CL 20

 

 

«Esta função medianeira do Amor avulta sobretudo quando o poeta imagina o culminar da viagem dos novos argonautas, alcançando o limiar da eternidade, não pela posse simbólica do ouro, mas pelo conhecimento amoroso com entes sobrenaturais. Como sempre numa ilha, tal a de São Brandão medieval, mas onde são mais evidentes que em qualquer outra os caracteres paradisíacos. Tal era o empenho do poeta em convencer EI-Rei D. Sebastião, a quem dedicava o poema, como os demais portugueses, para quem o escrevia, que quanto da obra feita acabara de cantar não era senão o princípio da que ainda faltava levar a bom termo!

Fosse qual fosse o seu influxo no ânimo do monarca, o facto é que, tal como se iniciara com D. Afonso Henriques, assim também então, em batalha campal contra os inimigos da fé, se interrompera, com D. Sebastião, dramaticamente, o percurso tão felizmente começado. E ainda desta vez milagrosamente assinalado, não já com o aparecimento de Cristo, mas com o desaparecimento do rei vencido; como se, derrotado no campo da batalha, lhe sobrasse ainda a virtude e o ânimo para transferir a outro plano, ignoto e mais subtil, a obra que não findara ainda ali. Tal como na sublime prece da Mensagem Fernando Pessoa veio um dia a consignar:

Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez. Senhor, falta cumprir-se Portugal!

Houve, pois, em Portugal – e não apenas em transitória fase de crise ou exaltação -, bem viva a noção de não ser ele um reino igual aos demais, não por qualquer privilégio que o isentasse da comum condição humana, mas porque um alto desígnio lhe impunha antes acrescidas responsabilidades e quiçá provações mais duras. Na tradição popular – como exemplarmente o mostrou Jaime Cortesão e, mais próximo de nós, Agostinho da Silva -, como entre os letrados mais identificados com o seu povo, esteve sempre viva a consciência de uma missão redentorista, salvífica, messiânica, atribuída a Portugal.

Quem sabe? Se, como dizia Álvaro Ribeiro, o V Império é o do quinto elemento, porventura acerte António Telmo ao ler no Horóscopo de Portugal a próxima entrada num novo ciclo, desenhado noutra esfera, que não corresponderá porventura à das terras, dos mares e dos céus que os navegadores portugueses descobriram com a Índia. Com Pascoaes e Pessoa, na senda de Bruno, essa leitura dos sinais confirma-nos na ideia de que não é na continuidade do caminho que temos trilhado desde há séculos – recuando, a cada passo, para mais longe do que é o nosso «lugar natural», a nossa natureza mais autêntica -, que reencontraremos a senda perdida.

Não temamos o descaminho – não escreve Deus direito por linhas tortas?! -, hoje como outrora, a via real a trilhar é a da aventura, ousada, mas racional, com risco, mas com rasgo. Deixemos os caminhos por demais trilhados, a certeza dos métodos confirmados, a segurança das normas gerais. Na manhã de nevoeiro todos os caminhos estarão irreconhecíveis!»

Joaquim Domingues

«Ao reflectir sobre a ontologia de Portugal das viagens e das descobertas, Afonso Botelho intuiu no conceito de arte teorizado e vivido no nosso Renascimento, duas condicionantes primordiais da sociedade formada nesses séculos – sobretudo a partir da dinastia de Aviz – dois princípios da arte de ser português: o princípio da visão teórica, universalizado em torno da ideia de unidade; e o princípio prático, realizado e concretizado na ideia de finalidade. Como exemplos deste amor pensado à medida das coisas e do universo, deste nó que aperta o real ao teórico, nas nossas atitudes criadoras, por mais líricas que elas sejam, apresenta os seguintes: o Manuelino; os tratados de D. João I e de D. Duarte, sobre a prática desportiva, de montaria e arte de cavalgar, que manifestam uma teoria subjacente à pedagogia; a Corte Imperial, que faz uso de expressões palpáveis e de imediata aplicação, ao tratar de temas supraterrenais ou especulativos.

Ora, é ao interpretar a acção descobridora dos Portugueses, à luz destes dois princípios, que Afonso Botelho rejeita com a imagem de expansão, tanto as teses economicistas, pragmáticas, tudo explicando pelo lucro, humanas, demasiado humanas, impressivamente descritas em seu primeiro momento por Gomes Eanes de Zurara, no cap. XXV da sua Crónica da Guiné, como as propostas espiritualistas incompletas, que não contemplem a via recursiva do imanente ao transcendente e que, portanto, descuram uma face relevante de serviço. Distinguirá descoberta e descobrimento. Sendo a descoberta, “o acto perfeito mas futurante”, a “disposição primordial”, palavra “mais próxima das origens ou do tempo em que o mareante recebia as novas terras e as novas ilhas como um presente do céu […]”, implicando um movimento do pensamento português mais pelo firmamento, que pelo fundamento. Como lucidamente afirma Pinharanda Gomes: “Nem tudo se achava descrito nos portulanos. Havia outros portulanos na mente dos navegadores e nas estrelas do firmamento”; sendo o descobrimento, “a acção, o esforço humano”, “o substantivo verbal, que objectiva o resultado em relação com o agente que descobre”, “um hábito”. “Haverá na história descobrimentos que não podem atingir a natureza de descobertas porque a acção que eventualmente os produziu não chegou a desvendar a face oculta da realidade descoberta, não chegou verdadeiramente a descobrir.”»

Elísio Gala

 

Mais informações em Fundação Lusíada: A Geopolítica dos Descobrimentos Portugueses