CL 35

 

«À luz e à sombra do céu, florescem todas as criaturas, as variedades de seres animais, de árvores, de plantas, de flores e de frutos, que, na imensa variedade de formas apresentam a unidade quanto ao princípio ou causa de vida, todas comungando de idêntica matéria prima que se revela em diversidade de figuras e de metáforas. Análogo ostento nos é apresentado pela invenção dos múltiplos caminhos de vida do espírito cristão. A Europa deveio um laboratório de formas, enquanto à luz e à sombra do mesmo ideal, libertou cada um para a escolha de singular caminho. A Religião cristã floresce em religiões, quer dizer, em espiritualidades, em vias de perfeição, em modo de viver a mesma fé e o mesmo culto, porque o Espírito floresce em dons, ou carismas, e estes são diversos uns dos outros, como as flores no mesmo caule. A alma cristã da Europa embebeu-se, e ainda se embebe, das espiritualidades que, surgentes no espaço físico, determinam o ambiente, o clima e a herança das greis, às quais são dados a contemplar e a considerar os pluralismos do modus orandi e do modus vivendi.

As Ordens monásticas e mendicantes escolheram cada uma o seu espaço ecológico. Dos Carmelitas se dizia preferirem as grutas; dos Dominicanos (e já no século XVI também dos Jesuítas) as cidades; dos Franciscanos as aldeias; dos Beneditinos os montes, e dos Cistersienses os vales. A Mendicância objectivou a reevangelização da Europa, estando fora de dúvida que a definição integral da relação culto/ cultura ocorreu nessa época, sobretudo durante os séculos XII e XIII, assinalados também pelos movimentos de reconquista a Ocidente, após a ocupação islâmica, que, no caso concreto da Ibéria oriental só terminou no século XV com a queda do Reino de Granada. Construira-se uma identidade cristã na diversidade das culturas nacionais e regionais.
A abertura do Mundo foi um convite à Fraternidade. Muito longe de prever o que estava na divina Providência, mas certo desta Providência para os melhores fins da criada Humanidade, achamos palavras proféticas no principal escrito de historiologia cristã da medievalidade, quase no termo da época patrística: “Foi Deus que estabeleceu esta dignidade do Reino – de tal modo que todos o amam e todos o respeitam. Mas foi o próprio Deus quem quis tornar-se conhecido desses tempos. As mesmas leis, que se submetem aos desígnios do único e verdadeiro Deus, têm a mesma validade em toda a parte. Assim, em qualquer lugar onde eu adregue de chegar como um estranho, não receio qualquer ataque imprevisto… Entre Romanos sou Romano; entre Cristãos um Cristão. Entre homens, sou um homem e nesta condição, pelas leis, imploro o direito de ter uma Pátria; pela Religião, uma consciência; pela comunhão de uma Raça, a natureza… Tenho toda a terra como se fosse a minha própria pátria” (Orósio).

O laicismo alógico potencia o ateísmo. Na falta de léxico adequado para definir a situação, parece-nos que o cristianismo europeu se degradou numa variante de paradoxo, que nominamos de cristianismo ateu, quer dizer, um Cristianismo sem Deus. Este factor define-se como uma aceitação genérica dos valores culturais cristãos em termos de Moral e de Direito, mas esvaziado do conteúdo ético e religioso, como se a conformação cristã herdada não fosse mais do que um acessório, uma accidentia prescindível. O fenómeno deveio profundo e afectante na segunda metade do século XX e prevalece ainda, sendo ostensivo o propósito dos poderes temporais de totalmente demitirem a Religião da história política, quando, na recta análise, a Religião, sendo um fenómeno inerente à comunidade, não pode ser escamoteada da Política (isto é: da Cidade) se bem que administrada para além do temporal, e não obstante o temporal.

O Estado visa estabelecer o ateísmo, uma sociedade livre de Deus. Esta política de libertação, no que à Europa respeita, agrava-se no caso da herança cristã, conforme o que da nova Constituição Europeia se depreende: apesar das pretensões de alguns Estados, a Constituição que, afinal de contas, é determinada pelas potências mais poderosas (Alemanha, França, Inglaterra) totalmente omite referência à herança cristã, como se a Europa dela não resultasse.

Aquelas interrogações que Alexandre Herculano pôs na boca do presbítero Eurico, quando apenas e só quatro séculos, haviam decorrido sobre o sacrifício da Cruz e a glória da Ressurreição, acham-se em bom estado invocativo, se bem que, no romance de Herculano, apenas atinentes à Hispânia, e ora predicáveis de toda a Europa: “Quem é hoje cristão (…) nesta nossa terra (…)? – Uma geração degenerada pisa os restos de heróis: homens sem crença, blasfemos ou hipócritas, sucederam-se aos que criam na grandeza moral do género humano e na providência de Deus. (…) Dantes, o sacerdote era o anjo da terra: os que passavam curvavam-se para beijar a fímbria da sua estringe; porque a paz e a esperança entravam em todas as moradas sobre que desciam as bençãos deles”.

