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«Quando Reinhold Schneider na sua famosa conferência Europa e a alma de Portugal dizia ser o nosso país a mais europeia das nações, fundamentava-se no fenómeno do seu ecumenismo, iniciado com o ciclo dos Descobrimentos. É através da empresa lusíada que a Europa se descobre Europa, face a uma outridade de que até então não tomara plena consciência. O ecumenismo helenístico-mediterrânico na Antiguidade, ou hebraico-cristão na Idade Média, tivera afinal os horizontes curtos do continente europeu ou euro-médio-oriental e do mar com fim, o ecumenismo português não tem limites, é o do mar sem fim, para utilizar a expressão bem conhecida de Pessoa.

Para o malogrado filósofo alemão, a Europa é uma comunidade de povos, cada qual com a sua personalidade, com a sua mensagem especial; e só enquanto estas se afirmem como unidade a Europa persiste. É certo que a consciência da unidade tem de ser superior, mas de um grau apenas, ao amor à individualidade; se quiséssemos ignorar ou esbater os perfis dos povos, tudo quanto devemos preservar e defender estaria perdido. Schneider proferiu estas palavras na primeira conferência realizada pelo Instituto Alemão de Lisboa, em 1958, já na perspectiva do euromercado. E acrescentou que a Europa na sua intrínseca estrutura é um apaixonado protesto contra qualquer simplificação, qualquer plausível solução, qualquer tentativa de redução de homens e povos a um denominador comum.

Que é a Europa, disse, senão um delta, em que o rio se ramifica antes da embocadura? Que é a Europa, ao mesmo tempo una na ascendência espiritual da Grécia e de Roma, e diversa na fidelidade às suas diferentes tradições, senão um grandioso projecto, um salto para além dos mares, para lonjuras somente pressentidas e contempladas mas indescritíveis? Que é a Europa senão um anseio para além de si própria? É por isso que é aqui, precisamente aqui, no extremo Ocidente, onde a costa se despenha, onde o mar tenebroso negreja como promessa, sedução e perigo, que se desvenda a essência da Europa – tal como a constituição das camadas de um terreno no ponto da fractura.

Qual o princípio essencial das nacionalidades? Qual a sua razão de ser como comunidades independentes, na história e no espaço continental ou mundial em que se situam? Eis interrogações a que, pode dizer-se, cada concepção filosófica, ideológica ou sociológica dá a sua resposta. As nações existem e subsistem no tempo porque o sentimento de apego ao solo e às raízes, a que se junta toda a carga psíquica ou emotiva de uma herança tradicional, criando laços unitivos entre os componentes de grupo humano, se exprime pela vontade de autonomia política?

Porque a distância diferencial entre elas, para utilizar uma expressão de Claude Lévi-Strauss, a sua real originalidade etno-cultural, por assim dizer impõe, exige naturalmente a sua independência no xadrez internacional?

Porque os príncipes, os governantes, as classes políticas se servem da «ideologia» da nacionalidade para veicularem a sua vontade de poder?

Porque, fortuitas, contingentes, resultaram dos acidentes da história ou de um jogo de interesses económicos, que, assim como conduziram um grupo humano no sentido da sua independência, o poderiam ou podem conduzir noutro qualquer sentido, o sim e o não à pátria inteiramente tributários pois de factores a ela inteiramente extrínsecos?

Porque, como pensavam Pascoaes e Pessoa, a colectividade nacional é a expansão (em univocidade social duradoira no tempo), de uma alma, de um espírito, sendo pois um ente ou uma mónada com vida, energia e direccionismo próprios?

Porque um Deus criador e subtilmente interventor, um Deus de pensamento activo, investe algumas comunidades humanas de uma missão providencial, tornando-as portadoras de uma sobrenatural mensagem, suas emissárias neste mundo de geração e corrupção, lutadoras numa gesta por um acréscimo de humanidade e pela realização universal de valores superativos e transcendentes, com vista a um telos e, mais ainda, a um eschaton sobre-humano?

Testemunha dos homens e da sua vida em sociedade, se a literatura está sempre, queira-o ou não, envolvida nestas interrogações, a que dá as suas respostas mais ou menos implícitas, pois tem como objecto o concreto do meio em que decorrem a trama do romance, a intriga do drama ou a acção interior da poesia – , há no entanto escritores que muito particularmente exprimem ou desvelam o génio da língua, da cultura, da pátria a que pertencem, procurando ao mesmo tempo compreendê-la em sua realidade e em sua idealidade humana ou social.»

 

Mais informações em Fundação LusíadaA Ideia de Portugal na Literatura Portuguesa dos Últimos Cem Anos