer o que isso é, nem tão pouco conhece a ideia e significação que tal palavra tem e contém. Ele afinal só conhece o “Cozido à Portuguesa” e por isso, o melhor e mais actualizado dicionário da língua portuguesa, não podia meter como entrada o vocábulo “PORTUGALIDADE” – e optou antes  por meter como entrada o cozido à portuguesa, ou simplesmente: COZIDO.

Realmente, o falar-se ou escrever-se “Portugalidade” além de possivelmente ser politicamente incorrecto, iria ferir a sensibilidade dos crentes da nova religião chamada “LAICISMO” e desonraria a pureza da escrita do nosso prémio Nobel de literatura pois ele, pelos vistos, jamais falou ou escreveu tal “aberração” de vocábulo: PORTUGALIDADE.

 

Mas, meus caros Consócios:

Que o vocábulo PORTUGALIDADE, existe, existe mesmo. Que milhões de falantes empregam tal vocábulo – É UM FACTO. O que é que ele quer significar, é que é talvez difícil de entender por muitos, e desejo de o excluir por outros menos.

 

Comunicação apresentada à Secção Luís de Camões dSociedade de Geografia de Lisboa a 18 de Abril de 2008

continua em: A Portugalidade e os Lusíadas – parte 2