Tal como outrora, o desafio chama-se santidade, mediante a qual cada pessoa será protagonista da evangelização. Não há santidade sem compromisso missionário, em que os cristãos hão-de ser muito mais do que administradores de comunidades, gerentes de freguesias e dispensadores de sacramentos. Terão de ser Evangelho em carne viva. A igreja doméstica tende a ganhar cada vez mais importância numa sociedade organizada, ou desorganizada, quanto à transmissão da axiologia religiosa. Em muitos casos apenas haverá igreja doméstica, sem proximidade de instituição paroquial

O lugar é espiritual, sem onde físico, pelo que o Reino estará dentro de cada alma. Não é lugar material (non erat locus), mas congregação espiritual e política (congregatio quaedam spiritualis et politica). Império de Cristo e dos Cristãos, será “Reino e Império espiritual no fim e causas de sua instituição, espiritual nas leis, espiritual no governo, espiritual no uso, nas execuções e no exercício” (Vieira).

O V Império, oculto, será no tempo e no lugar? Uma utopia destinada a Reino real, cujo instrumento será o homem. Um modelo desse homem é David, que “não era um Soldado com a espada na cinta, era um Mestre de política, tão dextro nesta esgrima… e sendo um homem que parecia tanto do Mundo, tinha debaixo de um pé todo o globo da terra, debaixo do outro toda a esfera do Céu” (Vieira). Um homem, com os olhos da sua esperança fixos “sem pestanejar só em Deus”. O homem, todavia, de modo algo diferente do radical antropocentrismo de Bruno, é um medianeiro e não o princípio. Este, definido na causa principal e eficiente, é o Padre Eterno, o que Vieira dá como afirmado na questão duodécima do Livro IV. Entre os medianeiros, os portugueses serão escolhidos: “Portugal o centro, Portugal o teatro, Portugal o princípio destas maravilhas”. Como se Vieira visse, em Portugal, um outro “Daniel na cova dos leões” (Dan., 14, 23-43), que seriam os castelhanos e dos quais se libertou incólume. O grande pregador oferece-nos, pois, uma outra leitura – a do restauracionismo nacionalista no quadro da catolicidade e na mediação para o Mundo Novo.

Através de uma que outra ambiguidade nos prognósticos, tanto acerca da cronologia sagrada, como da sacra topografia, o tipo doutrinal patente nos discursos de Fernão Lopes e de António Vieira pertence ao que designaremos por Teologia da Esperança, cuja melhor definição continua sendo a dos catecismos da infância: “virtude sobrenatural pela qual desejamos e esperamos a vida eterna, que nos está prometida na Redenção”. Nem a Sétima Idade, nem o V Império se instituem como os dias da vida eterna, para além dessas idades e sobre elas, estando o Reino dos Céus. Todas as idades sagradas temporais devem interpretar-se como átrios do Reino, não mais do que átrios (adros) do Reino. Na arquitectura sagrada, ao chegarmos ao adro, ficaremos mais perto da capela-mór, o Santo dos Santos. Se chamarmos a simpósio a parábola das dez Donzelas (Mat., 24, 1-13) em que cinco se apresentam com lucerna e azeite, e outras cinco só com lucerna, podemos brincar e aduzir que a cada uma equivale uma idade ou um império, e que o tempo deste é sucessivamente interrompido, porque à idade de uma donzela prudente, que traz lucerna e azeite, segue-se o tempo de outra sem azeite, que tem de ir procurar, para que a lucerna lhe seja acesa, e possa ser admitida na côrte senhorial. Neste quadro, as idades não se sucedem em cronologia linear, mas em linha quebrada e, como se sabe, a linha quebrada é o vero grafismo do ser humano.

A vera idade, veri(ae)tate pode não ter a ver com o cômputo cronológico, mas com o cômputo anagógico. Se assim for, erraram todos quantos colocaram, e têm colocado, a idade solene no tempo, vinda de fóra, quando o caminho recto já foi anunciado, pelo que nos resta o melhor quinhão: fazer idade solene em cada momento. O reino está dentro da alma, que, se imersa nas bem-aventuranças, exercitará o cômputo das idades, não em função do calendário, que é convencional, mas em função do santuário, chamado alma. E a verdadeira profecia, o verdadeiro cômputo será o que achamos quando indagarmos do estado de saúde da nossa alma. De cada um, pois esse estado de saúde é o que abre as portas à Última Vinda.

A mais rigorosa Teologia da Esperança abrange a salvação universal, neste universal incluídos o homem e todas as criaturas suas irmãs, sejam elas de que dia forem, desde o 1.º ao 6.º dias. A Providência, que outrora escolheu um Povo para sacerdócio medianeiro (Israel) tem o poder de escolher outro, em diverso tempo (três, cinco, ou sete) e em diverso lugar, mas esta escolha não se destinará a que o escolhido se sirva a si mesmo, como se a honra, o poder e a glória só a ele coubessem. Na verdade, ao povo escolhido caberá servir, obediente à regra orare et laborare, em despojamento ao serviço do outro. A honra, o poder e a glória cabem a quem se pede adveniat Regnum tuum

 

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