CL 16

 

«A Atlântida referida por Platão no Timeu, significava a racionalização de um mundo havido, histórico, um mito, um símbolo, a racionalização de um mundo a haver? Qualquer que seja a resposta, enquanto realidade prospectória de novos territórios integráveis, o atlantismo parece ser o atributo dos povos menos presos ao território. Eis, porque, enquanto povo euro-atlântico, o ideal europeu tem de ser o português, esse ideal de dar novos mundos ao mundo.

Se é certo serem as terras o corpo das pátrias, com a perspectiva cosmológica de Álvaro Ribeiro, é compatível não só o território da história, o que houve, mas sobretudo o território a haver em autonomia nacional e autocracia estadual, imortalizado n’ Os Lusíadas e simbolicamente interpretado na Monarquia de Dante. “Na fluência dos eventos flutua um símbolo perene. Vemo-lo agora na bandeira nacional, entre o verde messianismo judeu e o rubro fatalismo arábico. A História de Portugal figura-o pelo Quinto Império, ou seja, pelo Quinto Elemento, ou pelo quinto ponto definido pela Cruz, acima da coroa real. Sobre a esfera armilar dos Descobrimentos vemos o escudo do guerreiro lusitano, dentro do qual as Quinas configuram uma cruz, a de Santo André. Sinal de multiplicação, é também sinal de expansão, ele resume a doutrina escrita nos versos imortais de Os Lusíadas.

Monarquia de Dante, cuja interpretação simbólica excede a interpretação política, implica a lealdade a um rei que seja filósofo, mas explica muito melhor a realeza da filosofia. A veneração do povo português por D. Dinis, D. Duarte, D. Sebastião e D. Pedro V é pressentimento de verdade transcendente. O Sebastianismo cai no passado quando os povos ficam mais presos à imagem do que à ideia [...]. Se, em vez da figura de um rei filósofo, situarmos a forma da filosofia, entenderemos, enfim, a significação mais alta do Quinto Império” («Meditação Lusíada – Amanhã, V Império»).

O problema fundamental da política, para Álvaro Ribeiro, sendo também o da caracterização do melhor regime (politeia) – aquele onde governam os melhores homens visando o bem da comunidade política – é sobretudo o da realização da boa vida humana na realização por cada homem, de si mesmo, na abertura ao amor, à verdade, ao espírito, realização a ser feita num povo. O problema fundamental da política, para Álvaro Ribeiro, é o da felicidade originada da actividade livre segundo a razão e a virtude, de homens animados pela amizade (cf. Aristóteles, Política, 1. III, c. 6, 1279a22).»

 

Mais informações em Fundação Lusíada: A Filosofia Política de Álvaro Ribeiro